TÊMPERA, o blog do João Bernardo

A saga do guarda-sol

Se algum dia você ouviu dizer que o curitibano é um antipático, esqueça. É a mais absoluta mentira. Os curitibanos são muito, muito antipáticos. Sobre isso falarei num outro post, mas precisava do preâmbulo para “temperar” este texto.

Amigo não é só aquele que dá força nos momentos difíceis, que se alegra com a nossa felicidade, que dá broncas necessárias. Um amigo verdadeiro empresta o guarda-sol. Foi o que se sucedeu entre mim e o Beto, em outubro do ano passado, quando ele tirou férias e foi pra Florianópolis, sozinho. Tomou-me emprestado o guarda-sol e a cadeira de praia.

Voltou da praia, deixou os apetrechos no porta-malas do carro dele, até tentou me devolver umas duas vezes. O fato é que isso não ocorreu até o dia que eu os pedi de volta, pois passaria o Carnaval com o André, também em Floripa.

Momento de descoberta esse. De bate-pronto, ele não me disse nada, até a hora combinada, quando me levou até a casa da Simone e do Júnior, para pegar o guarda-sol e as cadeiras dos meus compadres. É que o Beto fora para o Uruguai de carro, passar o reveillon com o Gildo. Ainda na ida, tirou o meu guarda-sol e a cadeira do porta-malas dele e deixou-os na casa do pai do Gildo (este nosso amigo mora em São Paulo), que é tão longe, mas tão longe, que eu nem sei onde fica. Só sei que era em Curitiba mesmo.

O fato concreto é que aceitei a oferta da Simone e do Júnior. Contrariando todas as expectativas e mau agouro dos meus colegas de trabalho, fez muito sol no nosso primeiro dia na capital catarinense. Eu e o André ficamos boquiabertos: na verdade, de tão grande, não era um guarda-sol. Era um guarda-planeta. Dois metros e vinte de diâmetro, alaranjado, podendo ser reconhecido por qualquer pessoa naquele monte de exemplares semelhantes.

No sábado de carnaval, abrigou a mim, o André, os nossos amigos Tiesco, Vanilson, Sérgio e Fernando, que chegaram no final da tarde. Domingão, mais sol de estralar mamona e lá fomos nós, guarda-sol e cadeiras debaixo do braço, peito nu cabelo ao vento - eu mais o peito nu mesmo. Ficamos na praia até o entardecer, quando a balada começou a esquentar, o sol já não era mais companheiro e decidi levar os apetrechos para o carro. Levemente alterado pela bebida, não percebi quando o cabo que dá suporte ao guarda-sol caiu na areia. Dei conta da perda já no carro e voltei, olhando para todos os lados, confiante que esquecera o suporte com os amigos. Não o esqueci. Perdi o cabo, voltei perguntando pra cada filho de Deus que alugava guarda-sol na praia e nada. Já fiquei preocupado em não conseguir achar um igual pra devolver ao Júnior e à Simone.

Lembrei de uma ocasião, quando fazia mestrado em São Paulo e peguei emprestado um guarda-chuva do Roberto. A chuva logo passou e esqueci o tal na USP. Qual não foi a minha surpresa em saber que o meu amigo comprara o tal na França, numa das viagens que fizera. Queria morrer de tanta vergonha e fiquei pensando: e se o Júnior também comprou este guarda-sol fora do Brasil? E se for de estimação? E se foi a tia mais legal que ele tem que deu este guarda-sol pra ele? E se o guarda-sol tiver um valor afetivo?

Envergonhado cheguei à Curitiba e fui direto pesquisar na internet. Descobri uma fábrica quase em São José dos Pinhais. Em solidariedade, o Beto foi comigo lá onde o Judas perdeu a meia. Na tal fábrica, descobri que a peça era sim importada, que não era fabricada no Brasil. Entrei em pânico. Disse ao rapaz que me atendeu que já procurara em algumas lojas e não tinha encontrado nada parecido, principalmente do mesmo tamanho. Ele lembrou de uma outra fábrica/importador, deu-me o telefone e desejou boa sorte. E destacou que poderia fazer um com a mesma dimensão sob encomenda.

Passaram-se alguns dias sem eu ter chance de ir até o local. Pelo telefone, a moça me avisou que era bem longe. Imprimi um mapa que consegui na internet, perguntei pra toda redação da TV Sinal se alguém sabia como chegar até aquele lugar. A Sara lembrou que a mãe do Ney Hamilton morava para aqueles lados.



O digníssimo amigo fez as orientações, passo a passo, de tudo o que eu iria encontrar até chegar ao local. E alertou: é longe. Tão longe, mas tão longe, mas tão longe, que gastei 50 minutos para chegar – e olha que não era horário de pico. Seria o mesmo tempo para ir de Londrina a Apucarana, por exemplo.


Eis as anotações do amigo Ney Hamilton... que me fizeram chegar ao lugar tão, tão distante


A tal fábrica não tinha nenhuma indicação, e o número do endereço estava apagado, de modo que precisei dar muitas voltas até entender onde exatamente era o lugar. Depois de fazer ficha na portaria, dar nome, endereço, cpf, rg, tipo sanguíneo e relatar meus interesses ali, o vigilante indicou a sala que deveria procurar.

Na sala, a“simpática” atendente:
- Isso é só com o Thiago.
- E onde está o Thiago?, perguntei.
- Ele não veio hoje.
- E só ele pode resolver este problema?
- O senhor pode ir lá embaixo e procurar o Roberto. Mas vai precisar de carro.

Respirei fundo, contei até 639 e pedi que a simpática e prestimosa moça me explicasse onde exatamente encontraria o tal Roberto. Sem levantar da cadeira, ela detalhou os vários barracões que passaria até onde seria atendido. Realmente era bem longe. Realmente precisei ir de carro.

Ao me aproximar do barracão, alguém – bem ao modo dos nativos locais – foi gritando:
- Estacione ali, estacione ali, estacione ali.
Ao mesmo tempo que pensei que aquilo não acabaria bem, perguntei se era ali que o Roberto trabalhava. O cidadão fez qualquer sinal que sim.

Desci do carro com o guarda-sol na mão. Apontei para o moço agachado e perguntei se ele era o Roberto. Ninguém respondeu. O homem que me mandou, tão gentilmente, estacionar o carro era o próprio Roberto. Quando ameacei dizer mais algo, ele interrompeu:
- É este o guarda-sol com problema? Este é dos bons, é importado.
- S...
- O que aconteceu, são os grampos?
- N...
- Não, não, os grampos até estão mais ou menos.
- Bem...
- Ah tá... foi o cabo. Espere aí.

O tal Roberto se enfiou lá dentro e eu comecei a andar pra lá e pra cá, pensando que aquele doce e gentil homem provavelmente voltaria com o que sobrou do guarda-sol, muito disposto a atochá-lo naquele lugar. Claro que seria no meu. E já comecei a ensaiar o discurso para relatar o ocorrido à Simone e ao Júnior, como repararia aquele dano, na vergonha do que se passou em Florianópolis.

Eis que volta o senhor Roberto com o cabo enrolado num plástico.
- Deu certinho. E aproveitei para trocar os grampos, que já não estavam bons.
Pensei... vai me cobrar uns 50 reais.
- Nossa... que bom, o senhor salvou a minha vida. Quanto ficou o serviço?
- Não é nada não.
Com a maior cara de tacho:
- Não acredito? O senhor não vai cobrar nada?
- Nadinha.
- Então muito obrigado, o senhor é muito gentil.

Eis os dois protagonistas desta saga: o guarda sol e o respectivo suporte!


Já debaixo de chuva, entrei no carro e reduzi a minha matemática. Desde então, deixei de achar que 99% dos curitibanos são antipáticos. A partir de 11 de março de 2008, conclui que só 98% deles são assim.

Publicado em 18 de março de 2008 às 00:01 por joao

Comentários

    • Esse guarda-sol deu o que falar
      hahaha
      mas td acabou bem
      Graças à Deus e a persistência desse bom moço
      :)
    • por André
    • 18.Mar.2008 às 00:11 - Permalink - Reportar
    André
    • e assim se encerra a saga! aliás, agora que vc já tem expertise em ir loooonge, vamos comigo na casa do pai do gildo buscar o *SEU* guarda-sol? hohoho! ;)
    • por zero
    • 18.Mar.2008 às 00:14 - Permalink - Reportar
    zero
    • e pára com essa mania de xingar os curitibanos! daqui a pouco, alguém pode perguntar o que vc está fazendo aqui, se não gosta deles! :P
    • por zero
    • 18.Mar.2008 às 00:14 - Permalink - Reportar
    zero
    • querido, da minha parte vc poderia perder o guarda-sol inteiro que eu continuaria te amando de mesmo jeito! Já o Junior está aqui dizendo que o cabo nem era tão importante assim, que de estimação mesmo eram os grampos!!!!!!
    • por simone
    • 20.Mar.2008 às 23:04 - Permalink - Reportar
    simone
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