Hoje eu sou muito mais feliz que ontem. Cá deste outro lado do país, resolvi me meter numa aventura, motivado pelas belíssimas cenas mostradas nas novelas O Clone e Da cor do Pecado. Antes de qualquer coisa: areia e neve são bonitas apenas para cenário.
Depois de ser enganado pela recepcionista do hotel que disse que a viagem até os Lençóis Maranhenses duraria apenas duas horas, resolvi conhecer aquele suposto pedaço do paraíso. Pois bem. Acordei às 04h45 da manhã, horário que o grupo partiria. Joelsson, o motorista avisou de cara que a viagem demoraria 4h30. Putz grila, caráleo. Tudo pago, não dava para desistir. Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Ao chegar em Barreirinhas, a 260 km de São Luis, tive contato mais que direto com a pobreza. A cidade tem 50 mil habitantes e não tem uma rua asfaltada. Esgoto a céu aberto, e os açougues mostram as carnes dependuradas de frente para a rua. Não há freezer, embora haja celulares funcionando e até um cyber na antiga aldeia de pescadores.
Sou avisado pelo guia, o Raimundo – um garoto de 17 anos, negro, estudante do segundo ano do ensino médio e que virou guia por conhecer toda a região – que preciso me abastecer de comida, porque no nosso passeio, não existe nada pra comer. Ele lembra ainda que usaremos uma balsa, depois seguiremos pelo mangue numa Toyota – só elas agüentam – e depois caminharemos mais meia hora pelas dunas, vixe Maria.- E coloque algo no quengo que o sol é forte.
No supermercado, só água e refrigerante Jesus, uma espécie de guaraná de cereja. No Shopping das Frutas, a única coisa que dava para levar era maçã. O resto, nem pensar. Sol de 35 graus, vento escaldante, lá fomos nós em meio aos milhares de buracos.
No caminho, conheci o pé de buriti, uma fruta que lembra o côco, inclusive no formato da planta, cuja palha serve para cobrir os casebres erguidos com barro. – Não chove nadinha dentro, confirmou depois a Celina, garçonete sem dentes do restaurante.
Depois de 45 minutos na toyota e mais 30 caminhando na areia, chegamos ao tão falado Lençol. Sabe o que é? Uma lagoa de água doce da chuva, formada no meio das dunas. E como faz muito tempo que não chove, as outras lagoas, todas, todinhas mesmo, secaram. No lugar não tem absolutamente nada, e mal da pra gente ficar na beira da praia.
Não adiantava nada lamentar. O jeito foi esperar a hora do retorno. A agência prometeu um lugar super bacana pra gente tomar banho, já que estávamos impregnados de areia até dentro do ouvido, e isso não é exagero. Entro dentro do banheiro, peladão, abro o chuveiro. Tinha água aí na sua casa? Pois é. Aqui não. Eis que olho para o lado e vejo um grande tambor com uma caneca em cima. Bingo! Aquele era o tão maravilhoso banho. Acredite: foi o melhor da minha vida. Como a Inês já estava morta mesmo, o jeito foi relaxar e pronto. Cheguei à São Luis às 22h45.
E por que, então, eu fiquei mais feliz que no dia anterior? Porque eu não sabia exatamente o que era pobreza, embora desconfiasse. No meio daquele deserto, havia duas mansões. – Esta daqui é do Sarney, frisou o Raimundo. Um pouco antes, ainda na cidade, uma fila de quatro quarteirões. – São os pobres que vieram receber os auxílios do governo, explicou o guia. Noutra esquina, um senhor vendia roupas. Todas elas espalhadas no chão, numa lona, as pessoas se esfalfando para escolher uma peça. No mercado, uma senhora de uns 50 anos, explicava pra dona que precisava levar arroz e feijão para os filhos com apenas um real que tinha sobrado. Talvez haja uma esperança:
- O prefeito que tava aí era do lado de Rósêana, contou Raimundo.
- Mas o cabra era muito ruim, não fez nada pra cidade. A gente tirou ele de lá. Agora tem um cara do PT. Vamos ver no que vai dar.
PS: Assim que possível, conto uma história muito legal sobre dois ratos daqui. Amanhã pego o navio para Fernando de Noronha.
Publicado em 07 de janeiro de 2005 às 20:10 por joao