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This is the archive for February 2005

Thursday, February 24, 2005


É o reconhecimento das imperfeições que ofusca o lado mais perfeito da vida. Crendo que tudo pode ser melhor quando se tiver mais dinheiro, que o dia terá mais horas e brilho no momento exato que o grande amor aparecer, perdemos muito tempo. Esquecemos de olhar ao redor, ver e enxergar o possível, os afetos, as ternuras.

Falamos e buscamos intensamente o amor. Muitas vezes até sem dar conta da confusão que o aprisiona, tirando-lhe a leveza para transformá-lo no ter, ao invés de sentir. Creio que o amor implica liberdade. Inclusive para deixá-lo partir, se assim o desejar.

Dois filmes recentes, Menina de Ouro e <i>Mar Adentro, falam do desapego. “Se você me ama de verdade, me ajude a morrer”, suplica Ramón Sampedro. Parece cruel, numa análise simplista. Mas talvez só o amor permita tirar a miopia das relações e consiga, por mais paradoxal que seja, desprover as pessoas do egoísmo e da prisão do olhar e do afeto. Amar significa libertar. Deixar o objeto do amor livre. Para ficar ou partir, não importa.

Eu gostei. E quero ver de novo.


A menina de ouro, fera do boxe, vê-se imobilizada depois de um golpe fatal. E justamente por perceber o sentido de tudo o que vivera até aquele momento, pede ao mentor e afeto das últimas horas, que lhe ajude a partir. Morrer, talvez não seja apropriado aqui. Embora a dor seja dilacerante, ela ainda é pequena frente ao remorso ou a dúvida de aprisionar pelo ter e não o ser.

Num tempo distante, ouvi que o verdadeiro amor é livre. Depois de tantas idas e vindas, não me atrevo a duvidar.

Tuesday, February 22, 2005


Hoje começaram as aulas para os alunos que estão ingressando na Unopar. Depois de fazer uma breve recepção aos calouros, sucedeu-se o seguinte diálogo:

- Você sabe onde fica a turma do primeiro ano de jornalismo?
- Ali, no final do corredor, sala 711.
- Que horas termina a primeira aula?
- Agora, oito horas.
- Quem vai dar aula agora?
- O mesmo professor. São duas aulas de filosofia.
- Já tem horário?
- Sim, está ali no quadro de avisos.
- O curso aqui é bacana, cara?
- Acho que sim.
- Vou ter que esperar o intervalo então.
- Por quê?
- Não posso entrar agora.
- Por quê?
- Porque cheguei atrasado. Não rola, né? O professor não deixa.
- Pode entrar, não tem problema. Cada professor vai dizer como será a disciplina em cada aula. Hoje é o primeiro dia, vai de boa.
- Quer dizer que é assim? Posso entrar e sair a qualquer hora?
- Claro que pode, você é adulto. Cada professor decide se te dá presença ou não.
- Me falaram que o primeiro ano é moleza.
- Em que sentido?
- Acho que em todos. Os professores são maneiros, não esquentam muito com a gente, é tranqüilo.
- Sei.
- Só tem um professor que disseram que é foda.
- Sério?
- É. Dizem que é exigente, que não dá folga. Que no primeiro dia de aula já avisa o dia da prova, distribui os trabalhos.
- Sei.
- E falaram mais. Que as provas dele são terríveis, ninguém tira nota. Que tem que estudar mesmo.
- Você acha isso bom ou ruim?
- Sei lá. Mas tenho umas técnicas para colar que até hoje nenhum professor pegou.
- Bom pra você. Mas você acha legal colar na universidade?
- Faz parte, a gente é aluno, né?
- É. Você sabe o nome desse professor que falaram?
- Acho que é Edmilson. Você é daqui mesmo?
- Sou.
- Também é calouro?
- Não. Eu sou o professor Edmilson. Quer dizer, Edenilson é o meu nome correto. É feio, eu sei, mas não gosto que falem errado.
- Putz, caraio!

Friday, February 18, 2005

Seguindo aquela máxima pessimista, de que nada é tão ruim que não possa piorar, disponibilizo as fotos abaixo. Antes de reclamar, pense: alguém pode estar numa muito pior.

Vai encarar?

Tuesday, February 15, 2005

Larguei tudo que tinha pra fazer e fui pro cinema assistir Menina de Ouro. Sabia que o filme era bom. Mas talvez, hoje não tenha sido o melhor dia para vê-lo. Devo ter chorado pelo menos uma meia-hora. Os últimos dias têm sido barra. E a história provocou aquele tipo de catarse, que valhamedeus! Mais não digo porque não consigo.

Hoje recomeçaram as aulas na Unopar. Primeiro recebemos os veteranos, e na semana que vem os calouros. Consta que serão 60 e poucos à noite e outros tantos pela manhã. E remexendo nas minhas memórias, encontrei a foto abaixo, tirada no dia 28 de julho de 1988, data da divulgação do vestibular de inverno da UEL.

Eu sempre estudei em escola pública e não consegui passar no primeiro vestibular. Isso foi uma grande decepção para mim. Mas muito mais para os amigos e familiares, por uma razão bastante simples: eu fora o melhor aluno dos terceiros anos de todos os colégios de Rolândia. Recebi homenagens na escola e até uma placa, entregue pelo digníssimo prefeito da cidade. Daí, tento uma vaga na UEL e não passo? Francamente!

Graças aos meus queridos amigos, tive um trote espetacular. O resultado saiu às 16 horas e logo no início da noite, eles chegaram em bando. O Keno, Juliano, Jonas, Fernando, Fernando Zampa, Adriana, Vamberto e outros mais. Não tive nem oportunidade de espernear e já estava preso, com a cabeça começando a ser raspada. Foi a primeira e única vez que coloquei pinga na boca. Nesse primeiro porre, não demorou mais que dez minutos para que eu estivesse completamente bêbado.

E eu a Sueli Olivieri, também aprovada em jornalismo. Ela largou o curso na metade, fez e economia e mais eu não falo porque não sei.


Eles tomaram conta de mim, que falei um monte de bobagem, tudo registrado num gravador. O meu pai, o seo João, com sua hospitalidade habitual, tratou de comprar “umas carninhas” e logo entabularam um churrasco. Coisa simples, para alegrar os amigos.
A minha colação de grau foi no dia 08 de agosto de 1992. Reuni os amigos mais queridos numa festa e comemoramos pra valer.

De lá pra cá, foram sete anos no SBT, quase três no Jornal de Londrina, colaborações para a Folha de Londrina, passagens temporárias pela TV Coroados e TV Paranaense, colaboração para as revistas Cláudia, Viva Mais e Viagem e Turismo, assessoria de imprensa bastante significativas, especialização em propaganda e marketing, mestrado na USP.

Nos últimos quatro dias, tenho vivido para o retorno às aulas. Comprei vários livros, reli todos os artigos e matérias que vou colecionando ao longo do ano e tenho passado horas a fio revisando as disciplinas.

Embora eu viva negando, talvez o magistério seja mesmo uma vocação. Algo que nunca sonhei, muito menos planejei. Mas que agora procuro fazer o melhor que posso. Nem sempre compreendido, às vezes amado, muitas odiado. Hoje, de qualquer forma, não me sinto refém da aprovação alheia. Não dá para agradar todo mundo. Só torço para não perder a noção de justiça e coerência.

Wednesday, February 09, 2005


A vida inteira por ser vivida começa amanhã, pragmaticamente. O tempo do descanso, da espera, terminou hoje junto com os ritmos cadenciados de cuícas e repiques. Agora é tirar os livros da estante, rever conceitos, preparar aulas, reencontrar pessoas.

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Na quinta-feira, recomeçam as aulas na Metropolitana, onde não mais lecionarei. Faz-se necessário, porém, registrar aqui a importância de ter vivido essa experiência. O que houve de menor será colocado no limbo do esquecimento. “Ninguém passa pela nossa vida inutilmente...”, escreveu certa vez uma cliente que atendi na lanchonete Holandesa, onde fui garçom. Já escrevi aqui do apreço que tenho pelos alunos que agora vão para o oitavo período. Mas esta faculdade tem outros afetos.

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Conhecer a Fernanda, Débora, Fabiana, Karila, Julio, Junot, Rodrigo, Carolina Roncarati, Patty, Michele Aligleri, Angélica, Susan, Primo, Lúcio, Isabella, Paula Carolina e Paula Botelho, Anderson Hanz, Flávia Bespalhok, Julce, foi um presente.

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Por todas as razões, deferência à Thais, amiga de momentos muito especiais.

O que é maior que o verbo amar?


Nesta época de mudanças, penso no que determina o afeto. Creio que ele surge por nossa decisão. A gente olha para uma pessoa, troca algumas palavras e escolhe um sentimento especial para destinar a quem está chegando. Assim vamos estabelecendo nossas relações.

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O ano que se inicia talvez seja o tempo das urgências. De não protelar mais nada. Na última vez que vi minha mãe, no domingo, percebi-a profundamente triste. E me deu vontade de parar os relógios para que seja possível fazer tudo o que é necessário. Não gostaria que imprevistos modificassem o rumo das coisas. O presente urge.

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Se puder, veja o filme “Entre umas e outras”. Simplesmente excelente.

Friday, February 04, 2005


- O que você vai fazer agora?
- Ainda não sei.
- Você precisa tomar uma atitude.
- Falar é sempre muito fácil.
- Sim, quem está de fora sempre vê as coisas com menos emoção, menos envolvimento.
- Não é algo que se decida assim, quase que num solavanco.
- Eu sei. Mas talvez disso dependa o seu bem estar, ou a sua felicidade se preferir.
- Eu gostaria que fosse mais simples.
- Pode ser se você quiser.
- Juro que estou tentando.
- Eu diria até que é quase uma escolha. A gente decide se quer abandonar uma história, uma pessoa, um emprego. Do mesmo jeito, decide se quer ser feliz, se vai passar uma borracha por cima de tudo, se vai permitir que essas dores continuem te fazendo tanto mal.
- Será que é desse jeito?
- Não sei. Não existe fórmula. Mas é preciso tentar.
- Você acha que eu não gostaria de me livrar desse fantasma? Eu me esforço, tem dias que parece mesmo que ele foi embora. De repente, como hoje, tudo volta e eu fico assim, triste, descrente.
- Uma hora terá de mudar, não?
- Será que muda mesmo?
- Descobrir o fantasma, identificá-lo, nomeá-lo, de certa forma, tira-lhe também todas as forças que ele possui.
- Estar em contato com essas sensações novamente só me faz mal.
- Pois então. Não acha que depende só de você?
- O que você sugere que eu faça?
- Que você perdoe. Ou melhor, que você se dê a chance de se perdoar.
- Mas eu não fiz nada...
- Exatamente. Não fez agora, nem fez naquela época. Será que alguém, nas mesmas condições, não teria feito a mesma coisa? Você tinha medo. Era isso, medo.
- Mas esse medo me trouxe várias conseqüências...
- Sim. E vai continuar trazendo se você não der um basta a essa situação.
- Eu não consigo.
- Consegue se você reconhecer as suas fraquezas. Se você admitir que naquela hora, naquela circunstância, fez o que era possível, o que estava ao seu alcance.
- Eu poderia ter evitado tudo isso.
- Naquela hora não. Naquela hora você era refém do medo. E hoje não há mais nada a ser feito para mudar isso.
- Eu me sinto covarde.
- Isso não é covardia. É maturidade. Talvez até sabedoria.
- Sabedoria?
- Sim, sabedoria. De lutar com o que é claro e possível e aceitar o que não se pode mudar.
- O que eu faço?
- Admita que fez tudo o que podia. E aceite isso de coração.

Wednesday, February 02, 2005

Exatos 10 anos depois, daqui a seis minutos estarei no meu novo automóvel, zero quilômetro.

É, viver é muito bom!

Dias atrás, os visitantes deste blogue fizeram uma lista de atitudes de pobre.

Ontem, li na Folha de S. Paulo, que a venda de celulares no mundo cresceu 29,3% no ano passado, em comparação com 2003.

Durante minhas férias lá no Nordeste, vi no jornal que os celulares foram campeões, de novo, de vendas no natal e que, aqui no Brasil, país de primeiríssimo mundo, o aumento, em relação a 2003, foi de 40%.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Pobre não pode ter telefone celular. É simples, bem simples.

Eu tenho celular, mas vivi pelo menos bons 28 anos da minha vida sem ele. Além de toda espécie de inconveniência que o aparelho provoca, do tipo aquele monte de vaca gorda burra e vadia conversando com seus (delas) pares no cinema, ou ainda tocar durante a missa e, oxalá, durante a minha aula, nada é mais grave do que esta porra que muita gente resolveu fazer: o “toquinho”.

Vem cá. Conte de cabeça quantos amigos seus já deram um “toquinho” no seu celular? Quer dizer que o cidadão quer ir pra balada, torra um monte de grana em cerveja, outro tanto em maconha e afins, tomara que invista um pouco em motel e camisinha, enche o rabo de um monte de porcaria, mas dinheiro pra pagar a conta do próprio telefone, não tem? Ah, vão carpir uma data, derriçar uma rua de café, encher uma laje.

Quer saber? Vão todos tomar no cu. A partir de hoje, comigo, acabou essa festa. Se não puder pagar a conta, sinto muito. É a vida te dizendo que não é pra gente conversar. E mais: quando me ligar no celular, e pelas milhares de razões eu não puder lhe atender, se não deixar recado na caixa postal, não tem retorno de ligação, falou?