TÊMPERA, o blog do João Bernardo

Nenhum esforço para agradar

Nunca apreciei o trabalho de Dercy Gonçalves. Não sou chegado às comédias, principalmente o "estilo" que a atriz realizou ao longo da carreira.

Nos idos dos anos 90 ela esteve em Londrina com uma das peças de humor escrachado típicas da atriz. Numa entrevista na TV Cidade, ela me intimou: - você já leu minha biografia? Constrangido e em respeito à trajetória dela, disse que ainda não, mas o faria assim que possível. Uma mentira sincera nunca cumprida, registre-se.

Na Folha de S. Paulo de hoje, a pretexto dos cem anos que ela comemorará em breve, entrevista de quase três páginas. Dispus-me a ler, à procura de um traço de humanidade que me fizesse olhá-la de um outro jeito. Dercy revela-se solitária, carente e desapegada. Não tem religião, só acredita na natureza, não espera mais nada de ninguém, da vida. Trechos que me pegaram de jeito:

O que a faz rir? Não vi você rindo nenhuma vez. Faz os outros rirem, mas você não ri?
- Eu acho graça em coisas... Meu bisneto (João, 5 anos)... eu acho uma graça louca nele. Ele diz: "Bisa, você não pode morrer porque vai me fazer falta". Isso me faz rir. Como é que esse menino pode pensar numa coisa dessas?

Você vai ao bingo com que frequência?
- Eu vou todos os dias, não tenho de dar mais satisfação a ninguém. Eles me tratam com muito respeito, eu me distraio, as horas passam, matam a minha solidão, matam a minha falta de família, a minha falta de amigo, mata muita coisa meu filho. Prefiro o bingo a tomar uma birita em qualquer lugar.

A solidão assusta mais que a morte?
- É muito pior. A solidão te irrita, te deixa estressado, te dá mágoa. A solidão te mata. É a pior coisa que pode existir para a humanidade. É o abandono dos amigos, da família. Eu vou para a rua, porque na rua eu vejo um desastre e fico olhando, vejo um tiroteio e fico olhando... Eu adoro tudo isso, me distrai.

Algumas atrizes fizeram perguntas à Dercy. Denise Fraga colaborou com esta: "Dercy, para quem você daria o primeiro pedaço de seu bolo de 100 anos?"
- Para a minha filha, a única pessoa na vida a quem não posso esquecer que devo favores, devo obrigações. Ela nasceu da minha barriga, faz parte de mim.

Que favores você deve a ela?
- De ela ser correta, de nunca me envergonhar, de ser uma mulher distinta. E de ela não me amar. Ela não me ama, porque não gosta da minha linguagem. Ela é religiosa (católica praticante), eu não sou, não acredito em porra nenhuma. Para mim todo santo é vereador.

A gravidez dela foi difícil?
- Foi porque eu não queria. Eu dava socos na barriga para tirar. Passei nove meses sem mudar de roupa, aquela roupa fedorenta. Tinha ódio da gravidez, ódio da vida porque não podia trabalhar barriguda, feia.

Enfim... ainda bem que as pessoas não são perfeitas e, por isso mesmo, tão encantadoras na própria imperfeição.

Publicado em 22 de abril de 2007 às 17:30 por joao

Comentários

    • Que triste!!! Que pena dela!!
    • por silvia -
    • 22.Abr.2007 às 20:16 - Permalink - Reportar
    silvia -
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