Era um tempo com angústias diferentes, admito que mais simples, com menos contornos sofisticados. Com o possante veículo, viajei sem os meus pais pela primeira vez, na companhia de dois amigos, o Keno e o Jonas (o Juliano estava cumprindo o serviço militar). Caiobá pareceu o paraíso. Nem mesmo os diversos problemas mecânicos, elétricos e que tais do automóvel foram suficientes para desanimar.

Vivi a ilusão de que o tempo se encarregaria de deixar tudo mais sereno, que a tão saudada experiência, ou ainda a maturidade, compactaria as dores, redimensionaria os aprendizados, afagaria a alma. Não foi exatamente assim que se sucedeu.
E hoje lembrei do Paulo Armando Ribas Júnior, meu afilhado de casamento. Certa vez ele escreveu, aqui mesmo no Tipos, que nem mesmo os muitos tropeços, nem mesmo os maiores desafios se esgotam com o tempo. E que dia após dia, estamos aprendendo. E a razão, segundo ele, é, aparentemente, simples. “Não é o ‘aprendizado’ que é lento. É que ele nunca acaba”, escreveu.
Eu também pensara que apenas as dores eram vivências únicas, irremediavelmente exclusivas, pois ninguém – por mais próximo que seja – é capaz de vivê-las em nosso lugar. Agora percebo que mesmo ela, a tal felicidade, os momentos de alegria, também são absolutamente individuais.

Cada um dimensiona as conquistas de acordo com o investimento nelas depositado. E uma vez realizadas, mesmo as pessoas mais importantes estando próximas, o gosto da meta atingida é saboreado solitariamente. Só a mente de quem cruzou a linha de chegada sabe exatamente o valor de cada centímetro percorrido.
Admitir este fato tira um pouco do colorido da vida. Torna as pessoas ao redor um pouco cinzentas. Mas, por mais paradoxal que seja, deixa-nos mais fortes, menos dependentes, talvez até mais preparados para um novo aprendizado, aquele que nunca, nunca mesmo, se esgota.
Embora eu ainda insista em brigar com os fatos, embora eu ainda continue acreditando nas pessoas, embora eu ainda pense que o certo é o fazer o certo, de vez em quando dá um desânimo, uma descrença, uma desesperança.
As respostas são mais lentas, o corpo já apresenta reflexos mais retardados, o cansaço, sim, é mais rápido. Assim como as marcas do tempo estampadas na face, nos fios de cabelo branco na cabeça, no peito, naquele lugar e, pasmem, dentro do nariz.

E quando tudo isso acontece, quando se percebe tudo isso, também não há muito a fazer. Não tem receita para retirar toneladas do peito. Talvez o melhor desses quase 38 anos é saber que depois deste post, talvez amanhã, ou ainda no sábado, eu consiga olhar pra tudo isso, dar um discreto sorriso, me encantar com algo inesperado e, assim, continuar acreditando que viver é uma grande dádiva, que as pessoas valem a pena e esta foi apenas mais uma morte que aconteceu, mas que não se encerrou em si mesma.
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