Era julho de 1982 e fui passar as férias em São Paulo, na casa do meu irmão mais velho, o Mateus. Já entrando na adolescência, impressionou-me as chamadas da minissérie Quem ama não mata, escrita por Euclides Marinho e estrelada por Marília Pêra e Cláudio Marzo.
Acompanhei todos os capítulos estarrecido com a força daqueles personagens, mesmo considerando a pouca idade para compreender os conflitos humanos. O último capítulo foi de uma violência verbal e física, culminando com o fim da relação e morte do casal protagonista.
O mesmo impacto está me causando a minissérie Queridos Amigos, exibida atualmente. Eu já lera alguns escritos de Maria Adelaide Amaral, com destaque para a peça De braços abertos, retumbante sucesso na década de 80, interpretada por Irene Ravache e Juca de Oliveira. Agora, surpreendo-me com a força, a verdade, a entrelinha, o subtexto de cada um dos vários amigos que desfilam pela obra. Não há nada que destoe, nem mesmo os gêmeos peraltas de cabelos encaracolados.
Esta semana, chamou-me a atenção a personagem da Raquel, interpretada pela magnífica e espetacular Maria Luísa Mendonça – para mim, uma das mais versáteis e talentosas atrizes do momento.
Depois de anos a fio dedicada aos filhos, ao lar e ao marido, foi abandonada pelo marido professor, apaixonado por uma aluna. Ato contínuo à descoberta, entrou em depressão profunda, daquelas que impede até sair da cama, comer, beber, tomar banho. Era a própria derrota, o desencanto, a desesperança.
Mas como viver é um ato de bravura, ela foi chamada à razão pela filha mais velha, clamando a presença da mãe, viva, não uma moribunda. Bastou ouvir a canção do Beto Guedes (...quando entrar setembro e a boa nova entrar nos campos...), ela começou a recuperar as forças, levantou, tomou banho, alimentou o corpo e partiu resoluta em busca de si mesma. Seguiu o ritual da morte: receber a notícia do morto, velar o corpo para, só então, enterrá-lo e deixar a vida correr.
É magnífico perceber a grandiosa capacidade que as pessoas têm de recomeçar. De um jeito que dispensa julgamentos, todo mundo acaba dando um rumo para a própria existência. A luz do túnel sempre esteve lá, só um pouco nebulosa, escondida. Mas era tão perene que se fez valer.
Hoje parece ser politicamente incorreto ter problemas, sentir dores. Não importa o revés, o luto, é preciso sacudir a poeira, dar a volta por cima, de preferência sem rompantes, sem gritos. Aquele sorriso de atleta de aeróbica precisa estar estampado não só no rosto, mas principalmente na alma.
A dona Alice sempre foi muito enérgica, dura, sem nenhum constrangimento de “cortar” a gente no “cinto”, na mangueira ou o que estivesse à mão. Mas de todas as agressões, sem dúvida alguma, a mais dolorida era proibir a gente de chorar. Mesmo depois de surras homéricas, com pancadas que nunca foram leves, as marcas nas pernas, na bunda e nas costas idem. A maior crueldade era engolir as lágrimas.
Perdoar isso tudo não foi tarefa fácil, mas creio ter feito o melhor que podia. E depois de muita reflexão, muitas outras lágrimas, talvez até mesmo comiseração, entendi que tinha sim o direito de chorar. O tempo passou, as angústias se modificaram, os aprendizados se potencializaram e mais que nunca creio que o tempo, sempre ele, é o senhor de todas as razões.
Nada de crueldade. Cada um precisa do tempo que lhe convém para cuidar das próprias feridas. Como diz a música cantada pelo Ney Matogrosso, “quem sabe soletrar adeus, sem lágrimas, nenhuma dor”, talvez não saiba viver. Porque, muitas vezes, é preciso morrer, para poder viver outra vez. E então recomeçar.
Publicado em 08 de março de 2008 às 00:26 por joao