O que seria de cada um de nós se não fossem os sonhos? Geralmente eles têm cor, brilho, sucesso, amor, paz, tranqüilidade. Se houver um pouco de dinheiro e fama, ainda que efêmera, é simplesmente o paraíso.
Neste exato momento estou assistindo ao Ídolos. O programa retrata a nossa mais absoluta miséria. E quão míopes podemos ser.
Se por um lado, existem muitas pessoas com talento que são absolutamente ignoradas, também há aqueles deslumbrados, equivocados, tapados, sem noção e que, para piorar, contam com o apoio da família e amigos para pagar mico em rede nacional.
As pessoas fazem qualquer coisa para deixarem de ser aquilo que são. Iludem-se com o improvável, insistem na "piração", choram desesperadas, dizem palavras de efeito tão profundas quanto filosofia de pára-choques de caminhão.
Há pouco, um obeso dentuço com óculos fundo de garrafa acreditou que tinha popularidade na eliminatória do Rio de Janeiro. Sentia-se tão na crista da onda que arrumou encrenca com uma ex-cover da Britney Spears (daquelas que dizem “os outro fala” e “mim vai cantar”), pois os dois invocaram que cantando Extravasa, da Cláudia Leite (Santo Deus, onde isso vai parar) seriam escolhidos como futuros ídolos do Brasil.
Pra ajudar, na entrevista com os jurados, ele revelou que estuda matemática e, uia, dança numa boate. Claro que ninguém teve coragem de perguntar que tipo de boate era. Num determinado momento, ele saltitou, quase deu uma estrela – quer dizer, seria um rinoceronte tentando se sacolejar – saiu do espaço estipulado, desafinou mais que taquara rachada. No fim, tinha a presunção de que seria escolhido, ficou estupefato.
Um outro candidato de Salvador, por exemplo, deixou o celular ligado, que obviamente tocou, bem no meio da apresentação. Era a esposa dele, querendo mandar vibrações positivos. O guapo, bem estilo Xandy da Carla Peres, tem duas mulheres e afirmou que ao invés de sangue, tem dendê correndo nas veias. Cantou no estilo... estou cagando um troço bem grande e está doendo, oxente painho... e... Salviano mostrando a cueca comprada no Carrefour, pasme... foi escolhido. Segundo o jurado Luis Calainho, por acreditar no que estava fazendo.
Ainda bem que no meio dessa tigrada, aparecem pessoas interessantes. Alguns pela voz, outros pela atitude, outros pela serenidade.
E assim a gente pode continuar sonhando que nem tudo está perdido. E que a vida, sem sonhos, por mais absurdos que possam parecer, não tem graça alguma.
Publicado em 27 de agosto de 2008 às 00:15 por joao