Friday, March 07, 2008
Dia desses, numa sala de espera, folheei uma Veja, cuja capa era sobre regras. Nem perdi tempo em ler a matéria, mas na passada de olho, vi quadros de dicas para seduzir alguém, como superar um pé na bunda, como saber se é a hora de pedir aumento, como gozar em 25 etapas sucessivas ou alternadas e um monte de outras baboseiras.
Lembrei de uma entrevista com a psicóloga Rosely Sayão para o programa Viver Bem, na então TV Mix. Entre muitas colocações sensatas, ela disse que os pais estão à procura de uma vacina. Apareceu uma dificuldade qualquer, vacina nela e vamos que vamos, afinal, é preciso viver etc. e tal.
Educação, aprendizado, completou ela, “são processos lentos, demorados, exigem paciência. E o pior, alguns nunca aprendem.” Isso me veio à mente hoje, depois de dar algumas dicas para um ex-aluno, agora recém-formado, que, obviamente, está ansioso para conseguir um trabalho.
O tempo voou depois que me formei. E mesmo após quase 16 anos de labuta, algumas coisas eu ainda não aprendi, o que me faz recear estar incluído na frase da psicóloga.
Certamente tenho algumas virtudes e outros tantos defeitos. Hoje acho que o principal deles é apostar que tudo é para sempre, extrapolar na expectativa. Mesmo após algumas experiências malsucedidas, não absorvi o aprendizado. Não consigo conviver bem com a finitude das coisas, das relações, dos projetos. E admito: isso é muito ruim.
Em muitos momentos tenho a sensação de estar no lugar errado, embora também não saiba precisar exatamente qualquer alternativa factível. Quase aos 38, ainda sofro ao perceber que determinadas coisas são apenas para alguns. Se todos tivessem o que sonham, será que teria graça? Acabo de lembrar da Ester dizendo que é a ausência que nos mobiliza.
Lembro também da minha mãe “ensinando” poupar na mocidade para gozar na velhice. Ela não contou com a possibilidade de perder o marido, muito menos de ser acometida pela osteoporose. Não há gozo com estas dores.
Apesar do constante desejo de viver cada dia como se não houvesse amanhã, reconheço que sou um blefe. Eu sonho, projeto, crio expectativa. Às vezes distorço o foco. Ao invés de ficar feliz com tudo o que conquistei, afinal, eu poderia estar fazendo malabares no semáforo, participando do Big Brother, pegando sobras no aterro sanitário, esmolando nas ruas, morrendo de fome no Zimbábue, fico esperando dias melhores. E para sempre, o que só agrava tudo.
Quando estou mais generoso comigo mesmo, penso porque eu não poderia ter inventado o windows, porque eu não virei modelo internacional – olha a presunção -, porque eu não sou galã de novela da Globo, porque eu não ganhei um Nobel qualquer, porque eu não posso viajar de primeira classe, porque eu não virei o âncora do Jornal Nacional, talvez até da CNN, BBC, porque eu não sou o único qualquer coisa em qualquer lugar diferente deste onde estou agora.
A resposta é tão simples quanto dolorida: porque isso não é pra mim.
Aceitar que há sapos que devem ser engolidos, por maior que seja o tamanho, que somos limitados e que a partir de um determinado ponto, não se avança mais, é reconhecer as próprias forças. E só então apropriar-se das legítimas e efetivas conquistas e refutar, veementemente, a idéia de que a laranja do quintal do vizinho é mais doce que a sua.
O que isso mudou na sua vida de verdade, não na teórica, sonhada, projetada? Nada, absolutamente nada. E pode ter certeza que será assim. E pra sempre!
Comments
Add Comment