Foi sem querer, mas eu magoei minha mãe. E de um jeito terrível. O assunto do último domingo foi o túmulo do meu pai. A família quer fazer acabamento em granito, arrumar o lugar de uma maneira mais “apresentável”. O fato real é que eu não concordo com isso. Não acredito que possamos medir os sentimentos em função dos ornamentos colocados para fazer vista a quem transita por cemitérios.
Mas vá lá. Orçamento feito, teremos um gasto de mais de mil reais. O lado bom é que agora toda a família terá um jazigo para morrer tranquilo, considerando que as pessoas façam isso em intervalo mínimo de três anos e meio. É isso aí. Caso você não saiba, a legislação determina que apenas uma pessoa ocupe a cova por um período de sete anos. Nessa “reforma”, o túmulo do meu pai terá condições de abrigar dois corpos. Lá, inclusive, estão o meu avô, de onde tirei o Bernardo, e minha Tia Conceição, além do seo João.
Bom, deu pra sacar o assunto super legal para domingo. E o caldo entornou quando minha mãe pediu para arrumarmos o túmulo de um dos meus irmãos, assassinado por envolvimento com drogas. Passamos maus bocados com ele. E nem mesmo a sua (a dele) morte foi capaz de aplacar algumas mágoas, muito menos minimizar as dores e sofrimentos provocados por ele.
Mas mãe é mãe. Ela não compreendeu as minhas razões, se é que elas existem. E isso me deixou profundamente triste. Uma qualidade que tenho é não fingir sentimentos. Mas isso vira defeito numa situação como essas. Amanhã vou pedir perdão a ela. Mas sei que isso significa muito pouco.
Publicado em 19 de outubro de 2004 às 23:30 por joao