Eu estreei no teatro londrinense no dia 11 de junho de 1992. Era um dia especial, eu estava apaixonado. E fazia três personagens no espetáculo “Perfidamente Teu”. O primeiro deles se matava logo na abertura da peça. Era o que chamávamos de suicídio das ilusões, já que, abandonado pela mulher amada, restava-lhe comer as flores do buquê recusado por ela. Modéstia a parte, a cena era lindíssima. De um desespero absoluto. Num canto, Cíntia Helena fazia uma mulher misteriosa, que ao longo da peça fazia algumas intervenções. Remexendo no baú, encontrei o texto. Chama-se Votos Partidos, cujo autor é desconhecido. Um dos mais tristes e doloridos que eu já li.
“Era tarde ontem à noite.
O cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano
e falava de você.
Você é o pássaro solitário. Na floresta
que você fique sem companhia.
Até achar-me. (era aqui que eu me jogava de um penhasco)
Você prometeu e mentiu.
Disse que estaria junto de mim
quando os carneiros fossem arrebanhados.
Eu assoviei e gritei cem vezes
e não achei nada lá.
A não ser uma ovelha balindo.
Prometeu-me algo difícil.
Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado em todas elas.
E uma branca e bela praça a beira mar.
Você prometeu algo impossível.
Que me daria luvas de pele de peixe
e sapatos de aves.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Minha mãe me disse para não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã, nem domingo.
Foi um mal momento pra dizer-me isso.
Foi como trancar a porta após a casa arrombada.
Você tirou o leste de mim.
Tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe a minha frente.
Tirou o que há atrás.
Tirou a lua, tirou o sol de mim.
E o meu medo é grande.
Você tirou Deus de mim.”
Ei, foi nessa montagem que eu conheci a Janaína. Eba, Janaína, Janaína, Janaína...
Publicado em 13 de outubro de 2004 às 12:12 por joao