Duas imagens exibidas nas edições do Paraná TV de sábado me chamaram a atenção. Numa delas, uma mulher entra desesperada porta adentro daquela loja que sempre faz a tal da megaliqüidação de início do ano. Ela encontra a tão sonhada geladeira. Abraça-a e grita de alegria. Não se contém e beija o elefante branco. Noutro momento, cidade distante, uma senhora com rugas no rosto, outra filial da loja que realiza desejos a preços módicos, chora depois de conseguir comprar uma máquina de costura. “Era o sonho da minha vida”, disse ao repórter.
Admito que entristeci ao ver tanta miséria. Delas, a minha, quem sabe a sua. Como pode o projeto de felicidade de alguém se resumir a uma geladeira ou uma máquina de costura? Os sonhos não devem incluir limusines, transatlânticos, palácios, mansões, príncipes encantados, viagens, boas comidas, champanhe da melhor safra?
Numa conversa com o Beto neste fim de ano, ele me relatava uma série de reportagens produzida pela TV Educativa. Numa delas, um homem dizia que esperava das pessoas que elas apenas lhe dessem bom dia. Era a maneira de ser reconhecido como pessoa. Não precisava dinheiro, roupa, emprego, ajuda alguma. Apenas bom dia.
Toca o telefone, uma amiga diz que está com o coração apertado. No bar, uma sempre sorridente amiga está com um sorriso disfarçado. No fundo, uma angústia tremenda invade-lhe o peito. Ele entra na redação. Não fala nada, apenas acena. Os olhos estão entristecidos. Talvez a alma também.
É caros amigos. Ser feliz é uma “dificulidade”. E esse sentimento que todos nós buscamos, certamente deve estar em algo tão simples quanto uma geladeira, uma máquina de costura ou um bom dia caloroso. Dia após dia criamos a ilusão de que é preciso mais para ser feliz. Não é. Isso é balela. Num treinamento de gerência do Banco do Brasil, a instrutora relatou um episódio curioso. O sonho da família de uma amiga era ter uma casa na praia. Lutaram, trabalharam, economizaram e, finalmente, compraram um apartamento a três quadras da beira mar. No exato dia em que mudaram, sem mesmo tomar uma fresca na sacada, saíram atrás de um outro imóvel, agora sim, de frente para o mar. Depois de realizado mais este desejo, o próximo talvez fosse um iate, quem sabe?
Não, não tenho ilusões. Poliana certamente não é um mal de que padeço. Mas o respeito por si mesmo, a percepção que o mundo ideal efetivamente não existe e de que há situações que se solucionam por si, sem que haja um milímetro da nossa interferência, ah, sim. Isso sim pode trazer um pouco mais de serenidade. Talvez a felicidade seja uma utopia de nós pequenos e disfarçados burgueses. Talvez haja muito mais coisas interessantes ainda perto, bem perto do nosso próprio umbigo.
A gente vive o tempo da cegueira, do auto-engano. Capitulamos sempre imaginando que o colega ao lado é quem conhece o verdadeiro sentido da felicidade. Morreremos, mas não desistiremos. Não, não estou falando da felicidade. A nossa vocação, perdoem-me, parece ser o sofrimento. E nisso, gente, mais uma vez o Beto está certo. Certo não, certíssimo.
Ninguém foi feito pra sofrer. Sabe o que eu espero que a vida lhe ofereça, caro amigo? uma geladeira, uma máquina de costura e muitos, muitos bons dias!