No velório do irmão Angelim, deparei-me com o Péricles. E foi inevitável lembrar da nossa infância. Temos mais ou menos a mesma idade. Ele ali, de camisa de seda azul, às vezes correndo atrás do filho. Exatamente como o pai dele, o irmão José, fazia nos cultos. Péricles era o que costumávamos chamar de uma criança “atentada”. Isso significa dizer que o garoto não dava sossego pra ninguém. Rolava no chão da igreja, fazia birra, incomodava todo mundo. A mãe assistia a tudo e nada.
Quis o destino que eu e o Piolho – apelido do Valdeir – fizéssemos justiça com as próprias mãos. Combinamos de bater no Péricles. Dia após dia, culto após culto, terminava a cerimônia, a gente corria atrás dele e dava-lhe bons cascudos. Um segurava e o outro batia. Foi assim por muitos e muitos dias. O menino, claro, chorava. A gente se sentia vingado. Ele se jogava no chão, eu olhava pro Piolho e já combinávamos com o olhar: “hoje ele apanha de novo”.
Repetidos safanões depois, a mãe dele, a irmã Tereza, veio falar com a minha, logo após o culto. Reclamou que não podia vir mais à igreja de tanto que a gente batia no filho dela. A irmã estava “desesperada”. A cara da minha mãe foi de poucos amigos. Ela me viu de longe e fez sinal. Obediente, cheguei perto e já comecei a apanhar. Ali dentro da igreja mesmo.
Dona Alice quase me arrancou a orelha. “A irmã pode ter certeza que eu educo esse menino. Ele faz isso porque é desobediente. Mas eu educo. Eu educo. E a irmã me perdoe. Ele nunca mais vai bater no seu filho”. No carro, meu pai não entendeu nada. E eu levava mais e mais tapas da minha mãe. “Você me mata de vergonha, seu ordinário”, ela repetia várias vezes.
Em casa, apanhei mais ainda. Agora de cinto. Meu pai estava no banheiro. Quando ele saiu, perguntou o que havia ocorrido. Minha mãe contou “a vergonha que tinha passado”. Meu pai me olhou e perguntou: “você fez isso?”. Confirmei abaixando a cabeça. “Então eu também vou te dar uma surra”. E dá-lhe cintadas. Foram muitas. Fiquei todo marcado e proibido de ir a igreja por alguns dias.
Neste período, minha raiva do Péricles triplicou. E fiquei imaginando um jeito de me vingar. Sim, eu não deixaria aquilo passar em branco. Como uma verdadeira serpente, dias depois voltei à igreja e pedi desculpas ao menino. Disse que nunca mais iria bater nele e que adoraria que fôssemos amigos. Começou, então, a minha vingança.
O “atentado” aprontava e eu ficava só olhando. Minha cabeça queimava de tanto procurar uma idéia para me vingar de tantas cintadas. O tempo passou e conquistei definitivamente a confiança do garoto.
Um dia, no fundo da igreja, a idéia brotou como uma luz.
- Péricles, vamos brincar de sinaleiro?
- Como assim?
- Você sabe como funciona o sinaleiro, né?
- Sei.
- Então. Quando está vermelho, você tem que parar. Só pode passar no verde. Certo?
- Certo.
- Eu vou ser o sinaleiro e você o carro.
- Como assim?
- Você vai lá na frente e vem correndo. Se eu levantar a perna, sinal vermelho, você pára. Se a perna estiver abaixada, sinal verde, você passa. Entendeu?
- Entendi.
E lá foi ele. Na primeira vez, passou voando por mim, perna abaixada, sinal verde. Foi na boa. Na segunda vez, tudo se repetiu. Na terceira, perna semi levantada, amarelo, atenção garoto. Ele repetiu mais uma vez e nada da perna levantar.
- Nossa, você é bem esperto né? Vai lá de novo, disse a ele.
O menino obedeceu e deu todo o gás que tinha dentro de si. Veio que parecia um corisco. Eis que ele se aproximou e eu, tchan, levantei a perna. Sinal vermelho. Ele tropeçou, voou uns dois metros de altura e caiu de barriga pranchada no chão. Abriu o maior berreiro. Eu, imediatamente, corri pra ajudá-lo.
- Você não viu o sinal vermelho?
- Não vi, estava correndo muito.
- Não deu pra parar, né? Eu não tive culpa. Você tinha entendido a brincadeira.
Nisso a mãe e o pai dele chegaram. Minha mãe também veio esbaforida. Quando todos estavam a nossa volta, o próprio Péricles foi explicando:
- Ele não teve culpa, ele não teve culpa. Eu caí sozinho. Ele até me ajudou a levantar.
Dona Alice suspirou aliviada. Eu, duplamente.