TÊMPERA, o blog do João Bernardo

O perdão

- O que você vai fazer agora?
- Ainda não sei.
- Você precisa tomar uma atitude.
- Falar é sempre muito fácil.
- Sim, quem está de fora sempre vê as coisas com menos emoção, menos envolvimento.
- Não é algo que se decida assim, quase que num solavanco.
- Eu sei. Mas talvez disso dependa o seu bem estar, ou a sua felicidade se preferir.
- Eu gostaria que fosse mais simples.
- Pode ser se você quiser.
- Juro que estou tentando.
- Eu diria até que é quase uma escolha. A gente decide se quer abandonar uma história, uma pessoa, um emprego. Do mesmo jeito, decide se quer ser feliz, se vai passar uma borracha por cima de tudo, se vai permitir que essas dores continuem te fazendo tanto mal.
- Será que é desse jeito?
- Não sei. Não existe fórmula. Mas é preciso tentar.
- Você acha que eu não gostaria de me livrar desse fantasma? Eu me esforço, tem dias que parece mesmo que ele foi embora. De repente, como hoje, tudo volta e eu fico assim, triste, descrente.
- Uma hora terá de mudar, não?
- Será que muda mesmo?
- Descobrir o fantasma, identificá-lo, nomeá-lo, de certa forma, tira-lhe também todas as forças que ele possui.
- Estar em contato com essas sensações novamente só me faz mal.
- Pois então. Não acha que depende só de você?
- O que você sugere que eu faça?
- Que você perdoe. Ou melhor, que você se dê a chance de se perdoar.
- Mas eu não fiz nada...
- Exatamente. Não fez agora, nem fez naquela época. Será que alguém, nas mesmas condições, não teria feito a mesma coisa? Você tinha medo. Era isso, medo.
- Mas esse medo me trouxe várias conseqüências...
- Sim. E vai continuar trazendo se você não der um basta a essa situação.
- Eu não consigo.
- Consegue se você reconhecer as suas fraquezas. Se você admitir que naquela hora, naquela circunstância, fez o que era possível, o que estava ao seu alcance.
- Eu poderia ter evitado tudo isso.
- Naquela hora não. Naquela hora você era refém do medo. E hoje não há mais nada a ser feito para mudar isso.
- Eu me sinto covarde.
- Isso não é covardia. É maturidade. Talvez até sabedoria.
- Sabedoria?
- Sim, sabedoria. De lutar com o que é claro e possível e aceitar o que não se pode mudar.
- O que eu faço?
- Admita que fez tudo o que podia. E aceite isso de coração.

Publicado em 04 de fevereiro de 2005 às 12:33 por joao

Comentários

  1. thaisorri
  2. thaisorri
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