A ambulância de Andirá me apodou na saída de Londrina. Mas quiseram os semáforos que nos encontrássemos de novo. Pela fresta da janela entreaberta, vi o enfermeiro e uma mulher segurando a mão de alguém. Tinha o ar consternado.
Enquanto observava, tocava uma bela música do último cd do Rod Stweart que eu comprei. Dei asas à imaginação. Aliás, eu sempre faço isso. Tentei imaginar quem estava deitado naquela maca. Seria um filho? O marido? A mãe? O pai? Tudo foi muito rápido.
Esbocei um sorriso tolo. Criei uma dor eventual para aquela mulher. Imaginei “eu aqui feliz e ela lá sofrendo”. O veículo, sirenes acesas, saiu em disparada. Olhei a lua linda no céu. Pensei que lá no Japão, naquele mesmo momento, alguém poderia estar passando pela mesma situação.
Tentei calcular quantas pessoas estariam morrendo naquele segundo. Certamente há muita gente chorando. Imediatamente lembrei que, oras bolas, também haveria muitos nascimentos nos mais variados lugares. Talvez lá na faixa de Gaza, alguém solta algumas bombas. Nos bastidores do Planalto, mais uma tentativa de suborno. Numa igreja qualquer, um fiel roga proteção. Em algum leito, lágrimas de solidão e desamparo.

Entre tantas e tolas divagações, a idéia que me deixa sempre muito feliz é imaginar casais transando. Já pensou que neste exato momento alguém está se entregando pela primeira vez? Que as pessoas não pensam em nada além daquele com quem está grudado? Que, sei lá, elas emitem sons estranhos, mas envolventes, aconchegantes. Daí que eu fico sorrindo como bobo, imaginando que o mundo seria muito, mas muito melhor, se as pessoas se preocupassem menos com bobagens e compartilhassem seus desejos, afetos e ternura com os outros. Se isso vier junto com sexo de verdadeira cumplicidade, sem comentários.
PS: Ontem eu falei com você. Relembramos bons momentos. À noite voltando pra casa, desejei voltar ao passado. Chegar em casa, ligar pra você. Perguntar se você não gostaria de vir dormir comigo. Você viria, assistiríamos um pouco de tevê. Depois transaríamos e dormiríamos segurando na mão do outro. Creia, “...depois de você, os outros são os outros e só...”
E não se esqueça: nunca larguei sua mão!