Sexta-feira resolvi almoçar com a minha mãe, já que fui à Rolândia resolver uma pendenga comercial e fazer terapia. À mesa, ela começou me contar uma história:
- Filho, sabe o que a fisioterapêutica (sic) me perguntou ontem?
- O que?
- Se era verdade que eu tive derrame cerebral.
- De onde ela veio com isso?
- A dona da academia contou pra ela. Ela duvidou porque eu não tenho nenhuma seqüela.
- E eu já sei o que a senhora disse pra ela.
- O que?
- Que Deus curou a senhora. *
- É isso mesmo. Ela ficou emocionada com a história. Disse que quer vir aqui em casa para eu contar a minha vida pra ela.
- E a senhora acha isso bom?
- Acho. Ela falou para eu escrever um livro. Mas como eu não sei escrever, ela sugeriu que um filho fizesse isso.
- E este filho, no caso, sou eu?
- Sim.
- Eu posso até escrever. Mas a senhora vai ter que me contar em detalhes como foi o namoro com o pai.
- Pra que?
- As pessoas gostam de romance. Quanto tempo vocês namoraram?
- Uns três anos.
- E como era o namoro?
- Que namoro? A gente só ficava se olhando de longe. Em três anos, nunca nem pegamos na mão.
- Mas como foi isso então? Ficaram nesse lenga-lenga, daí chegou o dia e casaram?
- É, mais ou menos...
- Como assim?
- Bem, na verdade a gente deu um beijo. Faltava uma semana para o casamento.
- E como foi o beijo? Foi do tipo Tarcísio Meira ou tipo Darlene e Vladimir na novela das oito?
- Ah, foi um beijo, sei lá como é isso.
- A minha dúvida é: foi beijo selinho, desse que eu dou na senhora ou foi de boca aberta?
- Boca aberta, claro!
* Esta história aconteceu quando eu tinha três anos de idade. Até hoje é claro na minha memória o dia que minha mãe passou mal com o derrame e foi levada para o hospital. Era madrugada, quase amanhecendo. Fomos acordados pelas dores dela e pedimos ajuda. Até a ambulância chegar, passaram algumas horas. Eu me recordo dela sendo colocada na maca, amarrada pelos enfermeiros para não cair. Eu, a Madalena e a Lalda, minhas irmãs, ficamos no portão dando tchau para o veículo. Foram dias intermináveis. Por causa da idade, não permitiam que eu a visitasse. Em todo o tempo que ela ficou internada, fui ao hospital apenas uma vez. A dona Alice sempre conta que num determinado dia, depois de ser desenganada pelos médicos, um anjo apareceu no quarto. Ele disse algumas palavras e tocou a minha mãe. Primeiro do lado esquerdo, depois o direito. À medida que a mão do anjo passava pelo corpo, as dores e a paralisia iam embora. Foi assim que ela ficou boa e teve alta. Sem nenhuma seqüela, nem sinal desse problema tão desagradável. Passei a infância ouvindo esta e outras histórias de milagres. Numa família de evangélicos, sempre foram o mote de diversas conversas. Vale um livro?
Publicado em 12 de maio de 2004 às 08:19 por joao
Acho que as histórias da minha avó também dariam um livro, ela acredita piamente que era o saci quem assoviava a noite no sítio que ela morava. E outro dia ela resolveu contar a história do “negrinho d'água” que apareceu no barco.....
A gente tem mesmo muito o que aprender não acha Ed?
Beijos!