Uma família evangélica que se prezasse, freqüentava os cultos da Congregação Cristã no Brasil todos os dias que tinha celebração. A família Almeida, com vários integrantes tementes e servos de Deus, lotava o Fusca amarelo. Eu ia e voltava da igreja no colo da minha mãe, a enérgica e severa Irmã Alice.
Eu devia ter uns cinco ou seis anos e começava a aprender palavras novas. Por alguma razão que nunca entendi, o meu pai – o seo João – chamava o porta-luvas do carro de bufê. E um gesto dele, após todos os cultos, virou hábito: entrava no Fusca amarelo e me dava a bíblia para eu guardá-la no “bufê”.
Já estávamos todos no carro, meu pai entrou resoluto e eu fui enfático:
- Pai, dá a bíblia para eu guardar na buceta!
Mal terminei de falar, já via estrelas devido ao “pé-do-ouvido” que tinha levado da minha mãe. Um tapão na orelha provoca um zumbido, uma coisa esquisita. Acho que até fiquei meio zonzo, devido à força. Chorei muito, mas não me fiz de rogado.
Metros depois de deixar a igreja, ainda resmunguei:
- O pai coloca a bíblia na buceta todo dia e a senhora nunca fala nada.
Foi o que bastou para eu levar outro tapaço no pé-do-ouvido.
Sem entender a confusão, dormi com a orelha quente e só fui querer saber de buceta na adolescência.
Publicado em 24 de janeiro de 2008 às 01:37 por joao