O verão não me foi favorável naquele começo de 1988. Para espanto de metade de Rolândia, eu não passei no primeiro vestibular. Os professores, amigos, família não acreditaram que o melhor aluno da cidade no ano anterior, não conseguira iniciar o curso de jornalismo na Universidade Estadual de Londrina.
Fiquei chateado uns três dias, afinal todos os meus amigos – Keno, Jonas e Juliano passaram de cara (Educação Física os dois primeiros, e Física, o Juliano) e o C-D-F aqui ficara de fora. Peito nu e cabelo ao vento – naquela época eles eram bem fartos – decidi que entraria na UEL no inverno. Matriculei-me no cursinho noturno, inglês aos sábados, estudo diário junto com a Sueli e tão logo terminaram as provas, tinha certeza absoluta que meu nome estaria na lista de aprovados. Das 50 questões de português, fiz 43. Das 60 de Estudos Sociais, 45, das 40 de Inglês, 30, não zerara em física, matemática e química, fora bem na redação.

Eram quatro horas da tarde do dia 28 de julho de 1988. A Rádio Folha FM interrompe a programação para anunciar os aprovados. Começa a leitura, ouvido grudado na caixa de som. O locutor Júlio César, disse em tom solene: “vamos agora aos aprovados em comunicação social: Adriana Lara Lustosa Pires, Adriana Verri Maciel, Adrieni Gomes Ferreira, Altenízia Irene Silva Oliveira, Andréa da Luz Prates, Audrey C. Welter, Aurélio Cardoso, Cláudia Mitsuko Suzuki, Cláudia Yuri Sakemi – O CORAÇÃO JÁ SALTAVA PELA BOCA – Cristina Loose, Denise Paro – SANTO DEUS, NOSSA SENHORA – Edenilson de Almeida, Edenilson de Almeida, Edenilson de Almeida, Edenilson de Almeida, E d e n i l s o n d e A l m e i d a, E d e n i l s o n de A l m e i d a, E d e n i l s o n de A l m e i d a.
As palavras ficaram ecoando, ecoando, eu não conseguia ouvir nada além do meu nome e comecei a gritar muito alto de felicidade. Saí correndo do quarto, abracei a minha mãe e imediatamente sou surpreendido pelos amigos mais queridos desse mundo, que lá estavam para o trote.
Pela primeira vez na vida tomei pinga, pela primeira vez na vida fiquei bêbado, pela primeira vez na vida tive os cabelos raspados, pela primeira vez na vida falei todas as bobagens que um bêbado tem o direito de dizer, pela primeira vez na vida desejei que o tempo parasse e a gente ficasse ali comemorando, festejando, celebrando.
Seo João e dona Alice, meus pais, foram muito legais e gentis. Já meio alto pela bebida, lembro dele dizendo... “Oh Nêga (ele chamava minha mãe assim), vou comprar uma carninha , que essa meninada deve estar com fome”. E assim foi feito. Churrasco que só senti o cheiro, maionese que eu nem cheguei a provar, mandioca cozida e bem molinha, tudo absolutamente perfeito, como eu sonhara todos os dias daquele primeiro semestre de 1988.
No dia 29, a Folha de Londrina trouxe meu nome escrito direitinho, na página 04. E qual não foi o orgulho de pegar a bicicleta Caloi Barra Forte vermelha, correr ao barbeiro no centro da Cidade, o Bidóia, e pedir: raspa no zero. E como foi bom repetir uma, duas, três, seiscentas e vinte e oito vezes... eu passei na UEL, vou ser jornalista, eu passei na UEL, vou ser jornalista.
Ainda hoje sinto uma alegria tão grande que meus olhos se enchem de lágrimas. São 20 anos. Se eu tivesse um filho naquele ano, ele já seria adulto, talvez tivesse prestado o serviço militar, talvez eu até já fosse avô. Não foi o que ocorreu, mas eu me sinto imensamente feliz, grato, recompensado. Tenho certeza de que fiz a escolha certa, gosto de ouvir as pessoas, repassar as histórias que elas me contam.
O mais curioso é que essas duas décadas simplesmente voaram, muita coisa aconteceu. E a vida continua sendo surpreendentemente maravilhosa.
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Toda mudança é positiva. A frase é da minha amiga Fernanda Martins. Ela foi uma das muitas gratas surpresas que conquistei em Curitiba, nesse um ano que estou na Capital.
Era mais ou menos final de maio quando fui convidado pelo Ricardo Toledo para fazer parte do grupo que implantaria a TV Sinal (Som, Imagem e Notícias da Assembléia Legislativa). Tinha recém começado a namorar, vivia uma fase profissional muito boa em Londrina, era articulado, conhecido e reconhecido.
Tudo isso – com maior destaque para o namoro – pesou na minha decisão. Pensei que não gostaria de me aposentar como professor e que talvez – considerada a minha idade – fosse aquela oportunidade que ninguém poderia deixar passar. E mesmo com o coração bem apertado – cancerianos sofrem muito com separações – optei pelos ares da capital.
A despedida em Londrina foi bem discreta. Apenas eu, o André, o Carlos, a Thais e o Tomás. Almoçamos no Mercado Guanabara. Como foram longas cada uma daquelas garfadas. Assim como foram imensos cada um dos 380 quilômetros que me separavam de Curitiba.
Chorei durante praticamente toda a viagem. Parti com a certeza de não mais voltar. A estada de 2003 fora ruim, mas este retorno encheu meu coração de esperança.
Aqui fui acolhido de maneira muito especial. Um jantar entre mim, o Beto, a Simone e o Júnior celebrou o início desta nova etapa de vida. Depois conheci o grupo que faria a TV Sinal funcionar.
Quantas excelentes surpresas. A primeira delas atende pelo nome de Carmem Sunye. A segunda, por Ney Hamilton. Esses dois curitibanos me abriram os braços como ninguém melhor faria. Mais que companheiros de trabalho, fizeram-me sentir em casa. A empatia foi imediata, amizade à primeira vista mesmo.
Depois foi um suceder de encontros, descobertas, aprendizados, avaliações, reavaliações. As fotos “falam” mais sobre a participação de cada um nessa história.
Quero registrar aqui duas pequenas gentilezas, daquelas que fazem a gente pensar que tudo realmente vale a pena, mesmo com eventuais decepções. Claro que nem tudo foram flores. As pessoas se comportam de maneira muito diferente aqui. Têm atitudes que nem sempre eu compreendo, mas tenho me esforçado para não me incomodar. Afinal, cada um é cada um.
A Rosi Guilhen é um presente. Na páscoa, ela perguntou se eu ganhara muito chocolate. Respondi que não. No dia seguinte, discretamente deixou alguns bombons na minha mesa. Noutra ocasião, após uma conversa informal na hora do almoço, ela atentou que eu gostava muito de bolachas. Foi o suficiente para que me trouxesse um pacote das melhores opções de uma panificadora londrinense. E depois repetiu a dose com os biscoitos feitos pela mãe dela.
Decididamente não sou parceiro da solidão. Gosto das pessoas e elas me fazem falta. Algo muito bom aqui é o fato de praticamente não ter almoçado sozinho nesses 365 e mais alguns dias de vida curitibana.
Hoje a lua de mel acabou, os problemas surgiram. Mas olhando para trás, valeu a pena. O futuro é uma incógnita, mas já existe uma certeza: toda mudança é positiva. Palavras da Fernanda Martins, numa das nossas muitas calorosas e afetuosas conversas.
A boda de prata da Rede Globo não poderia ser pior. Era 1990, programação mais que especial, novela de Silvio de Abreu com elenco estelar –
Rainha da Sucata – música tema na “onda” daquele momento – a lambada – a hegemonia de audiência intacta. Eis que um antigo “filho” da casa – Benedito Ruy Barbosa muda de endereço – a extinta Rede Manchete – e cria uma trama que pela primeira vez, desde o início da década de 70, tirou a liderança da Globo no horário nobre.
Pantanal era uma aposta de risco. Com a maior parte das cenas gravadas no recanto natural do Mato Grosso, o folhetim foi esnobado pela "Vênus Platinada". O elenco tinha nomes consagrados, mas a grande maioria era iniciante.
Contrariando qualquer expectativa, a novela foi sucesso absoluto. Dezoito anos atrás, a mistura toda deu muito certo. Cenas belíssimas da natureza, muito sexo e mulher pelada, a “crítica” da época dizia que acompanhar a trajetória de José Leôncio servia como um bálsamo para quem chegava em casa cansado do trabalho e estava enjoado das estórias do Rio de Janeiro. Era um mergulho no interior do Brasil. Eu tinha 20 anos em 1990. E passei a acompanhar a novela com muito entusiasmo.
Hoje, inicialmente por uma certa nostalgia, voltei a ver os capítulos na reapresentação pelo SBT. E só agora tudo fica mais claro. Realmente
Pantanal tinha um ritmo bem diferente das demais tramas. Tudo é mais lento, calmo, bem parecido com as pequenas cidades deste Brasil imenso.
Do ponto de vista do folhetim, apenas dois núcleos: Rio de Janeiro e Pantanal. Todos os personagens se relacionam diretamente. A texto é dito de maneira pausada, sem sofreguidão. Vira e mexe aparece alguém pelado. No capítulo de ontem, por exemplo, a Juma e a Muda tomaram o banho mais longo da televisão brasileira. E o Paulo Gorgulho apareceu num ligeiro nu frontal com a Ingra Liberato, os dois jogando-se no rio.
São os diálogos, porém, o melhor de
Pantanal. O reencontro do pai com o filho criado no Rio de Janeiro foi emocionante. E esses dois estranhos demoram a se entender, pois os conflitos, claro, são o esteio de qualquer drama. As cenas, porém, são repletas de afeto.
Pra mim, parece coisa de apaixonado. Gente que embarcou numa estória promissora, vestiu a camisa, acreditou que poderiam fazer a diferença. E realmente fizeram.
Posted by joao at 12:01 AM. Filed under: Geral
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Ontem o SBT mexeu na grade da programação pela milionésima vez. E a Hebe foi ao ar às 20 horas. No programa, a modelo Isabeli Fontana afirmou que não gostaria de ter um filho gay.
Depois tentou dizer que o compreenderia bla, bla, bla.
Ainda bem que a gente vê e ouve apenas o que deseja, né?
Lembrei do ditado contado pelo meu avô Francisco Bernardo de Almeida: me diga com quem andas e te direis quem és.
E mais não digo porque pode dar uma confusão danada. É isso!
Posted by joao at 12:01 AM. Filed under: Geral
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