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This is the archive for October 2007

Wednesday, October 31, 2007

O mais comovente da profissão de jornalista é poder ouvir as pessoas. O melhor de ser editor é poder contar as histórias que a gente ouve – das próprias fontes ou dos repórteres - para todo mundo. Tive a graça de conhecer, pelo vídeo, uma mulher vencedora.

Elzirene é a típica retirante do sul do Pará que veio tentar a vida na cidade grande. Ela cruzou quase o país inteiro para tentar a sorte em São José dos Campos, cidade próxima à capital paulistana. De origem humilde, as oportunidades que a vida lhe ofereceu nem sempre foram as mais atraentes. Foi acolhendo uma a uma, até conseguir emprego na loja de uma grande rede brasileira.

Pude ouvir a história de Elzirene quase uma dezena de vezes para editar um programa de televisão. Ela participou de um quadro em que relatava o sonho de natal que conseguira realizar. Há dez anos, subiu no lombo de um burrico, enfrentou algumas horas em cima de um pau de arara, depois mais três dias num ônibus de linha. Foi em busca de melhoria de vida.

Ao chegar em São José dos Campos, jurou que nunca mais voltaria pra cidade natal daquela forma. Muito cansativo, muito desgastante. Tentou como pode, trabalhou em casas de família, entrou para o comércio, mas em dez anos de muita luta e esforço, não juntara o dinheiro necessário para rever a família.

Ao entrar na empresa em que trabalha hoje, teve a oportunidade de comprar uma passagem aérea. Pagou a vista, nem quis parcelar. Ao entrar no avião, teve o deslumbramento daqueles que lutam muito para realizar um sonho. Não acreditava que depois de tanto tempo, voltaria às raízes que deixara lá no Pará.

Sobrevoando o Rio Amazonas, ouviu o comandante anunciar a chegada. Chorou de emoção ao ver o sonho realizado. O pai de Elzirene - uma mulher negra, cabelos hoje bem cuidados e alisados, aquela que trabalhou em casa de família, enfrentou burrico, pau de arara, dias intermináveis num ônibus - simplesmente achou a filha linda.

Provavelmente choraram abraçados. A filha guerreira tinha vencido.

O momento mais lindo do depoimento de Elzirene foi ela dizer que em um ano e três meses de trabalho, conseguiu dinheiro para rever a família e comprar um apartamento, justo ela que morara de favor em casa de família.

- O trabalho – Elzirene com os olhos marejados, mas o orgulho da vitória ali, no peito estufado – fez eu ter, assim, respeito da sociedade. O trabalho fez de mim o que eu queria ser.

Nunca fui tão feliz em ouvir, editar e repassar essa história. Certamente não consegui expressar aqui um milésimo da emoção dessa trajetória. Mas se algum dia você pensar em alguém com absoluta dignidade, pense numa mulher chamada Elzirene.

Esta foto foi tirada pelo Danilo Verpa, um ex e querido aluno meu da Metropolitana. Acho uma imagem muito feliz. Como a história de Elzirene.

Monday, October 15, 2007

Dizem que o texto abaixo é da Marina Colassanti e foi publicado pela primeira vez em outubro de 1972, no Jornal do Brasil. Não sei se é verdade. Apenas reconheço ser uma bela reflexão. Dessas que fazem a gente pensar que viver vale mesmo muito a pena.


EU SEI, MAS NAO DEVIA
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoço. A sair do trabalho porque é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números aceita a não acreditar nas negociações de paz. E não acreditando nas negociações de paz aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso, um de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser ouvido. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e de que necessita, e a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assitir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bacterias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele, se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida, que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde a si mesma.

Sunday, October 07, 2007

Hoje faz três meses que voltei pra Curitiba. Deixei em Londrina e região, grande parte da minha história, os principais afetos e, atualmente, o meu amor. Desde a minha estada na Capital, em 2003, almejava voltar. Sentia a necessidade de alçar um novo vôo, recuperar uma história que fora interrompida contra a minha vontade consciente, mas que o tempo revelou, depois, ser necessária.

Felizmente ou não, tenho mania de achar que tudo é para sempre, embora os poucos fios de cabelo branco já insistam em dizer que o pra sempre, sim, sempre acaba. Arrisco dizer, porém, que a minha vida segue daqui pra frente. Apartamento alugado, carro com placa de Curitiba, satisfeito e realizado no emprego, todas as boas e belas perspectivas do mundo se avizinhando, serenidade, novos amigos, novas descobertas, novos encantamentos. Amanhã terei celular com número da capital, depois falta transferir a conta no banco e, por último, o título de eleitor. Talvez com isso tudo, me sinta de fato um membro desta cidade.

Vejo Curitiba com melhores olhos desde que cheguei. E olho para Londrina com a minha mais profunda gratidão. Lá lancei muitas sementes. Grande parte delas floresceu. Outras, como de hábito, pereceram.

De certa forma, neguei o quanto pude este retorno. Deixei tudo pra última hora, algo muito diferente daquela partida de 2003. E eu sei a razão disso tudo. Não gosto de me separar. E desta vez foi ainda pior, justamente por sair de lá apaixonado, com aquela certeza de ter encontrado a pessoa da minha vida. Já passa de um mês o tempo na casa nova. Até agora não conseguira abrir as caixas que guardam parte da minha história como professor universitário.

Hoje, no entanto, quebrei paradigmas. Abri duas delas. E decidi limpar as gavetas. Selecionei papéis, projetos de trabalhos de conclusão de curso, provas, aulas preparadas, orientações gerais da Instituição. Mesmo com o coração partido, percebo que não adianta mais protelar. É necessário cortar este laço físico, porque aquele outro, o das memórias, permanecerá para sempre. Antes de escrever aqui, revi as últimas fotos. No meu aniversário, no Ata-me, nos primeiros e últimos telejornais das turmas de terceiro ano.

Sabe o que sinto neste exato momento? Satisfação. Muita satisfação. Deixei a minha marca na vida de muita gente. Todos eles também, invariavelmente, estarão comigo definitivamente, eu sei. Posso até reduzir as caixas, eliminar os papéis. Mas a forma atenciosa como fui acolhido, tratado e respeitado durante esses anos, isso ficará para sempre.

As sensações são engraçadas. Um misto de felicidade com nostalgia, uma certa alegria pelo futuro, misturada com o receio de não conseguir superar as eventuais dificuldades que deverão aparecer no meio do caminho.

Dia desses, evoquei o “se”. Se eu tivesse optado por não vir, o que seria de mim exatamente hoje? Ainda bem que nunca será permitido concretizar esta fantasia e encontrar uma resposta. Estou aqui e pronto.

Meu coração, de forma recorrente, sempre me faz alguma falseta. Mas não deixa dúvida que fiz a escolha certa. Só lamento não poder ter trazido todo mundo pra cá. Sinto saudades de muita gente, sinto saudade de você!

Apesar do coração, às vezes um pouco melancólico, é a esperança que me move. Mais que isso. Uma crença absoluta de que fiz a escolha certa. Porque a gente só não muda naquilo que é verdadeiro.

Thursday, October 04, 2007

Vendo os companheiros listarem as melhores novelas dos últimos anos, decidi fazer uma lista que há muito eu idealizava: as cenas mais bonitas e marcantes da teledramaturgia brasileira.

1. A primeira cena de amor entre Marcos e Lurdinha, em Anos Dourados, 1986.
2. A revelação de que Diadorim era mulher e não homem, em Grande Sertão: Veredas, 1985
3. A morte de Heloísa em Anos Rebeldes, 1992
4. A chegada de Hilda Furacão ao bordel, em Hilda Furacão – não lembro o ano
5. A morte do Berdinazzi (Tarcísio Meira), em O Rei do Gado, 1992/1993
6. O encontro das duas prostitutas vividas por Marília Pêra e Betty Faria, em Incidente em Antares, não lembro o ano
7. A morte de Juliana, a ama malvada interpretada por Marília Pêra, em O Primo Basílio
8. A morte do Senador Caxias, em O Rei do Gado, 1992/1993
9. O encontro de amor entre Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella, em Hoje é dia de Maria, primeira jornada, 2005
10. A cerimônia de casamento entre a Viviane Pasmanter e o Humberto Martins, em Mulheres de Areia, 1993, remake
11. A cena de amor entre Ana Paula Arósio e Fábio Assunção, em Os Maias, não lembro o ano.
12. A revelação que o Marcelinho não era filho da Eduarda, em Por Amor, 1998.
13. O Tony Ramos sendo consolado pela Julia Feldens, depois de levar um fora da Vera Fischer, a Helena, em Laços de Família, 2000;
14. A morte de Fernando Torres, o marido da Lília Cabral, em Laços de Família, 2000
15. A despedida de Tony Ramos e Christiane Torloni, em Torre de Babel, também não lembro o ano.

Monday, October 01, 2007


No livro (no filme também) A Cor Púrpura, um dos primeiros escritos alerta: não peça muitas coisas a Deus. Ele pode atender a sua prece. A frase, desde então, marcou a minha vida e volta e meia paro para refletir.

Um dos grandes sucessos da auto-ajuda contemporânea, O Segredo, fala justamente desta força de atração. De acordo com a autora, qualquer coisa que você desejar, o universo lhe dará. Há um exemplo, inclusive, de uma pessoa que estava cansada de receber contas via correio. De repente, passou a desejar que essas contas virassem cheques polpudos. O universo assim providenciou e todo mundo foi feliz pra sempre.

Agora há pouco terminou o primeiro capítulo da nova novela das oito. Tarcísio Meira faz uma participação, dando aulas para o vilão da estória, o tal do Adalberto Rangel. Três falas do Tarcisão foram definitivas: existem muitas pessoas pedindo para serem passadas para trás. Existem muitas pessoas pedindo para serem roubadas. Cabe a você providenciar para que o desejo dessas pessoas seja atendido.

Parece haver um mínimo de coerência entre isso tudo. Muitas vezes, contra todo o bom senso, contra os mais claros sinais da razão, insistimos em nos enganar. Lançamos a rede onde não há peixes, colocamos o sino onde ele não toca, insistimos em relações duvidosas, apostamos no lodo e negamos a possibilidade concreta de afundar.

Sem querer ser o dono da verdade, esta crença insensata vem, na minha modesta opinião, da carência e da falta de amor próprio. Vivemos projetando no outro as nossas limitações, fraquezas, ansiedades, angústias, sonhos, projetos. E o outro nem sempre responde da maneira que desejamos. Daí a gente sofre. E muita gente, mesmo encontrando as respostas que procura, nega-as. Parece até uma necessidade de evitar o contentamento, o bem estar, a felicidade, vá lá.

Ontem a Danuza Leão respondeu a carta de um apaixonado carente na coluna dela, na Folha de S. Paulo. O fato concreto é que ninguém suporta muito a dependência afetiva do outro. As boas relações se constroem no complemento, na parceria, naquilo que é bom juntos, nunca no completar a falta do outro. Essa história da outra metade da laranja é lorota de algum infeliz.

Estou escrevendo tudo isso por achar importante ser dono do próprio nariz. Fazer escolhas, responder por elas, viver a vida, nunca ser levado por ela, por situações cômodas, confortantes. Se a gente tivesse receita, se a gente soubesse que no fim tudo daria muito certo, acho que não haveria graça. É o mistério do trajeto que torna tudo muito mais especial e interessante.