A manhã de 11 de junho de 1987 foi normal até por volta das 10h30, 11 horas. Eu era um menor auxiliar de serviços gerais do Banco do Brasil – um office boy mesmo – e retornava dos Correios quando encontrei o Paulo, um dos meus irmãos, no meio da Avenida Expedicionários. Ele foi direto.
- O Moisés morreu.
Mal ouvi a frase e comecei a rir da piada. Onde já se viu, o Moisés, o meu outro irmão, morrer, assim, de repente aos 27 anos. Para espanto do Paulo, virei as costas sem dizer uma palavra e segui para o trabalho.
Já na agência, comentei com o então meu chefe, Nivaldo, o que se passara. Ele também foi direto:
- Mas é verdade, sua mãe acabou de ligar pedindo para você ir embora. O seu irmão morreu mesmo.
Liguei pra casa, confirmei tudo, perguntei se precisava de algo, respondeu que não, decidi continuar trabalhando até completar o meu horário. Tudo aquilo me parecia muito fantasioso. Jamais poderia imaginar que um dia o Moisés fosse morrer.
Mas ele morreu e de maneira absurdamente violenta. Foi assassinado com pancadas de paralelepípedos na cabeça. Eram muitos a segurá-lo, já que não havia hematoma algum no corpo, de modo que apenas a cabeça fora atingida. Para a polícia, um acerto de dívidas.
Aos 14 anos, o Moisés começou a estudar em Londrina – o único da família a ter essa oportunidade – e no trajeto de Rolândia até a cidade vizinha, teve o trágico encontro com as drogas. Primeiro como usuário, depois como traficante.
Nossa relação nunca foi boa, muito longe disso. Agressivo, egoísta, egocêntrico, era o tipo de pessoa que achava que o mundo lhe devia algo. Nada era suficiente para satisfazê-lo. Muitas e muitas vezes eu e minha irmã nos escondemos por horas a fio dentro do guarda-roupas para que ele não desconfiasse que estávamos em casa e, por conseguinte, não fôssemos agredidos por ele. Certa ocasião, numa das crises provocadas pela droga, esbofeteou o meu avô, que sangrou pelos olhos.
A morte violenta mobilizou a imprensa, a vizinhança, toda a cidade. Quando o caixão chegou, lacrado, as ruas do bairro ficaram intransitáveis. Todos queriam ver de perto. Foram as 24 horas mais chatas da minha vida. E ali comecei a perceber o quanto as pessoas se tornam falsas e hipócritas diante da morte. Nunca achei que partir dessa para outra significasse a redenção pelas atitudes praticadas neste tempo e nesta vida.
O fato concreto é que depois do enterro, retomei as minhas atividades normais, já que eu estava na fase final de preparação para fazer o concurso e me tornar funcionário de fato e direito do Banco do Brasil.
Já somavam mais de 20 anos e, volta e meia, eu sonhava com o Moisés. E em todos eles, invariavelmente, meu irmão tentava me matar. Esses pesadelos me perseguiram ao longo de todo esse tempo. Até que na última quinta-feira, isso mudou.
Neste último sonho, o Moisés estava bonito, com uma bela aparência, cabelos levemente desajeitados, nada que lembrasse o drogadito que sempre foi. Apesar não haver nenhum indício, ele estava ferido. E gentilmente pediu que eu cuidasse dos seus (dele) machucados. E eu fiz isso. Tirei-lhe a camisa, passei algo que lembrasse mercúrio nas costas dele e meu irmão ficou bom. E pela primeira vez me agradeceu.
Eu acordei meio atordoado até me dar conta que era mais um sonho. Voltei a dormir e, bingo, sonhei com os meus pais. A dona Alice estava feliz e o seo João percebeu que eu não me sentia muito bem. Simplesmente me chamou para perto de si, me abraçou e disse-me que tudo aquilo ia passar, que não adiantava eu me preocupar.
Acordei de novo e me senti muito aliviado e fui recompondo, cena a cena, os dois sonhos. Numa semana que recebi notícias bem desagradáveis, no período que fui acometido de uma raiva muito grande, este sonho certamente teve muito significado.
Creio que será necessário mais tempo para eu dimensionar exatamente tudo isso. Mas tenho que admitir: há muito eu não sentia tanta paz interior.
Publicado em 04 de março de 2008 às 00:02 por joao