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This is the archive for December 2006

Monday, December 18, 2006

 

Passar para a quinta-série foi um acontecimento. Além da mudança de escola, deixaríamos de lado a tia Marilene e passaríamos a ter aulas com vários professores que, entre muitas outras características, não suportavam a idéia de serem chamados de tios. Eu saí vitorioso do Padre José Herions e entrei determinado a encarar os desafios do Francisco Villanueva e os altos muros daquela escola pública perdida lá no meio da Vila Oliveira, onde morávamos.

 

Dona Fumiko era uma professora com todos os traços físicos e comportamentais dos japoneses tímidos. Não tinha mais que um metro e meio e foi a professora de “Indústria Caseira”. A disciplina, entre outras coisas, ensinou-me a pregar botão, dobrar fraldas, fazer arroz e... montar uma horta. Este era o desafio mais bacana. Cada turma era responsável por um canteiro.

 

Tínhamos que cumprir todas as etapas, sempre com a voz de dona Fumiko ao fundo: “façam com a alma, com a alma. Do contrário, a semente não germina.” E assim foi. Carpimos o terreno, montamos os canteiros, dividimos a área para várias verduras e leguminosas. Meu grupo decidiu plantar cenouras. E, fora do horário de aula, tínhamos que aguar os canteiros.

 

Numa dessas atividades extra-classe, percebemos que os alunos da oitava série entravam na nossa horta e arrancavam as cenouras, alfaces e que tais. A atitude assombrou-nos e atiçou-nos fúria daquelas bem raivosas. Fizemos uma assembléia e decidimos entregar os grandalhões para a diretoria.

 

Mas quem, entre tantos, apontaria um a um os infratores?

 

Se você pensou em mim, acertou e pode ir ao Ata-me como meu convidado no dia 20. Mesmo sendo um toco de gente – só cresci em estatura a partir dos 15 anos – aceitei o desafio de entrar na sala da oitava juntamente com o diretor.

 

Naquela sala imensa, o professor Ilton – diretor na época – deu a ordem:

- Olhe bem para cada um deles e diga quem está danificando a horta de vocês. E não precisa ficar com medo que eles não vão fazer nada contra você.

 

Ali, de mão dada com o diretor, fui apontando um a um e vendo a cara deles prometendo:

- se fudeu. A gente vai pegar você!

 Suei frio, mas dei conta da missão. Ao final, o nervoso e prestativo professor Ilton lançou a frase fatal:

- Se algum de vocês fizer qualquer coisa contra o Edenilson, vão levar suspensão.

 

Respirei aliviado, mas confesso que durante umas três semanas não facilitei. Só andava em bandos até perto da minha casa.

 

Eu estou relembrando esta história porque amanhã, dia 19 de dezembro, depois de 22 anos, vamos encontrar a turma que colou grau da oitava série no Villanueva, lá pelos idos de 1984. Tem alguns colegas de turma que eu nunca mais vi. Há exatos 22 anos. Confesso que estou tomado por uma ansiedade do tamanho do universo. O que aconteceu com a Elaine, a Cilene, o João Flávio, a Vandira, a Silvana, a Rosângela e tantos outros que há anos eu não vejo? Que escolhas fizeram? Que felicidade desfrutaram? Que angústias viveram?

 

Putz... viver é muito bom. Ainda mais quando se olha para trás e percebe que você não passou em branco pela vida. Que tem histórias para contar. E que pode dizer sem dúvida alguma... eu sou feliz!

Wednesday, December 13, 2006

Domingo recebi um convite que desejava, mas duvidava que pudesse acontecer. Saí de casa decidido e no meio do caminho apareceu uma tristeza e uma dúvida comparáveis ao elefante, tão grande. Insisti comigo mesmo até o limite possível e voltei pra casa.  

Hoje fui interpelado. Pedi sinceras desculpas, sei que agi mal em deixar as pessoas esperando. Mas não dava. Simplesmente não dava.

 

Também hoje estive num lugar que não gostaria. Mas a política da boa vizinhança e a maturidade praticamente se impuseram e foi inevitável. No local, lembrei daquele filme “Três formas de amar”. É um triângulo amoroso que se forma entre uma garota que ama um cara que é gay, que se apaixona pelo amigo hetero que, por sua vez, interessa-se pela garota. A cena final não me sai da cabeça. Sentado na janela, o personagem gay pergunta: “Como alguém pode ser tão importante num momento e, no outro, simplesmente deixar de sê-lo? Não deveria ser para sempre?”. Ato contínuo, joga um anão de jardim janela abaixo.

 

Tive a mesma sensação ao perceber que no ano passado, nesta mesma época, estava com essas mesmas pessoas e com outro sentimento. Olhei firmemente o cenário, cinzento, melancólico, e percebi que tudo se perdeu. A causa é simples: deslealdade. Entre verdadeiros amigos, é um sentimento que não cabe.

 

A cena me entristeceu. Mesmo sabendo que o “ideal” seria não ter expectativa com ninguém, a decepção é clara. E não há absolutamente mais nada a fazer. Afinal, o pra sempre, sempre acaba!