TÊMPERA, o blog do João Bernardo

Mediocridade sem fim II

O primeiro post sobre o tema rendeu 80 comentários. O senhor Ari Fontana Gomes fez algumas indagações, sobre as quais gostaria de discorrer. Pra você não perder tempo em clicar no primeiro post, eis o comentário:

“Só pra polemizar um pouco: o senhor acredita que essa crise no ensino é de pura e plena responsabilidade dos alunos? No caso específico que você citou, o curso de Direito, você acredita mesmo que se trata apenas de uma crise intelectual (talvez devido ao grande número de festas universitárias...) que pode ser uma das causas de tamanho índice de reprovação? O senhor como um educador, o que pensa da reforma universitária, principalmente no que se refere ao aumento das instituições privadas? Por acaso não imagina alguma relação disso com o assunto que abordou no post acima?”
Ari Fontana Gomes - Terça, 17.05.05 - 20:30:30


Essa crise no ensino não é de pura e plena responsabilidade dos alunos. O estado tem sua cota, as instituições – de ensino fundamental, médio e superior -, a família também responde pela omissão e, claro, os alunos. Todos participam desta encenação. Já faz anos que este país vive uma grande farsa, e das mais grotescas.O digníssimo senhor ex-ministro Paulo Renato queria democratizar o acesso da população ao ensino superior. Ao invés de investir dinheiro nas universidades públicas, obrigando-as a ampliar os cursos e respectivas vagas, fez um verdadeiro balaio de concessões para a abertura de faculdades, centros universitários e universidades particulares. Sem exigir nenhuma contrapartida, do tipo, por cada curso aberto, 20% das vagas transformadas em bolsas para estudantes pobres. Só pra refrescar a memória dos londrinenses, a prefeitura doou um grande terreno para a PUC se instalar na cidade. Eu não conheço nenhum aluno que estude lá de graça, por conta deste presente dado com o dinheiro do meu e do seu imposto.

Diante desta falácia, só em Londrina e Cambé, existem hoje sete cursos de Direito, se minhas contas não estiverem erradas ou se, no interregno deste texto, algum novo curso tenha sido aberto. Sem nenhuma fiscalização, acompanhamento e postura firme do Ministério da Educação.

Você sabia, caro Ari, que quando da visita para reconhecimento dos cursos, algumas faculdades costumam contratar os professores com dedicação exclusiva, conforme exige o MEC e logo após os integrantes da comissão deixarem a cidade, o contrato é jogado no lixo? Que na grande parte das instituições particulares, a quantidade de projetos de pesquisa e extensão é mínima?

Eu percebo que a sociedade contemporânea criou o mito da graduação. A maioria das pessoas pensa que, com um canudo na mão, elas serão felizes para sempre. Agora, já que a proposta não tem sustentáculo, voltam-se as energias para a especialização. Sem pós-graduação, o mercado te põe pra escanteio. E dá-lhe cursos e mais cursos.

Como coloquei, as responsabilidades são muitas. Mas ouso aqui dizer que são os alunos os que mais deveriam responder por essas “atrocidades”. E por uma razão simples: eles não reclamam, na grande maioria dos casos. Eu já vi alunos saírem em protesto rua afora porque a reitoria da UEL proibira a venda de bebida alcoólica no campus. Mas nunca vi a mesma determinação – se é que ela realmente existiu – para exigir melhores condições de ensino, professores mais capacitados, infra-estrutura que realmente atenda às necessidades do processo ensino-aprendizagem.

E essa omissão se deve à comodidade. Não me considero um exemplo de professor não. Mas sem falsa modéstia e demagogia, procuro fazer o melhor. E por várias vezes, alunos fizeram abaixo-assinado para que eu fosse demitido. As razões? Inflexível quanto a prazos para entrega de trabalhos (mesmo quando uma aluna disse-me que não fizera o trabalho porque o cabeleireiro dela iria ficar três meses na Europa e ela precisava pintar o cabelo com ele), muito exigente com o texto de alunos de quarto ano, por não aceitar um grupo que apresentava seminário no mesmo nível do que eu via na quinta série. Os professores que chegam atrasados todos os dias, os que tocam violão em sala de aula, os que interrompem a aula para atender celular, os que convidam para assistir à aula no bar, tomando uma cerveja, esses continuam lá, firmes e fortes, sem nenhum incômodo. A média bimestral sendo suficiente para passar, está mais do que bom e vamos ser felizes.

O Estado falha porque não fiscaliza, não exige nada em troca, não estabelece critérios mais rígidos para aprovação dos currículos, infra-estrutura e capacitação do corpo docente. A família falha porque acredita que basta pagar e o filho será alguém na vida. Os professores falham quando passam a mão na cabeça de alunos com pouca bagagem e o mínimo de capacidade cognitiva. Falham também quando fingem que dão aulas. As faculdades falham por viver fazendo conta, mesmo quando os lucros são visíveis a olho nu, numa breve comparação entre o número de alunos em sala x investimento em infra-estrutura x salário dos professores. E o aluno falha, pela pior e mais óbvia das razões: pouco interesse em estudar.

Não quero polemizar, muito menos colocar-me como dono da verdade. Este é o meu ponto de vista. PARA TUDO O QUE DISSE ACIMA, HÁ EXCEÇÕES. E é sempre pensando nos alunos que fogem à regra da comodidade que eu preparo as minhas aulas, que pesquiso novos títulos e trabalhos acadêmicos que colaborem para o aprendizado. Certamente isso também não deve bastar. Mas tenho dormido tranqüilo todos os dias.

Como consideração final, a prova que a OAB aplica deveria ser uma regra em todas as profissões. Com o grau de dificuldade que melhor avaliar a capacidade dos recém-formados. Antes de o médico começar a mexer com a vida alheia, deveria provar sim que é capaz. Antes de um jornalista sair dando de dedo em gente pobre que a polícia prende e expõe no paredão, ele deveria sim provar que aprendeu um pouco de legislação, que tem um mínimo de ética. Um engenheiro deve provar que sabe fazer cálculos das estruturas dos prédios que levanta. O resto é conversa mole de quem quer levar a vida na flauta.

Só a educação é capaz de tirar este país do abismo moral em que ele se encontra. Infelizmente, a minha geração, e talvez nem a sua, estará aqui para comprovar.

Publicado em 24 de maio de 2005 às 01:07 por joao

Comentários

    • clap, clap, clap!
      o difícil é ser uma voz única, solitária, às vezes até acompanhada por poucas outras para reclamar da falta de aulas, dos professores que chegam atrasados sempre, da metodologia medíocre de separar quase dois meses das aulas para os alunos fazerem um trabalho que apresentarão dentro de um ônibus em dez minutos, dos berros e falta de educação dos professores com a sala toda ou com um aluno que quer ter aula... incrível? tenho visto isso acontecer na universidade pública. o que mais revolta é que é dinheiro público que está ali. pagamos para quê? para brincarem conosco. é uma burocracia sem tamanho e uma comodidade inaceitável para quem quer levar a sério uma profissão/formação.
      há erros de todas as partes. o que não admito é ficar calada e não lutar, ainda que sozinha, por uma educação decente neste país. educação que se possa chamar de educação.
    • por Patty.
    • 24.Mai.2005 às 01:32 - Permalink - Reportar
    Patty.
    • Bom ler este seu post, Edenilson. Correspondeu, acho - com muitas fontes - o meu comentário sobre o “sistema bruto” abaixo, no Mediocridade I.
    • por Peterson
    • 24.Mai.2005 às 13:26 - Permalink - Reportar
    Peterson
  1. simonep
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