“Meu Deus, mais uma vez estou diante de ti. Em primeiro lugar para pedir perdão por minhas falhas. E elas são tantas, o Senhor sabe. E eu estou aqui também para lembrar um pouco da minha mãe. Foi ela quem me ensinou a importância de dar valor às coisas. Daqui a pouco, menos de 24 horas, eu vou completar 37 anos. E especialmente hoje, eu só tenho a agradecer. Me pergunto porque o Senhor me escolheu para tanta riqueza. Eu olho para os lados e percebo a imensa trajetória de sucesso. E quando falo isso, não estou me referindo à minha situação profissional, aos objetivos que tracei e consegui, não pelo fato de ter saído lá de Longuinópolis e ter virado mestre pela USP. Na verdade, não sou mestre de nada. Prefiro me ver como um aprendiz insaciável, buscando um jeito de viver melhor e ter a sabedoria para reconhecer os excelentes momentos de felicidade que a vida tem me propiciado. A minha riqueza, meu Deus, vem das pessoas que o Senhor colocou no meu caminho ao longo da minha vida. Não sei se é pecado. Mas eu gosto de astrologia, de discutir a possibilidade de haver outras vidas além desta tão bacana que o Senhor me proporcionou. Certa vez eu procurei Ana Lúcia, uma estudiosa dos astros e de vidas passadas. E ela me explicou que fora uma missão eu ter nascido filho do seo João e da Dona Alice. Eu precisava passar por isso e esta é a principal razão de eu ter muito a agradecer. Nós tivemos uma vida bem modesta, mas os dois sempre estiveram presentes nos ensinamentos do que é o caminho do bem. Hoje, com bem poucos cabelos, alguns deles já branqueando, ser filho dos dois foi o primeiro dos muitos tesouros que o Senhor me deu. Revendo o tempo, lembrei do Paulo Sérgio, aquele vizinho querido, com quem eu brincava na terra. O César também me veio à memória, mas eu sei que ele já está aí ao seu lado. A rua Diamantina ganhou asfalto, mas não perdeu os afetos, as histórias. Lembro do Ezequias, do Liu, do Fernandinho, dos nossos carrinhos de rolimã, do primeiro dia no Jardim da Infância. Aproveitando, por que a tia Sandra era tão brava e mal humorada? Preciso agradecer ainda por aquela festa de aniversário de 10 anos, o bolo de trenzinho caipira, o colete de linho que minha mãe mandou fazer e do Senhor ter permitido que a Rosângela Cristina de Freitas comparecesse. Eu tenho que agradecer pelo Senhor ter me feito inteligente. Por ter me dado forças aquele dia que o pai e a mãe foram pra São Paulo e, mesmo sentindo medo dentro do banheiro, eu abri a porta e fui brincar lá fora. O Senhor sabe bem o quanto aquilo foi importante. Tudo bem que a Dona Alice e o seo João eram muito bravos e eu acho que levei cintadas demais para uma criança da minha idade. Está tudo certo. A vida nem sempre tem só flores, não é? Eu também lhe agradeço por um dia eu ter encontrado a Rosângela Mologni e por ser a Giseli a primeira garota que eu beijei. Obrigado por fazer o dono da sorveteria compreender que eu fora roubado e não ter descontado de mim o prejuízo por eu ter perdido aqueles sorvetes. Também, eram dois contra um, né? Confesso que não entendi aquela mensagem. Ah... algo importante. Naquela tarde que eu saí para procurar emprego, obrigado por aquele rapaz da fábrica de móveis lembrar que estavam procurando garotos para trabalhar no Banco do Brasil. Quando eu passei na seleção, entendi que não fora em vão ter sido um aluno aplicado. E naquele inverno de 1987, quando deixei a sala de provas, obrigado pela certeza de que eu passaria no concurso e que, ao completar 18 anos, eu teria o melhor emprego de Rolândia. Obrigado por me fazer o gerente mais jovem do Paraná. Eu trabalhei bem, mas sei que de alguma forma o Senhor me ajudou. Obrigado por ter me dado chefes exigentes e acolhedores, que compreenderam a minha vontade de ser jornalista e, para isso, abriram mão das regras, facilitaram horários, fecharam os olhos para os eventuais atrasos. Eu consegui ser um bom jornalista. Obrigado por ter colocado a Raquel na minha vida. Ela acreditou em mim quando outros duvidaram. Também não poderia esquecer do Ricardo, do empréstimo para comprar o apartamento. Grato por eu ter um orientador de mestrado que realmente fez a diferença. Obrigado pelas oportunidades profissionais. Elas sempre foram muitas e na hora certa. Quase no fim e também o mais importante. Tenho a vida inteira para agradecer os amigos que o Senhor colocou na minha vida. Keno e Juliano, depois o Jonas, o Carlos, depois o Beto, o Xexé, a Raquel e a Simone. Sem eles, a vida não teria tido a mesma graça. E tem ainda os afetos que conquistei como professor. Foram tantos alunos que viraram amigos que eu só posso acreditar que o Senhor me escolheu como seu protegido. Para encerrar, obrigado por me fazer uma pessoa capaz de amar. Minha imensa gratidão pelos amores que vivi e, mais ainda, por este que agora ganha força, aquece o meu coração, enche a minha alma de alegria. Obrigado por me desafiar a ver além do óbvio, obrigado por eu conseguir enxergar esta rara oportunidade de amar e ser amado. Eu estava esperando e acho estar no melhor momento para esta vivência. O Senhor realmente sabe o que faz. Na idade nova que ora se inicia, não vou lhe pedir nada, absolutamente nada além desta maravilha de vida que o Senhor me proporciona. Muito obrigado. Amém!”
Publicado em 22 de junho de 2007 às 00:29 por joao