Acabo de voltar do enterro do irmão Angelim. Era assim que chamávamos o cooperador da Congregação Cristã no Brasil, em Rolândia, Ângelo Sartori. Desde a morte do meu pai, este foi o primeiro velório a que compareci. E lá estavam reunidos muitos irmãos da igreja, gente com quem convivi durante toda a minha infância.
Eu não sou batizado na graça onde nasci e fui criado. Minha mãe sempre lembra disso. Mas tive com o irmão Angelim uma relação que certamente me acompanhará até o fim dos meus dias. Ele me ensinou a orar. Alto, enérgico, olhos azuis faiscantes, fazia os sermões dos cultos com verdadeira paixão. Era um homem respeitado por todos os membros da igreja.
A vida, os aprendizados me fizeram acreditar que igreja, enquanto templo, não é nada. O mais importante é ter uma relação espiritual, acreditar em alguma coisa. No sermão durante o funeral, o celebrante fez todos expiarem suas culpas, refazendo o batido conceito de bem e mal, céu e inferno, como se tudo se resumisse a isso. Eles devem ter alguma razão. Ali, vendo tanta gente reunida, chorando, prostrados diante de uma crença, senti-me pequeno. E pude, mais uma vez, entender que certos desígnios, venham de onde vierem, não devem ser questionados. Apenas respeitados, pois têm importância fundamental em nossa existência.
Dia desses, conversando com uma amiga cuja mãe enfrenta um grave problema de saúde, ela lamentou não seguir, não ter religião alguma, algo em que acreditar. Supõe que seria mais fácil. Talvez seja. Admitir que existe uma força superior, nos dá a dimensão das nossas fraquezas. E isso não é conformismo. Talvez seja sabedoria. Uma proteção contra sofrimentos maiores. Sim, a gente precisa de amparo. Não só na hora da morte, real ou simbólica. A sociedade contemporânea evita sofrer. Não se permite ansiedade, dores, frustrações. Isso é um grande erro. Aceitar, assumir, encarar nossos fantasmas nos faz melhores.
“Quem passou a vida toda servindo a Deus, chega ao final de sua missão na face da Terra, com a certeza que combateu o bom combate, guardou a fé e as palavras, e agora aguarda o veredicto final do Justo Juiz, que é nosso Deus, não só ele, mas a tantos quantos forem fiéis até a morte, honrando a palavra, dando um fiel testemunho e aguardando a trombeta soar e encontrarmos com ele lá na Jerusalém Celestial”. Este foi o trecho final de uma homenagem que fizeram ao servo de Deus.
De alguma forma, os irmãos presentes ao funeral acreditam nisso. Eu, a meu modo, também. Precisava me despedir do irmão Angelim. Para que todas as noites, antes de deitar eu possa sempre repetir as suas palavras: “Senhor, meu Deus. Meu eterno e bom Pai Celeste. Mais uma vez estou diante de ti. Primeiramente para agradecer tudo de bom que o senhor tem me dado. Depois para pedir perdão pelos meus pecados. Olhe por mim, pela minha família, pelas autoridades desde país tão grande. Não nos deixe só, não nos desampare. Tudo que eu te peço e suplico não é em meu nome, nem em meu merecimento. Mas porque sei que tu és bendito e eterno. Amém!”
Publicado em 17 de fevereiro de 2004 às 11:40 por joao
TE AMO!
Beijos no seu imenso CORAÇÃO