TÊMPERA, o blog do João Bernardo

O amor não basta

Acabo de chegar do cinema, onde fui assistir, pela segunda vez, Closer – Perto Demais. E vou logo avisando que se alguém precisar de companhia, topo nova sessão. O filme é excelente. E, óbvio, muita gente sai da sala reclamando sobre algo que talvez nem elas compreendam.



O texto é de uma maturidade absurda. Há alguns anos, tive a oportunidade de ver a montagem de como a obra originalmente foi concebida: para o teatro. O espetáculo brasileiro trazia a Renata Sorrah, no papel que no filme é da Julia Roberts, José Mayer (Clive Owen), Marco Ricca (Jude Law) e Guta Stresser (Natalie Portman).

Closer acaba com o ideal do amor romântico. E mostra quatro pessoas diante de seus fantasmas, hipocrisias, fraquezas e, principalmente, desejos. O título deste post, na verdade, é uma das falas da Natalie, quando descobre a traição. E há muitas outras com especial clareza, que não dá para não ficar tocado.

Sempre acho incrível o quanto a gente consegue cada vez mais se distanciar do amor. É que vivemos sonhando com o impossível, com aquilo que é visto só no cinema. Mas espera aí: este não é um filme também? Sim, é. Mas não é, entende? As pessoas se irritam com o filme porque ele não tem final feliz. E porque a felicidade não existe. E porque, algum dia, em algum lugar, em algum momento, a gente vai ter que enfrentar os próprios fantasmas, as próprias angústias, as próprias limitações. E a não ser que cometamos o suicídio, teremos que apenas e simplesmente aceitar a nossa condição. E se conseguirmos ficar felizes com esta condição, daí, talvez, seja possível alguém também se aproximar.

Não está no outro, não está no externo. É urgente a necessidade de livrar-se do olhar alheio e direcionar a energia para o auto-conhecimento. As vivências, sejam alegres ou tristes, são solitárias, únicas, individuais. O máximo que se consegue é dar-se colo, reconhecer as limitações. E isso já é um grande passo.

Publicado em 27 de janeiro de 2005 às 22:16 por joao

Comentários

    • vem pra bh que eu assisto de novo com vc. e cuidado com ligações à uma e quarenta! eu sou um rapaz que acorda cedo... hohoho!
    • por zero
    • 28.Jan.2005 às 00:30 - Permalink - Reportar
    zero
    • Era por uma excelente causa. pra você, inclusive.!!!!! Contacte-me, pls...
    • por joao
    • 28.Jan.2005 às 09:40 - Permalink - Reportar
    joao
    • é o que farei neste momento, então.
    • por sujeito que acorda cedo
    • 28.Jan.2005 às 09:47 - Permalink - Reportar
    sujeito que acorda cedo
    • ele ligou pra perguntar do poema, não?

      bah, o zero nunca deveria ter saído do jardim higienópolis, o verdadeiro bairro boêmio de londrina. queremos o zero no valentino todas as terças e quintas agora.

      ei, edenilson, eu te vi ontem no cinema. vi closer também e ainda estou sob o impacto da natalie portman. puxa, ela cresceu, não?
    • por grota
    • 28.Jan.2005 às 09:56 - Permalink - Reportar
    grota
    • Gostei do texto. Sensatas as suas reflexões, especialmente quando aponta que o amor idealizado nos afasta do amor real. Saudade de bater esses papos com vc. Beijão.
    • por salome
    • 28.Jan.2005 às 10:09 - Permalink - Reportar
    salome
    • sim, sim, brota! a ligação telefônca foi encerrada neste momento. e os assuntos foram: poesia, poetas, essa vida esquisita e deliciosa, o filme closer, as coisas que acontecem nos bares da vila higienópolis! não rebaixe a vila higienópolis a um mero jardim higienópolis,ok? é preciso respeitar a vila higienópolis! vamos fazer uma escola de samba? G.R.E.S. Unidos de Vila Higienópolis! eu vou me fantasiar de celso garcia cid! hohoho! agora vou tomar yakult. até.
    • por zero
    • 28.Jan.2005 às 10:25 - Permalink - Reportar
    zero
    • Você e a Paula captaram bem a coisa. Acho que o filme discute um tema extremamente atual. E não sei porque diabos tem tanta gente dizendo bobagens sobre o filme. Blé.
    • por cata
    • 28.Jan.2005 às 11:33 - Permalink - Reportar
    cata
    • “teremos que apenas e simplesmente aceitar a nossa condição. E se conseguirmos ficar felizes com esta condição, daí, talvez, seja possível alguém também se aproximar”

      taí a solução, acho que estou no caminho certo...

      beijão procê.
    • por deisewarken
    • 28.Jan.2005 às 15:34 - Permalink - Reportar
    deisewarken
    • Para matar um grande amor
      Jamil Snege

      Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza; a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos.

      Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o Dom da finitude, abrupta e intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.

      Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.

      Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada, longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos que ainda nos une ao que acabamos de perder.

      Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...
    • por lorena
    • 29.Jan.2005 às 07:40 - Permalink - Reportar
    lorena
    • Belo texto amigo...Vc me fez querer ver o filme! Estou aguardando seu texto sobre mulheres...Beijos
    • por cintiahelena
    • 29.Jan.2005 às 11:08 - Permalink - Reportar
    cintiahelena
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