Entrar para a universidade foi um grande acontecimento na minha vida e também para toda a minha família. Lembro o dia que soubemos que a Escola Estadual Professor Francisco Villanueva se tornaria colégio. A minha mãe exultou e cogitou seriamente a possibilidade de me “obrigar” a continuar estudando ali, já que a outra alternativa seria o Colégio Souza Naves, no Centro de Rolândia.
Conversei com a Dona Mafalda, nossa então diretora. Ela me disse para mudar de escola. “Todos os dias você vai cruzar a cidade, conhecer outras pessoas. Não fique aqui não. E quando escolher a faculdade, prefira Londrina. Lá você também terá oportunidades que extrapolam os muros dessa Escola aqui”.
Eu segui o conselho. E a UEL foi não só uma grande descoberta, como a responsável por uma mudança radical em muitos dos meus conceitos. No trote conheci “Djavan” – sem comentários desagradáveis, heim Beto?! – os grandes sucessos de Chico Buarque, Caetano Veloso. Tinha vergonha de expressar o meu gosto musical, já que em Rolândia eu praticamente só ouvia a Rádio Cultura AM, que de cultura só tinha mesmo o nome, embora eu deteste essa palavra.
Foi só aos 18 anos, segundo período de jornalismo, que assisti à primeira peça de teatro. Encantou-me a possibilidade de ver e ouvir Fernanda Montenegro em Dona Doida. Fiquei tão excitado que escolhi a primeira fila. Vai que a Fernandona salivasse, pensei?

Fiquei absolutamente apaixonado por tudo que vi. Dona Doida era baseada na obra de Adélia Prado, que veio a se tornar outra grande paixão na minha vida. A partir daquele dia, corri atrás de todos os escritos da mineira de Divinópolis e tenho todas as obras que ela publicou.
Numa tarde de setembro, fiquei sabendo que a escritora estaria em Curitiba para uma palestra e sessão de autógrafos. Inventei uma mentira qualquer no trabalho e vim à Capital. Ouvi-a com toda a atenção do mundo, trouxe o livro O homem da mão seca para ela autografar. Adélia foi laconicamente feliz na dedicatória: “Edenilson, alegria!”

Como jornalista esses foram os dois micos que paguei em minha carreira até agora. Acho que escolhi bem. E só vou perder a vergonha outra vez, no dia em que encontrar pessoalmente a Malu Mader.
Hoje, remexendo o baú da memória, pensei que se tivesse escolhido o curso de Contabilidade da Faccar, não teria visto a Fernanda Montenegro, muito menos a Adélia Prado. E aí não aprenderia que o cotidiano pode ser encantador, que a gente precisa de muito pouco para ficar feliz e que, mesmo muito besta, a vida é sempre maravilhosa.
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