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This is the archive for February 2004

Saturday, February 28, 2004

Pois é. Quando espalhei ao “mundo” o que tinha me ocorrido, o Marcelo Rocha comentou algo parecido como “caraca, agora você não vai acertar mais nada”. É, caro amigo, você estava redondamente enganado.

Sucedeu que ontem fui checar o último concurso da Lotofácil e... batata, meu filho, batata. Acertei 11 números outra vez. E o melhor: nos dois jogos. Portanto, a fortuna cresceu 100%. Ontem recebi R$ 4,00.

Saí da Lotérica flutuando. Tenho fé que dia desses, como quem não quer nada, levo uma bolada. Tomara que não seja nos testículos.

Friday, February 27, 2004

Depois de um passeio superbacana por Curitiba, fizemos uma pausa para registrar o momento.


Alguém já viu trio mais bonito, charmoso e simpático?

Thursday, February 26, 2004

“...não me olhe, como se a polícia andasse atrás de mim...”


No velório do irmão Angelim, deparei-me com o Péricles. E foi inevitável lembrar da nossa infância. Temos mais ou menos a mesma idade. Ele ali, de camisa de seda azul, às vezes correndo atrás do filho. Exatamente como o pai dele, o irmão José, fazia nos cultos. Péricles era o que costumávamos chamar de uma criança “atentada”. Isso significa dizer que o garoto não dava sossego pra ninguém. Rolava no chão da igreja, fazia birra, incomodava todo mundo. A mãe assistia a tudo e nada.

Quis o destino que eu e o Piolho – apelido do Valdeir – fizéssemos justiça com as próprias mãos. Combinamos de bater no Péricles. Dia após dia, culto após culto, terminava a cerimônia, a gente corria atrás dele e dava-lhe bons cascudos. Um segurava e o outro batia. Foi assim por muitos e muitos dias. O menino, claro, chorava. A gente se sentia vingado. Ele se jogava no chão, eu olhava pro Piolho e já combinávamos com o olhar: “hoje ele apanha de novo”.

Repetidos safanões depois, a mãe dele, a irmã Tereza, veio falar com a minha, logo após o culto. Reclamou que não podia vir mais à igreja de tanto que a gente batia no filho dela. A irmã estava “desesperada”. A cara da minha mãe foi de poucos amigos. Ela me viu de longe e fez sinal. Obediente, cheguei perto e já comecei a apanhar. Ali dentro da igreja mesmo.

Dona Alice quase me arrancou a orelha. “A irmã pode ter certeza que eu educo esse menino. Ele faz isso porque é desobediente. Mas eu educo. Eu educo. E a irmã me perdoe. Ele nunca mais vai bater no seu filho”. No carro, meu pai não entendeu nada. E eu levava mais e mais tapas da minha mãe. “Você me mata de vergonha, seu ordinário”, ela repetia várias vezes.

Em casa, apanhei mais ainda. Agora de cinto. Meu pai estava no banheiro. Quando ele saiu, perguntou o que havia ocorrido. Minha mãe contou “a vergonha que tinha passado”. Meu pai me olhou e perguntou: “você fez isso?”. Confirmei abaixando a cabeça. “Então eu também vou te dar uma surra”. E dá-lhe cintadas. Foram muitas. Fiquei todo marcado e proibido de ir a igreja por alguns dias.

Neste período, minha raiva do Péricles triplicou. E fiquei imaginando um jeito de me vingar. Sim, eu não deixaria aquilo passar em branco. Como uma verdadeira serpente, dias depois voltei à igreja e pedi desculpas ao menino. Disse que nunca mais iria bater nele e que adoraria que fôssemos amigos. Começou, então, a minha vingança.

O “atentado” aprontava e eu ficava só olhando. Minha cabeça queimava de tanto procurar uma idéia para me vingar de tantas cintadas. O tempo passou e conquistei definitivamente a confiança do garoto.

Um dia, no fundo da igreja, a idéia brotou como uma luz.
- Péricles, vamos brincar de sinaleiro?
- Como assim?
- Você sabe como funciona o sinaleiro, né?
- Sei.
- Então. Quando está vermelho, você tem que parar. Só pode passar no verde. Certo?
- Certo.
- Eu vou ser o sinaleiro e você o carro.
- Como assim?
- Você vai lá na frente e vem correndo. Se eu levantar a perna, sinal vermelho, você pára. Se a perna estiver abaixada, sinal verde, você passa. Entendeu?
- Entendi.

E lá foi ele. Na primeira vez, passou voando por mim, perna abaixada, sinal verde. Foi na boa. Na segunda vez, tudo se repetiu. Na terceira, perna semi levantada, amarelo, atenção garoto. Ele repetiu mais uma vez e nada da perna levantar.
- Nossa, você é bem esperto né? Vai lá de novo, disse a ele.

O menino obedeceu e deu todo o gás que tinha dentro de si. Veio que parecia um corisco. Eis que ele se aproximou e eu, tchan, levantei a perna. Sinal vermelho. Ele tropeçou, voou uns dois metros de altura e caiu de barriga pranchada no chão. Abriu o maior berreiro. Eu, imediatamente, corri pra ajudá-lo.
- Você não viu o sinal vermelho?
- Não vi, estava correndo muito.
- Não deu pra parar, né? Eu não tive culpa. Você tinha entendido a brincadeira.

Nisso a mãe e o pai dele chegaram. Minha mãe também veio esbaforida. Quando todos estavam a nossa volta, o próprio Péricles foi explicando:
- Ele não teve culpa, ele não teve culpa. Eu caí sozinho. Ele até me ajudou a levantar.

Dona Alice suspirou aliviada. Eu, duplamente.

Tuesday, February 17, 2004

Acabo de voltar do enterro do irmão Angelim. Era assim que chamávamos o cooperador da Congregação Cristã no Brasil, em Rolândia, Ângelo Sartori. Desde a morte do meu pai, este foi o primeiro velório a que compareci. E lá estavam reunidos muitos irmãos da igreja, gente com quem convivi durante toda a minha infância.

Eu não sou batizado na graça onde nasci e fui criado. Minha mãe sempre lembra disso. Mas tive com o irmão Angelim uma relação que certamente me acompanhará até o fim dos meus dias. Ele me ensinou a orar. Alto, enérgico, olhos azuis faiscantes, fazia os sermões dos cultos com verdadeira paixão. Era um homem respeitado por todos os membros da igreja.

A vida, os aprendizados me fizeram acreditar que igreja, enquanto templo, não é nada. O mais importante é ter uma relação espiritual, acreditar em alguma coisa. No sermão durante o funeral, o celebrante fez todos expiarem suas culpas, refazendo o batido conceito de bem e mal, céu e inferno, como se tudo se resumisse a isso. Eles devem ter alguma razão. Ali, vendo tanta gente reunida, chorando, prostrados diante de uma crença, senti-me pequeno. E pude, mais uma vez, entender que certos desígnios, venham de onde vierem, não devem ser questionados. Apenas respeitados, pois têm importância fundamental em nossa existência.

Dia desses, conversando com uma amiga cuja mãe enfrenta um grave problema de saúde, ela lamentou não seguir, não ter religião alguma, algo em que acreditar. Supõe que seria mais fácil. Talvez seja. Admitir que existe uma força superior, nos dá a dimensão das nossas fraquezas. E isso não é conformismo. Talvez seja sabedoria. Uma proteção contra sofrimentos maiores. Sim, a gente precisa de amparo. Não só na hora da morte, real ou simbólica. A sociedade contemporânea evita sofrer. Não se permite ansiedade, dores, frustrações. Isso é um grande erro. Aceitar, assumir, encarar nossos fantasmas nos faz melhores.

“Quem passou a vida toda servindo a Deus, chega ao final de sua missão na face da Terra, com a certeza que combateu o bom combate, guardou a fé e as palavras, e agora aguarda o veredicto final do Justo Juiz, que é nosso Deus, não só ele, mas a tantos quantos forem fiéis até a morte, honrando a palavra, dando um fiel testemunho e aguardando a trombeta soar e encontrarmos com ele lá na Jerusalém Celestial”. Este foi o trecho final de uma homenagem que fizeram ao servo de Deus.

De alguma forma, os irmãos presentes ao funeral acreditam nisso. Eu, a meu modo, também. Precisava me despedir do irmão Angelim. Para que todas as noites, antes de deitar eu possa sempre repetir as suas palavras: “Senhor, meu Deus. Meu eterno e bom Pai Celeste. Mais uma vez estou diante de ti. Primeiramente para agradecer tudo de bom que o senhor tem me dado. Depois para pedir perdão pelos meus pecados. Olhe por mim, pela minha família, pelas autoridades desde país tão grande. Não nos deixe só, não nos desampare. Tudo que eu te peço e suplico não é em meu nome, nem em meu merecimento. Mas porque sei que tu és bendito e eterno. Amém!”
“Eu também tenho muito pra falar”. Este deveria ser o título deste post. Pelo menos era a intenção desde ontem. Eu comentara com o Guilherme, a Patrícia e a Thais – fomos juntos ao cinema – que gostaria de falar sobre um dos meus preconceitos: detesto conviver com gente burra. Mas hoje ocorreu algo que me fez mudar de idéia.

A segunda-feira, 16 de fevereiro, começou mal. Antes do café da manhã, eu e minha mãe recebemos um telefonema anunciando a morte de um querido e grande amigo da família. Falo disso em outro momento. Precisei participar de uma reunião na Metropolitana. Não foi das melhores. Passei o dia ansioso por conta de algumas mudanças significativas na grade curricular. Pra ajudar, uma possível cliente de assessoria desmarcou reunião inicial de trabalho por problemas pessoais. Na tevê, correria. E o primeiro dia de aulas para os veteranos foi complicado. Prédio novo, tudo reluzindo e um monte de gente chata, impaciente, fútil e infantil reclamando de tudo. Já era quase 22 horas quando tive uma feliz e surpreendente surpresa.

Eu aguardava a Linda Bulik, coordenadora do curso. E zanzava pelo saguão quando encontrei a Terezinha, secretária da instituição. No colo dela, um garoto. Ele me viu e se jogou nos meus braços. Imediatamente recostou a cabeça no meu ombro e me abraçou do outro lado. Aconchegou-se de uma maneira muito terna. Eu nunca tinha visto o menino em toda a minha vida.

Lucas Miguel tem um ano e oito meses. É o terceiro filho de um senhor que foi à Faculdade fazer a matrícula da filha. Ficou comigo pelo menos uns 30 minutos. O pai veio, tentou pegá-lo e ele nada. A irmã de nove anos fez graça, prometeu dar-lhe o celular e nada. A futura aluna da instituição também tentou. O garoto ali, aninhado. Depois veio a mãe. Chamou, prometeu doce e nada. Sempre abraçado a mim, com a cabecinha recostada.

O pai disse que era muito mimo que ele recebia no berçário. A mãe se disse estupefata, já que o menino costuma estranhar gente desconhecida. Ele faz aniversário dia 09 de maio. É de touro. E o que isso tem a ver? Acho que nada, certamente. Burocracias cumpridas, a família passeou pelo campus. Hora de ir embora. O menino saiu do seu colo? Nem do meu. Fui com a família ao portão. Ele largou você? Nem a mim. Precisei ir até o carro. Lá, o pequeno me abraçou, chorou, esperneou, gritou. Não queria partir. Precisou ser retirado quase à força. E foi embora chorando.

Eu fiquei muito, muito, muito emocionado. Crianças são puras. Evidentemente que não me deixei levar por sentimentalismo barato, pensando que agora preciso ter um filho só meu. Nada disso. O dia que começou de maneira conturbada, terminou com uma genuína demonstração de afeto. Pura, gratuita, descompromissada, verdadeira. Aquele tipo de acontecimento que faz a gente acreditar que a vida é maravilhosa. E que é preciso muito pouco, mas muito pouco mesmo pra gente ser feliz.

Wednesday, February 11, 2004

- Você está muito gostoso, sabia?
- Sabia.
- Então...
- Então?
- A gente podia matar a saudade?
- Saudade?
- Sim, saudade, um do outro, das nossas transas.
- Quem disse que eu sinto saudade das nossas transas?
- Não sente?
- Não.
- Nem um pouquinho?
- Nada. Absolutamente nada.
- Como assim?
- O que você sente quando olha um vidro de palmito bem fechado?
- Nada, oras bolas!
- É isso. Quando eu olho pra você eu sinto a mesma coisa.
- Você é um grosso.
- Não, eu sou sincero. Você pensou que eu estaria disponível a vida inteira. Enganou-se. Não sinto sua falta.
- Você poderia ao menos ser gentil.
- Pra que? Pra você criar mais ilusões?
- Não. Eu só queria relembrar nossos bons momentos.
- Foram muito poucos, fazem parte do passado e eu não tenho a menor vontade de reviver nenhum daqueles momentos.
- Nenhuma chance?
- Que insistência. Pra você eu serei apenas uma lembrança. Só isso.
- Idiota...
- Obrigado. Até mais.

Monday, February 09, 2004

Voltava de Arapongas ontem à noite, pensando em fazer um novo post. Não tinha assunto definido. A idéia era chegar e começar a escrever para ver no que daria. Em princípio falar de temas sérios, essas angústias que insistem em me rodear, pode parecer chato, cansativo, repetitivo. Mas isso não tem muita importância. Até porque este é um espaço livre, onde a gente pode fazer aquilo que bem entender.

Eu lembrei do Altevir e da Araceli. São amigos do meu irmão, o David, e enfrentam uma crise conjugal das bravas. Talvez se separem. A mãe dela, inclusive, sentenciou: - Se você voltar com ele, não põe mais os pés na minha casa.

O drama do casal me fez pensar no quanto colocamos nosso bem estar nas mãos do outro. Daí que o outro não corresponde e a gente sofre. O que me intriga é que isso é mais velho que andar pra frente. Mas muita gente se recusa a aceitar. Não adianta esperar nada do outro. Isso só aumenta a frustração.

Certa ocasião, assistia a uma entrevista de Marília Gabriela com Fernanda Montenegro. A atriz falava da solidão. E ela disse algo parecido com um cartão que o Beto tem em frente ao computador dele. Alguma coisa do tipo “se estou comigo, ninguém pode me deixar”. Você conhece verdade mais profunda?

Nós fomos enganados. Disseram pra gente que um dia iríamos encontrar a outra metade. Grande e nefasta mentira. Enquanto vivermos achando que uma outra pessoa vai nos completar a ponto de nos tornarmos um só, continuaremos sofrendo. Para que as relações dêem certo, é preciso haver dois indivíduos inteiros. Que tenham personalidade, gostos, desejos, vontades. Que fiquem bem sozinhos. Porque enquanto um estiver pensando que a felicidade vai chegar pela porta da frente, é sofrimento quase certo.

Eu adoro clichês. Tem um lá na bíblia, Mateus, capítulo 22, versículo 39, antigo como a nossa própria existência. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Entendeu o recado ou é preciso desenhar?

Tuesday, February 03, 2004

Faz 18 anos que a Globo exibiu o remake de Selva de Pedra . Foi uma homenagem à Janete Clair, morta em 1984. Para quem não sabe, na primeira versão, em 1972, o desenlace da trama protagonizada por Francisco Cuoco e Regina Duarte deu 100% de audiência. Todos os aparelhos de tevês brasileiros estavam sintonizados no mesmo canal. E eu resolvi falar disso porque sempre lembro da chamada que apresentava o personagem do Tony Ramos – em 1986 – Cristiano Vilhena. Ele dizia uma frase emblemática: “ser feliz não é questão de escolha!”.

Os dias passam, os acontecimentos se sucedem, você conversa com um, com outro. Discute com apaixonados, estranha os céticos e realistas. Mas um dos assuntos mais comuns ultimamente tem sido este: o bem estar, a paz, a tranqüilidade, a serenidade. A felicidade, então, se preferir. E por mais que a gente esperneie, negue, admita e aceite que para fazer omeletes é preciso quebrar alguns ovos, no fundo lutamos contra isso. Queremos o bônus sem pagar o ônus. E vivemos muito sós. Talvez seja essa a razão de tanto desamparo e o oposto da felicidade.

A cada dia, fica mais clara a sensação dos ciclos e lições que a vida insiste em nos aplicar. E cada um deles tem, invariavelmente, começo, meio e fim. Como o ritual da morte. Pode reparar. Primeiro você recebe a notícia de que alguém morreu. Dá uma dor, o coração dilacera. O segundo momento é a hora de ver o corpo, velar o defunto. Outro choque, outra dor, outra sensação totalmente diferente. Por último, o momento de enterrar, de encerrar o ciclo. De colocar debaixo da terra, dentro da nossa cultura, e seguir em frente. Ouvir um ou outro mentir dizendo que a vida continua.

Não, a vida não continua. Ela segue um outro rumo, com as pessoas tentando se ajeitar como podem e se agüentam. Ninguém é indiferente às mudanças, graças a Deus. De repente a gente olha para o lado e nota que nem todos percebem e sentem da mesma forma. Há pessoas que passam por isso de uma maneira mais leve, sem brigar com as situações. Com a complacência que talvez somente a sabedoria consiga explicar. De qualquer forma, cada um é cada um. E não adianta: ninguém viverá as suas sensações. Esses momentos são de extrema solidão. Não adianta fugir.

Eu andei lutando contra mim. Tentando ser criativo e interessante como o Beto. Leve como o Guilherme. Engraçado como o Moraes. Afetuoso como o Frazão. Sossegado como o Rocha. Culto como o Briguet e o Grota. Verdadeiro como a Janaína. Perdi a briga, por razões óbvias. Quando escrevi o primeiro post sobre o tema, pensei que poderia ser para sempre. Hoje, ouvi a Cássia Eller lembrar que “o pra sempre, sempre acaba”. Está chegando a hora do enterro. Estou indo de volta pra casa.