TÊMPERA, o blog do João Bernardo

O presente e o auto-engano

Eu queria muito ver o documentário. Amigos paulistanos haviam recomendado, tem importância “social”, faz pensar. Cheguei ao cúmulo de achar que o mundo quisesse assistir à obra, de modo que tentei até reservar ingressos antecipadamente. Havia muitos, sim. Mas não precisava nenhuma sangria desatada.

O Presente mostra um grupo de homossexuais que está a fim de “possuir” o vírus da aids. Não, você não leu errado. Para obter o tal “mimo”, organizam festas onde todos transam sem camisinha. Com uma hora de duração, o documentário relata alguns exemplos.

Não nego o caráter “pedagógico” da obra. Mas me deu uma vontade danada de encontrar esses caras e dizer algumas verdades a eles. A “desculpa”, na minha leitura, obviamente, para contrair o vírus é fazer parte da turma. Lembra aquele lance do amigo que começa a fumar e todo mundo embarca na onda para não ser discriminado. É isso. Porém, a brincadeira aqui é com algo, por enquanto mais “definitivo”, no que tange a dar cabo da própria vida.

O filme mostra um cara “ansioso” para participar das festas. Desejo realizado, o organizador “testemunha” que no final, ele tenha recebido umas 40, 50 gozadas dentro de si. Provavelmente conseguiu o objetivo.

Moralismo não cabe aqui. O que me impressionou é falta de amor próprio que os personagens demonstraram. É muito simples. Tenho uma diferença qualquer com o mundo e preciso evitar esse sofrimento. Não dá para encarar e conviver com a adversidade. Há muitos caminhos para essa fuga: bebida, droga, excesso de trabalho, depressão. Para os grupos mostrados no filme, o vírus da aids. A mensagem, para mim, foi: “eu não me suporto como sou. Preciso de uma referência externa para existir. Neste momento, preciso ter aids”.

Por essas e outras razões que eu defendo a psicanálise como serviço essencial de saúde, disponível em todas as unidades básicas. O tempo atual sempre dá mostras que não se pode mais ter angústia, conviver com o não. Não se pode mais sofrer. Tudo é imediato, tudo é fugaz, tudo é para agora. E se não pode ser do jeito idealizado, a solução é acabar com o problema, ainda que este “problema” seja a própria vida. Se não venço, mato, tiro a vida daquilo que me oprime. E assim perpetuo a ilusão de que o pum do outro é sempre mais fétido que o meu.

Publicado em 19 de agosto de 2004 às 12:09 por joao

Comentários

    • acho que “os idiotas” também leva a coisa pra esse lado, mas de uma forma diferente. mas nesse caso parece que a abordagem é ainda melhor.
    • por vidal unplugged
    • 19.Ago.2004 às 14:58 - Permalink - Reportar
    vidal unplugged
    • uia... que honra ser visitado por vc...
    • por Bernardo
    • 19.Ago.2004 às 19:07 - Permalink - Reportar
    Bernardo
    • Passei pra deixar um oi. A macarronada tava boa ontem né? Vc não esperou os doces!! Depois ainda saímos!!!
      Beijos!!
    • por Susan
    • 20.Ago.2004 às 11:50 - Permalink - Reportar
    Susan
    • Caraca... vcs têm um fôlego? Pelamordedeus!
    • por eu deslogado
    • 20.Ago.2004 às 13:40 - Permalink - Reportar
    eu deslogado
    • Mais uma sobrevivente da macarronada. Pois é ainda fomos ao Valentino, crê? Bom estou morta!

      OBS: “OLGA” estreou hoje, quero assistir. Vai me acompanhar? Por favor quero um espaço na sua agenda, please.
    • por Thaís Souza
    • 20.Ago.2004 às 19:44 - Permalink - Reportar
    Thaís Souza
    • Banalidades...Do que as pessoas querem se esconder? Do que elas fogem ou acham que fogem procurando mais encrenca ainda...
    • por Thaís Souza
    • 20.Ago.2004 às 19:46 - Permalink - Reportar
    Thaís Souza
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