Ouço, neste momento, uma das músicas mais bonitas e tristes que conheço. (a letra está lá embaixo) A composição foi-me apresentada pelo Beto, no tempo em que moramos juntos em Curitiba. Mas esse não é o mote deste post, embora, no fundo, os temas estejam interligados.
Ontem li uma reportagem na Folha de S. Paulo sobre os relacionamentos amorosos, tema que, inevitavelmente, interessa a todo mundo. A antropóloga Mirian Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez uma pesquisa com 1.279 moradores do Rio de Janeiro, com idades entre 17 e 50 anos. O resultado da pesquisa é a base do livro que ela acaba de lançar, De Perto Ninguém é Normal.
Vou reproduzir abaixo, alguns trechos da entrevista que ela concedeu à Folha. Miriam entrevistou 835 mulheres e 444 homens. Revela que as mulheres são mais disponíveis para esses assuntos e que o resultado da pesquisa, embora feita no Rio de Janeiro, serve de parâmetro para o restante do Brasil.
“A crise feminina tem muito a ver com essa busca infindável de perfeição, de juventude, de beleza e magreza. É a nova questão da mulher. E sua nova prisão também.”
“Os homens são muito objetivos. No questionário, na pergunta ‘Quais os principais problemas de uma relação’, a maioria escreveu apenas: ‘falta de compreensão’. Entre as mulheres, algumas escreviam tanto que tinha até anexo. Era ‘falta de amor, de romance, de desejo, de cumplicidade, de diálogo, de companheirismo, falta, falta, falta.’ O homem tem uma visão mais global, olha para a mulher como um todo. Já a mulher é detalhista, procura imperfeições nela mesma e nas relações. O que o homem quer de uma relação é compreensão, tranqüilidade, sossego, paz. A mulher quer romance, amor, tesão, coisas que, numa relação mais duradoura são impossíveis.”
“As mulheres exigem do homem coisas que não exigiam antes. Ele não tem de ser só o provedor bem sucedido e poderoso. Também tem de cuidar do seu corpo, vestir-se bem, ser romântico. Há o modelo Reynaldo Gianecchini, sensível, e o modelo José Mayer, machão. E a mulher quer tudo isso numa só pessoa. É impossível. Elas usam o clichê ‘mulher independente assusta’ para justificar por que não têm parceiro’. Os homens dizem que não: querem que elas trabalhem e dividam as obrigações financeiras”.
“Parece que as mulheres não observam muito bem a realidade. Elas demandam como se tivessem 50 homens para escolher e algum vai ser perfeito. É contraditório, para não dizer pouco inteligente, que num mercado tão desfavorável elas exijam tanto. (...) Elas ficam reclamando que falta homem no mercado, um clichê. Mas é que estão olhando só para um homem que não existe. Se olharem com uma visão mais compreensiva, vão encontrar.”
Cá entre nós? Uma das análises mais lúcidas que já vi. Algo como acabar com o ideal e olhar para o real. Ou ainda, os tais dos amores possíveis... Reflita ouvindo a música abaixo:
Brigas, de Evaldo Gouveia & Jair Amorim
Veja só, que tolice nós dois
brigarmos tanto assim
se depois vamos nós a sorrir
trocar de bem, enfim.
Para que maltratarmos o amor
o amor não se maltrata não.
Para que se essa gente o que quer
é ver nossa separação.
Brigo eu, você briga também
por coisas tão banais
e o amor em momentos assim,
morre um pouquinho mais.
E ao morrer então é que se vê,
que quem morreu fui eu e foi você,
pois sem amor
estamos sós,
morremos nós.
E ao morrer, então é que se vê
que quem morreu fui eu e foi você,
pois sem amor,
estamos sós,
morremos nós.
Sim, eu estou de luto.
Publicado em 29 de novembro de 2004 às 16:33 por joao