“Eu também tenho muito pra falar”. Este deveria ser o título deste post. Pelo menos era a intenção desde ontem. Eu comentara com o Guilherme, a Patrícia e a Thais – fomos juntos ao cinema – que gostaria de falar sobre um dos meus preconceitos: detesto conviver com gente burra. Mas hoje ocorreu algo que me fez mudar de idéia.
A segunda-feira, 16 de fevereiro, começou mal. Antes do café da manhã, eu e minha mãe recebemos um telefonema anunciando a morte de um querido e grande amigo da família. Falo disso em outro momento. Precisei participar de uma reunião na Metropolitana. Não foi das melhores. Passei o dia ansioso por conta de algumas mudanças significativas na grade curricular. Pra ajudar, uma possível cliente de assessoria desmarcou reunião inicial de trabalho por problemas pessoais. Na tevê, correria. E o primeiro dia de aulas para os veteranos foi complicado. Prédio novo, tudo reluzindo e um monte de gente chata, impaciente, fútil e infantil reclamando de tudo. Já era quase 22 horas quando tive uma feliz e surpreendente surpresa.
Eu aguardava a Linda Bulik, coordenadora do curso. E zanzava pelo saguão quando encontrei a Terezinha, secretária da instituição. No colo dela, um garoto. Ele me viu e se jogou nos meus braços. Imediatamente recostou a cabeça no meu ombro e me abraçou do outro lado. Aconchegou-se de uma maneira muito terna. Eu nunca tinha visto o menino em toda a minha vida.
Lucas Miguel tem um ano e oito meses. É o terceiro filho de um senhor que foi à Faculdade fazer a matrícula da filha. Ficou comigo pelo menos uns 30 minutos. O pai veio, tentou pegá-lo e ele nada. A irmã de nove anos fez graça, prometeu dar-lhe o celular e nada. A futura aluna da instituição também tentou. O garoto ali, aninhado. Depois veio a mãe. Chamou, prometeu doce e nada. Sempre abraçado a mim, com a cabecinha recostada.
O pai disse que era muito mimo que ele recebia no berçário. A mãe se disse estupefata, já que o menino costuma estranhar gente desconhecida. Ele faz aniversário dia 09 de maio. É de touro. E o que isso tem a ver? Acho que nada, certamente. Burocracias cumpridas, a família passeou pelo campus. Hora de ir embora. O menino saiu do seu colo? Nem do meu. Fui com a família ao portão. Ele largou você? Nem a mim. Precisei ir até o carro. Lá, o pequeno me abraçou, chorou, esperneou, gritou. Não queria partir. Precisou ser retirado quase à força. E foi embora chorando.
Eu fiquei muito, muito, muito emocionado. Crianças são puras. Evidentemente que não me deixei levar por sentimentalismo barato, pensando que agora preciso ter um filho só meu. Nada disso. O dia que começou de maneira conturbada, terminou com uma genuína demonstração de afeto. Pura, gratuita, descompromissada, verdadeira. Aquele tipo de acontecimento que faz a gente acreditar que a vida é maravilhosa. E que é preciso muito pouco, mas muito pouco mesmo pra gente ser feliz.
Publicado em 17 de fevereiro de 2004 às 00:07 por joao