É o reconhecimento das imperfeições que ofusca o lado mais perfeito da vida. Crendo que tudo pode ser melhor quando se tiver mais dinheiro, que o dia terá mais horas e brilho no momento exato que o grande amor aparecer, perdemos muito tempo. Esquecemos de olhar ao redor, ver e enxergar o possível, os afetos, as ternuras.
Falamos e buscamos intensamente o amor. Muitas vezes até sem dar conta da confusão que o aprisiona, tirando-lhe a leveza para transformá-lo no ter, ao invés de sentir. Creio que o amor implica liberdade. Inclusive para deixá-lo partir, se assim o desejar.
Dois filmes recentes,
Menina de Ouro e <
i>Mar Adentro, falam do desapego. “Se você me ama de verdade, me ajude a morrer”, suplica Ramón Sampedro. Parece cruel, numa análise simplista. Mas talvez só o amor permita tirar a miopia das relações e consiga, por mais paradoxal que seja, desprover as pessoas do egoísmo e da prisão do olhar e do afeto. Amar significa libertar. Deixar o objeto do amor livre. Para ficar ou partir, não importa.
A menina de ouro, fera do boxe, vê-se imobilizada depois de um golpe fatal. E justamente por perceber o sentido de tudo o que vivera até aquele momento, pede ao mentor e afeto das últimas horas, que lhe ajude a partir. Morrer, talvez não seja apropriado aqui. Embora a dor seja dilacerante, ela ainda é pequena frente ao remorso ou a dúvida de aprisionar pelo ter e não o ser.
Num tempo distante, ouvi que o verdadeiro amor é livre. Depois de tantas idas e vindas, não me atrevo a duvidar.