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Friday, May 16, 2008

A minha mãe, em foto de 1944, quando ela tinha doze anos e completara o ensino primário. Nunca mais voltou às salas de aula. Mas é mestra em muita coisa.


Quando tive a mais dolorida das conversas com minha mãe, ela olhou-me nos olhos e disse-me que nada tinha tanta importância, exceto eu continuar sendo o filho dela. Noutra ocasião, precisei deixar claro que filhos e casamento convencional não estavam mais nos meus planos, ela olhou-me com o mais maternal dos olhares.
- E quem vai cuidar de você na velhice?

Embora consternado e emocionado pela preocupação, retruquei que filhos não garantiam absolutamente nada. E que na vida, nossas mais importantes vivências eram, de fato, muito solitárias. Nascemos sozinhos, passamos as piores dores sozinhos e até mesmo para morrer, precisamos de forças – algo que me disseram logo que o meu pai nos deixou – para o derradeiro ato. E ele também é solitário, único, exclusivo.

O tempo, sempre ele, é cruel com algumas pessoas. Com minha mãe não tem sido diferente. Acometida de vários problemas de saúde, é uma brava guerreira. Não se conforma com as limitações, briga com os sinais do tempo, incomoda-se com as dificuldades. Eu sinto muito orgulho.

Recentemente ela teve um pequeno derrame cerebral que lhe tirou algumas funções bem vitais. Daquelas que humilham quando nos percebemos incapazes de realizá-las. Ficou ainda mais dependente. Teimosa, reclama de ir ao médico, embora algumas sessões de fisioterapia tenham devolvido um pouco mais de conforto.

A minha mãe tem medo de faltar dinheiro. – Não quero dar trabalho a vocês. Esta postura sempre foi muito presente na nossa vida. Lembro dela dizendo que era importante lavar a louça do jantar antes de dormir. Caso passasse mal durante a noite e precisasse da ajuda de alguém, dos vizinhos, dos parentes, ao menos não teriam que arrumar a cozinha. – Evite dar trabalho a quem quer que seja.

Embora diga que a vida caminha cada vez mais rápido para o fim, a Dona Alice se preocupa em não precisar do dinheiro dos sete filhos. Desta vez, no último fim de semana, fui eu a olhá-la nos olhos:
- Não vai faltar dinheiro à senhora. E se faltar, saiba que a gente vai cuidar da senhora até o último minuto.
Os olhos dela marejaram.

Noutro momento, ela perguntou se eu estava bem em Curitiba. Reafirmei mais uma vez que nunca vivera fase tão boa, que passava pelo meu melhor momento pessoal e profissional. Sentada na cadeira, ela segurou as minhas mãos.
- Eu não consigo ver você assim, tão grande. Pra mim, você ainda é um menino. Eu vejo você brincando pelo quintal, pela chácara, voltando correndo da escola e pedindo mamadeira. Eu só vejo você assim. Por que será?
Os meus olhos marejaram.

Antes de vir embora, pedi-lhe que fizesse mais fisioterapia, pois os resultados ela mesmo dissera serem bons. E que não se preocupasse com dinheiro, comigo, com nada, exceto a própria saúde. E ainda, que se algo viesse a faltar, ela poderia contar comigo. Sempre.

Minha mãe então me abraçou e chorou muito. Copiosa e dolorosamente. Foi um choro sentido, do fundo da alma. Pedi-lhe que não chorasse, não havia razão para isso. Voltou-me a abraçar e chorou ainda mais.

Ficamos ali por alguns instantes, beijei-a no rosto e saí pegar o ônibus e voltar à Curitiba.

Eu fiz 30 anos, estava com minha mãe e meu pai, num dia absurdamente feliz. Foi a última foto dos três juntos.

Comments

6 comments

Olhando para esta imagem, sabendo que foi a última foto dos três juntos, relamente emociona muito. Imagino que seja a fotografia mais importante pra você...lindos.

Bjos no coração.

Posted by andre valle at Friday, May 16, 2008 00:11:08

Agora foram meus olhos que ficaram marejados.

Texto emocionante!

Beijão

Posted by Sílfide at Friday, May 16, 2008 08:57:50

Eu também fiquei muito emocionada com o texto.
É muito lindo o seu relacionamento com a dona Alice. É o que há de mais valioso nesta vida!
Saudades de você, querido!
Beijo grande!

Posted by Michelle Aligleri [desloguilson] at Friday, May 16, 2008 15:21:03

A vida é maravilhosa, por isso tememos tanto a morte!

Posted by fernanda [desloguilson] at Saturday, May 17, 2008 15:47:47

O que nesta vida, é mais lindo que uma que uma flor, uma criança, e a própria mãe? Elizeu

Posted by Elizeu [desloguilson] at Sunday, May 18, 2008 19:28:47

Sabe Eddie..eu sempre digo repetidamente que não quero a velhice. Quero morrer bem, ainda nova, com poucas rugas e muitas conquistas. Sua mãe é um símbolo de luta, assim como minha vó. Vejo que as duas têm a mesma preocupação e isso me deixa ainda mais certa da minha vontade...
a velhice não é fácil...só os guerreiros resistem!
adoro sempre os textos...
obrigada por tudo que me trás de bom, de bonito e feliz!

Posted by Bárbara [desloguilson] at Wednesday, May 21, 2008 09:57:12

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