Certamente não seria uma rima, muito menos uma solução.
Eu venho de família grande, somos nove filhos, eu o caçula. Meus pais batizaram na Congregação Cristã do Brasil ainda jovens e solteiros, de modo que a prole – quase inteira – ganhou nome bíblico.
Tudo começou bem com o Mateus, Davi, Maria Madalena, Paulo, Moisés e Elizeu. A minha segunda irmã deveria se chamar Laldicéia, para manter a tradição evangélica, mas na última hora acabou virando Laldeci, que se tornou Lalda e talvez isso tenha definido meu interesse por televisão, sei lá.
Eis que o pequerrucho aqui vem ao mundo, o Irmão João e a Irmã Alice olham pra minha carinha rechonchuda e decidem me chamar João Batista. Conversam um pouco mais e eu me transformo em Gilberto, que não tem absolutamente nada de bíblico, pelo menos que eu saiba. No meio do caminho, Papai teve um “siricutico” e me agraciou com o Edenilson.
Tudo mudou naquele instante na pequena Corbélia, interior do Paraná. Mal sabia o meu pai que todas as pessoas do universo errariam o meu nome e que isso me deixaria, invariavelmente, irritado. As professoras erravam, os vizinhos não lembravam direito, e o melhor amigo do meu pai, o Irmão Antônio quase caiu pra trás, já que sempre imaginou que eu respondesse pela alcunha de Éden, assim mesmo, como o Jardim do Éden, de Adão e Eva.
Volta e meia eu fazia alguma birra por causa do meu nome e, desde criança, perguntava à minha mãe porque ela não continuara com os livros da bíblia. Por que não me agraciou com um João, José, Marcos, Pedro, Thiago, até Timóteo, sei lá.
Eis que chegou então, a formatura da oitava série. Todos os meus amigos apostavam que eu seria homenageado como melhor aluno, já que as notas do queridão aqui sempre foram ótimas, modéstia às favas. Preparei minha vingança para o grande dia.
Por alguma razão que eu não me lembro, o assunto nome veio à baila e falei pra minha mãe que todo mundo não sabia dizê-lo corretamente e que isso deveras me irritava. E alertei: se no dia da minha formatura errarem o meu nome, não levanto pra receber o diploma.
Uma sexta-feira calorenta de dezembro, nós todos na Igreja da Vila Oliveira – praticamente um ultraje para os evangélicos – começa a colação de grau. Quem entregou o certificado de conclusão foi a dona Rena Verri, nossa professora de português e madrinha da turma. Muito cuidadosa, disse pausadamente E-D-E-N-I-L-S-O-N e lá fui eu, todo faceiro, minha mãe exultante de alegria.
Eis então que o diretor geral da Escola Estadual Professor Francisco Villanueva, professor Ilton Gonlçaves Barbosa, anuncia que iria entregar uma medalha para os melhores alunos de cada turma. Eu era da Oitava A.
Antes de anunciar o melhor aluno, ele fez questão de enfatizar que, de acordo com levantamento feito na cidade, o então melhor aluno não era apenas o melhor do Villanueva. O tal felizardo tinha conseguido a melhor média geral da cidade, o que era razão de muito orgulho para a Escola – pública e das mais pobres. Os colegas já me olharam, todos na maior expectativa – também cientes que eu odiava que errassem o meu nome.
Peito estufado, professor Ilton voz embargada:
- O melhor aluno da Oitava A e de Rolândia é.... E D I N E L S O N de Almeida.
Eu simplesmente murchei no banco, os amigos todos sabiam que eu não me levantaria, ninguém moveu um músculo, nem mesmo a dona Rena, de modo que até hoje, nenhuma viva alma naquela igreja soube, afinal, quem era o destacado aluno.
Foi uma criancice danada, eu sei, minha mãe chorou horrores e eu, sem nenhuma hipocrisia, senti-me vingado por ostentar este nome tão bacana.
adorei o texto!
Por duas letrinhas não sou xará da sua irmã Laldeci.
beijão