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Wednesday, January 30, 2008


Entrar para a universidade foi um grande acontecimento na minha vida e também para toda a minha família. Lembro o dia que soubemos que a Escola Estadual Professor Francisco Villanueva se tornaria colégio. A minha mãe exultou e cogitou seriamente a possibilidade de me “obrigar” a continuar estudando ali, já que a outra alternativa seria o Colégio Souza Naves, no Centro de Rolândia.

Conversei com a Dona Mafalda, nossa então diretora. Ela me disse para mudar de escola. “Todos os dias você vai cruzar a cidade, conhecer outras pessoas. Não fique aqui não. E quando escolher a faculdade, prefira Londrina. Lá você também terá oportunidades que extrapolam os muros dessa Escola aqui”.

Eu segui o conselho. E a UEL foi não só uma grande descoberta, como a responsável por uma mudança radical em muitos dos meus conceitos. No trote conheci “Djavan” – sem comentários desagradáveis, heim Beto?! – os grandes sucessos de Chico Buarque, Caetano Veloso. Tinha vergonha de expressar o meu gosto musical, já que em Rolândia eu praticamente só ouvia a Rádio Cultura AM, que de cultura só tinha mesmo o nome, embora eu deteste essa palavra.

Foi só aos 18 anos, segundo período de jornalismo, que assisti à primeira peça de teatro. Encantou-me a possibilidade de ver e ouvir Fernanda Montenegro em Dona Doida. Fiquei tão excitado que escolhi a primeira fila. Vai que a Fernandona salivasse, pensei?


Logo após o espetáculo, peguei autógrafo e falamos do destino de Odete Roitman, a vilã daquela época. Ela tb relembrou a mulher amarga que interpretou em Brilhante, Chica Newmann, outra mulher pérfida do horário nobre.


Fiquei absolutamente apaixonado por tudo que vi. Dona Doida era baseada na obra de Adélia Prado, que veio a se tornar outra grande paixão na minha vida. A partir daquele dia, corri atrás de todos os escritos da mineira de Divinópolis e tenho todas as obras que ela publicou.

Numa tarde de setembro, fiquei sabendo que a escritora estaria em Curitiba para uma palestra e sessão de autógrafos. Inventei uma mentira qualquer no trabalho e vim à Capital. Ouvi-a com toda a atenção do mundo, trouxe o livro O homem da mão seca para ela autografar. Adélia foi laconicamente feliz na dedicatória: “Edenilson, alegria!”

"Se eu xingar ele de filho da puta, de todo o coração, o que acontecerá comigo na ordem moral e metafísica da minha singular existência?"  Adélia Prado, comigo numa foto tirada num daqueles cantinhos do Largo da Ordem, em O homem da mão seca


Como jornalista esses foram os dois micos que paguei em minha carreira até agora. Acho que escolhi bem. E só vou perder a vergonha outra vez, no dia em que encontrar pessoalmente a Malu Mader.

Hoje, remexendo o baú da memória, pensei que se tivesse escolhido o curso de Contabilidade da Faccar, não teria visto a Fernanda Montenegro, muito menos a Adélia Prado. E aí não aprenderia que o cotidiano pode ser encantador, que a gente precisa de muito pouco para ficar feliz e que, mesmo muito besta, a vida é sempre maravilhosa.

Comments

3 comments

trote é um negócio tão desagradável que só poderia mesmo ter música do djavan!

Posted by zero at Wednesday, January 30, 2008 00:19:32

DOCE seu post! com montenegro, adélia prado e memórias.... gostei muito. alegria!

Posted by isis at Wednesday, January 30, 2008 11:49:23

Meu amigo, você não é o único de Rolândia a ter feito comunicação, estudado na UEL, cantado músicas do Djavan ou João Bosco e pagado micos pela night de Londrina...
Estou neste contigo e não abro...
Abração...

Posted by Kadu Guariente [desloguilson] at Thursday, August 07, 2008 16:37:15

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