Eu queria muito ver o documentário. Amigos paulistanos haviam recomendado, tem importância “social”, faz pensar. Cheguei ao cúmulo de achar que o mundo quisesse assistir à obra, de modo que tentei até reservar ingressos antecipadamente. Havia muitos, sim. Mas não precisava nenhuma sangria desatada.
O Presente mostra um grupo de homossexuais que está a fim de “possuir” o vírus da aids. Não, você não leu errado. Para obter o tal “mimo”, organizam festas onde todos transam sem camisinha. Com uma hora de duração, o documentário relata alguns exemplos.
Não nego o caráter “pedagógico” da obra. Mas me deu uma vontade danada de encontrar esses caras e dizer algumas verdades a eles. A “desculpa”, na minha leitura, obviamente, para contrair o vírus é fazer parte da turma. Lembra aquele lance do amigo que começa a fumar e todo mundo embarca na onda para não ser discriminado. É isso. Porém, a brincadeira aqui é com algo, por enquanto mais “definitivo”, no que tange a dar cabo da própria vida.
O filme mostra um cara “ansioso” para participar das festas. Desejo realizado, o organizador “testemunha” que no final, ele tenha recebido umas 40, 50 gozadas dentro de si. Provavelmente conseguiu o objetivo.
Moralismo não cabe aqui. O que me impressionou é falta de amor próprio que os personagens demonstraram. É muito simples. Tenho uma diferença qualquer com o mundo e preciso evitar esse sofrimento. Não dá para encarar e conviver com a adversidade. Há muitos caminhos para essa fuga: bebida, droga, excesso de trabalho, depressão. Para os grupos mostrados no filme, o vírus da aids. A mensagem, para mim, foi: “eu não me suporto como sou. Preciso de uma referência externa para existir. Neste momento, preciso ter aids”.
Por essas e outras razões que eu defendo a psicanálise como serviço essencial de saúde, disponível em todas as unidades básicas. O tempo atual sempre dá mostras que não se pode mais ter angústia, conviver com o não. Não se pode mais sofrer. Tudo é imediato, tudo é fugaz, tudo é para agora. E se não pode ser do jeito idealizado, a solução é acabar com o problema, ainda que este “problema” seja a própria vida. Se não venço, mato, tiro a vida daquilo que me oprime. E assim perpetuo a ilusão de que o pum do outro é sempre mais fétido que o meu.
Publicado em 19 de agosto de 2004 às 12:09 por joao