TÊMPERA, o blog do João Bernardo

Essa tal felicidade V

“Eu também tenho muito pra falar”. Este deveria ser o título deste post. Pelo menos era a intenção desde ontem. Eu comentara com o Guilherme, a Patrícia e a Thais – fomos juntos ao cinema – que gostaria de falar sobre um dos meus preconceitos: detesto conviver com gente burra. Mas hoje ocorreu algo que me fez mudar de idéia.


A segunda-feira, 16 de fevereiro, começou mal. Antes do café da manhã, eu e minha mãe recebemos um telefonema anunciando a morte de um querido e grande amigo da família. Falo disso em outro momento. Precisei participar de uma reunião na Metropolitana. Não foi das melhores. Passei o dia ansioso por conta de algumas mudanças significativas na grade curricular. Pra ajudar, uma possível cliente de assessoria desmarcou reunião inicial de trabalho por problemas pessoais. Na tevê, correria. E o primeiro dia de aulas para os veteranos foi complicado. Prédio novo, tudo reluzindo e um monte de gente chata, impaciente, fútil e infantil reclamando de tudo. Já era quase 22 horas quando tive uma feliz e surpreendente surpresa.


Eu aguardava a Linda Bulik, coordenadora do curso. E zanzava pelo saguão quando encontrei a Terezinha, secretária da instituição. No colo dela, um garoto. Ele me viu e se jogou nos meus braços. Imediatamente recostou a cabeça no meu ombro e me abraçou do outro lado. Aconchegou-se de uma maneira muito terna. Eu nunca tinha visto o menino em toda a minha vida.


Lucas Miguel tem um ano e oito meses. É o terceiro filho de um senhor que foi à Faculdade fazer a matrícula da filha. Ficou comigo pelo menos uns 30 minutos. O pai veio, tentou pegá-lo e ele nada. A irmã de nove anos fez graça, prometeu dar-lhe o celular e nada. A futura aluna da instituição também tentou. O garoto ali, aninhado. Depois veio a mãe. Chamou, prometeu doce e nada. Sempre abraçado a mim, com a cabecinha recostada.


O pai disse que era muito mimo que ele recebia no berçário. A mãe se disse estupefata, já que o menino costuma estranhar gente desconhecida. Ele faz aniversário dia 09 de maio. É de touro. E o que isso tem a ver? Acho que nada, certamente. Burocracias cumpridas, a família passeou pelo campus. Hora de ir embora. O menino saiu do seu colo? Nem do meu. Fui com a família ao portão. Ele largou você? Nem a mim. Precisei ir até o carro. Lá, o pequeno me abraçou, chorou, esperneou, gritou. Não queria partir. Precisou ser retirado quase à força. E foi embora chorando.


Eu fiquei muito, muito, muito emocionado. Crianças são puras. Evidentemente que não me deixei levar por sentimentalismo barato, pensando que agora preciso ter um filho só meu. Nada disso. O dia que começou de maneira conturbada, terminou com uma genuína demonstração de afeto. Pura, gratuita, descompromissada, verdadeira. Aquele tipo de acontecimento que faz a gente acreditar que a vida é maravilhosa. E que é preciso muito pouco, mas muito pouco mesmo pra gente ser feliz.

Publicado em 17 de fevereiro de 2004 às 00:07 por joao

Comentários

    • Lindo, Edi. Crianças são um poço de surpresas mesmo.
    • por Deni,
    • 17.Fev.2004 às 00:14 - Permalink - Reportar
    Deni,
    • Bom não tenho nem o que comentar. Você sabe que fico boba quando vejo uma criança, amo elas. São puras e verdadeiras, burras? Não. Agente que pensa, aquelas criaturinhas são muito inteligêntes. É claro que há crianças que queremos distância, mas quem não quer um carinho assim de uma criança tão meiga. Que lindo! QUERO UM SOBRINHO...

      Beijo
    • por Thaís Souza
    • 17.Fev.2004 às 00:57 - Permalink - Reportar
    Thaís Souza
    • Lindo... Tbém fico muito feliz com apenas um sorriso do meu sobrinho (que tem um ano e meio)...Se ele me chama de dinda, então...
      às vezes até rola um abracinho, um beijinho... Mas é raro.. e quando acontece, fico tão feliz....
      Adorei o texto...
    • por Li_M
    • 17.Fev.2004 às 01:58 - Permalink - Reportar
    Li_M
    • Muito obrigada por me convidar para ir ao cinema... chuif chuif.
      Ah, crianças... dizem que elas conseguem enxergar coisas além dos olhos. Vai ver foi isso, ela viu em vc toda essa tendresse.
    • por Janaína, a Ávila
    • 17.Fev.2004 às 07:26 - Permalink - Reportar
    Janaína, a Ávila
    • Que lindo! Crianças são maravilhosas mesmo. Adoro-as. São elas que nos mostram a simplicidade da vida quando mais precisamos, e com toda a sinceridade do mundo.

      E Jana, não fique com ciúmes. Resolvemos tudo de última hora e vc estava no trabalho no domingo, como vc havia me dito. Vamos marcar de ir ao cinema logo, logo, ok?

      Beijos
    • por Patty
    • 17.Fev.2004 às 09:55 - Permalink - Reportar
    Patty
    • Oi, Edi

      Ainda bem que eu não faço parte dessa “gente chata, impaciente, fútil e infantil reclamando de tudo”, pois eu só reclamei da falta de ônibus. Era 23h20 e eu estava a procura de um ponto de ônibus que fosse para o centro.

      Até Logo,
    • por Angélica
    • 17.Fev.2004 às 13:40 - Permalink - Reportar
    Angélica
    • Oi Angélica,
      Certamente vc não faz parte deste grupo. Mas que ontem eu vi gente bradando por absurdos, ah, isso eu vi. Que falta faz uma enxada e uma data para carpir...
    • por indignado
    • 17.Fev.2004 às 13:49 - Permalink - Reportar
    indignado
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!