TÊMPERA, o blog do João Bernardo

Ao pó voltarás!

Acabo de voltar do enterro do irmão Angelim. Era assim que chamávamos o cooperador da Congregação Cristã no Brasil, em Rolândia, Ângelo Sartori. Desde a morte do meu pai, este foi o primeiro velório a que compareci. E lá estavam reunidos muitos irmãos da igreja, gente com quem convivi durante toda a minha infância.


Eu não sou batizado na graça onde nasci e fui criado. Minha mãe sempre lembra disso. Mas tive com o irmão Angelim uma relação que certamente me acompanhará até o fim dos meus dias. Ele me ensinou a orar. Alto, enérgico, olhos azuis faiscantes, fazia os sermões dos cultos com verdadeira paixão. Era um homem respeitado por todos os membros da igreja.


A vida, os aprendizados me fizeram acreditar que igreja, enquanto templo, não é nada. O mais importante é ter uma relação espiritual, acreditar em alguma coisa. No sermão durante o funeral, o celebrante fez todos expiarem suas culpas, refazendo o batido conceito de bem e mal, céu e inferno, como se tudo se resumisse a isso. Eles devem ter alguma razão. Ali, vendo tanta gente reunida, chorando, prostrados diante de uma crença, senti-me pequeno. E pude, mais uma vez, entender que certos desígnios, venham de onde vierem, não devem ser questionados. Apenas respeitados, pois têm importância fundamental em nossa existência.


Dia desses, conversando com uma amiga cuja mãe enfrenta um grave problema de saúde, ela lamentou não seguir, não ter religião alguma, algo em que acreditar. Supõe que seria mais fácil. Talvez seja. Admitir que existe uma força superior, nos dá a dimensão das nossas fraquezas. E isso não é conformismo. Talvez seja sabedoria. Uma proteção contra sofrimentos maiores. Sim, a gente precisa de amparo. Não só na hora da morte, real ou simbólica. A sociedade contemporânea evita sofrer. Não se permite ansiedade, dores, frustrações. Isso é um grande erro. Aceitar, assumir, encarar nossos fantasmas nos faz melhores.


“Quem passou a vida toda servindo a Deus, chega ao final de sua missão na face da Terra, com a certeza que combateu o bom combate, guardou a fé e as palavras, e agora aguarda o veredicto final do Justo Juiz, que é nosso Deus, não só ele, mas a tantos quantos forem fiéis até a morte, honrando a palavra, dando um fiel testemunho e aguardando a trombeta soar e encontrarmos com ele lá na Jerusalém Celestial”. Este foi o trecho final de uma homenagem que fizeram ao servo de Deus.


De alguma forma, os irmãos presentes ao funeral acreditam nisso. Eu, a meu modo, também. Precisava me despedir do irmão Angelim. Para que todas as noites, antes de deitar eu possa sempre repetir as suas palavras: “Senhor, meu Deus. Meu eterno e bom Pai Celeste. Mais uma vez estou diante de ti. Primeiramente para agradecer tudo de bom que o senhor tem me dado. Depois para pedir perdão pelos meus pecados. Olhe por mim, pela minha família, pelas autoridades desde país tão grande. Não nos deixe só, não nos desampare. Tudo que eu te peço e suplico não é em meu nome, nem em meu merecimento. Mas porque sei que tu és bendito e eterno. Amém!”

Publicado em 17 de fevereiro de 2004 às 11:40 por joao

Comentários

    • MORTE. Difícil de aceitar, dói, machuca...Se agente perde um objeto qualquer, mas, de grande valor digamos, ainda assim temos como substituí-lo, mas uma pessoa não. Não se acha no mercando, nem em loja, não dá para trocar...Mas é bom saber que esta pessoa deixou algo de muito valor, o exemplo de vida!
      TE AMO!
      Beijos no seu imenso CORAÇÃO
    • por Thaís Souza
    • 18.Fev.2004 às 01:00 - Permalink - Reportar
    Thaís Souza
    • Cheguei ao seu site por outro assunto, mas qual a minha surpresa quando vejo este tópico... me impressionei com a clareza com que você o abordou.
      Sou da Congregação, embora também não batizado, seguindo desde a infância a doutrina, e acima de tudo, acreditando nEle e seguindo seus ensinamentos, o que, tenho certeza (desculpe-me pela imodéstia), me transformou num adulto responsável, livre de problemas, transtornos e viver num lar pacífico e tranqüilo.
      No fim do ano passado, compareci ao funeral de um senhor que era judeu, mas foi apresentado ao Senhor por um irmão que trabalha no Hospital onde ele estava internado, padecendo de um terrível câncer.
      É uma história muito bonita, que meu tempo e o site não permitiria tantas palavras, mas desde o seu batismo até seu funeral, foram trinta dias exatos, que apesar da dor física, os trinta dias que ele disse que foram os mais felizes de sua vida. A pregação no seu funeral, feita por um ancião, foi clara, iluminada, que me fez repensar a vida em vários sentidos.
      Saudações, e boa sorte!
    • por thiago f s
    • 20.Ago.2004 às 16:43 - Permalink - Reportar
    thiago f s
    • -fiquei contente com as declaracões que li, fruto da fé, da esperança e do amor de Deus que sempre esteve presente no coração do irmão Angelim. Passei minha infancia e juventude em Arapongas, como crente da Congregação, mas sempre congreguei em Rolândia e também conservo em meu coração as belas lembranças de um cidadão dos céus. Hoje caminho para velhice, com meus 52 anos, orgulhoso de ter permanecido fiel e espero ser até o fim de meus dias na terra, de ter colocado em pratica as palavras dada por Deus em sua boca. Tenho certeza que ficou em vossos corações uma boa semente, qualquer dia desses, pode vir chuva nessa terra, essa semente germinar e gerar muitos frutos para Deus.
    • por Moises Viruel
    • 24.Set.2004 às 23:49 - Permalink - Reportar
    Moises Viruel
    • Nao conheci o irmao Angelim, mas creio que ele trabalhou muito na obra de Deus, e deixara nuitas saudades a todos que o conheceram. Deus dara em sua recompensa a vida eterna... Amem.
    • por AMARILDO MARCELINO
    • 26.Jan.2008 às 15:25 - Permalink - Reportar
    AMARILDO MARCELINO
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