TÊMPERA, o blog do João Bernardo

Amanhã é 23

Peculiar este título. Primeiro porque eu gosto muito da música, Amanhã é 23, do Kid Abelha, que embalou os dramas de Glorinha da Abolição, personagem da Malu Mader na novela O Outro. Segundo, e muito mais significativo, é a data. Amanhã meu pai faria 74 anos de idade.

Datas como esta mexem comigo. Não que em outros dias a lembrança dele se apaga. Nada disso. Primeiro o aniversário dele, depois o meu, depois o Dia dos Pais, depois o aniversário de morte. Pai tem um papel fundamental. O meu, nem se fala.

Na minha memória, sempre existe a mão firme dele. Mão que me levava para os lugares, mão que me tranqüilizava na hora de dormir, mão que me formou, mão que me trouxe aquilo que um homem pode e deve ter de melhor: o caráter.

Comecei a trabalhar muito cedo. E foi dele a “ordem” para que eu procurasse emprego sozinho, sem ajuda de ninguém. Ainda que para ser um office boy. Na época achei ruim. Hoje eu compreendo. Em determinadas ocasiões, é preciso enfrentar o desafio sozinho. Fui, vi, venci.

Nas andanças por uma ocupação, fiquei sabendo que precisavam de alguém no Banco do Brasil. Fui lá, descobri que haveria um concurso, fiz a inscrição. Modéstia à parte, fui muito bem na prova. Meu pai, eu soube depois, recorreu a um amigo que era correntista da agência. Pediu que ele dissesse ao gerente que eu era um bom menino. “Não precisou”, ele me diria mais tarde. “Você foi muito bem na prova”.

Este é um dos muitos exemplos da afeição do meu pai por mim. Creio que na minha essência, está um pouco da ingenuidade dele. Acreditamos sim que as pessoas são boas e corretas por princípio. Quebramos a cara, óbvio, mas não perdemos a fé.

O seo João era engraçado. Certa vez, vi-o esconder o rosto para chorar. Não compreendi exatamente o que se passara. Mas era algo que lhe afligia, que lhe tirava a esperança na vida, em tudo. Os meus sobrinhos, os amigos da escola, sempre eram bem vindos.

Meu pai fazia questão de receber o ósculo. E eu sempre tive o maior orgulho de chegar a ele e dizer: - A paz de Deus, pai. Ato contínuo, beijo no rosto. A gente fazia isso, em qualquer lugar que se encontrasse. Meus amigos, Keno, Juliano, Jonas, achavam bonito, tinham inveja. Meu pai, então, não se fez de rogado. Passou a beijá-los também.

Todas essas palavras podem parecer bobagem, saudosismo tolo. Não é. Gosto de imaginar que o meu pai está por aí, sendo feliz, olhando por mim como sempre fez. Dando-me a mão, afagando-me a cabeça, beijando o meu rosto.

Publicado em 22 de maio de 2004 às 19:42 por joao

Comentários

    • Maravilhoso! Onde estiver, seu pai está orgulhoso de você. Tal pai, tal filho. Obrigado pela lição.
    • por anonima
    • 22.Mai.2004 às 19:51 - Permalink - Reportar
    anonima
    • Quando leio um post assim ainda acho que esse Tipos vale à pena. Pena que poucos sabem usar esse espaço de forma digna como você.
    • por Pedro Luiz
    • 22.Mai.2004 às 19:52 - Permalink - Reportar
    Pedro Luiz
    • É, bonito mesmo. Eu sei o que é isso. Meu pai não me beijava muito, mas ele sabia exatamente o que eu estava pensando, o que eu gostava. E eu sou muito ele e hoje ele também “me olha” de outro lado...
    • por ana
    • 22.Mai.2004 às 20:24 - Permalink - Reportar
    ana
    • eu gosto mto daquela lição que seu pai deu no sujeito que furou a fila no banco, q eu já tinha ouvido pessoalmente e vc postou aqui: http://www.tipos.com.br/ite...
    • por zero
    • 22.Mai.2004 às 23:41 - Permalink - Reportar
    zero
    • Que texto aconchegante. O carinho precisamente transformado em palavras.
    • por ester_
    • 23.Mai.2004 às 16:29 - Permalink - Reportar
    ester_
    • Hj é 23, eu tenho 25 e espero que você guarde bem essas lembranças, elas valem muito mais do que você tão bem traduziu em palavras.
    • por No good memories...
    • 23.Mai.2004 às 17:03 - Permalink - Reportar
    No good memories...
  1. kenji
    • Você é assim. Transparente, carinhoso, digno... Acredito que está continuando a caminhada de seu pai com grande mérito.

      Te adoro!
    • por Thaís Souza
    • 24.Mai.2004 às 10:16 - Permalink - Reportar
    Thaís Souza
    • Sei que o telefonema foi estranho, mas precisava ouvir sua voz e saber que vc estava bem. Passei a manhã inteira pensando involuntariamente no sonho.
      Cuide-se.
      Beijos
    • por Patty
    • 25.Mai.2004 às 13:25 - Permalink - Reportar
    Patty
    • Edi, acho que a Thaís já lhe mandou por e-mail, mas de qq forma tem fotos da festa da Jana e da sua casa no meu blog. veja lá.
    • por Patty
    • 25.Mai.2004 às 16:12 - Permalink - Reportar
    Patty
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