TÊMPERA, o blog do João Bernardo

Essa tal felicidade III

Duas imagens exibidas nas edições do Paraná TV de sábado me chamaram a atenção. Numa delas, uma mulher entra desesperada porta adentro daquela loja que sempre faz a tal da megaliqüidação de início do ano. Ela encontra a tão sonhada geladeira. Abraça-a e grita de alegria. Não se contém e beija o elefante branco. Noutro momento, cidade distante, uma senhora com rugas no rosto, outra filial da loja que realiza desejos a preços módicos, chora depois de conseguir comprar uma máquina de costura. “Era o sonho da minha vida”, disse ao repórter.


Admito que entristeci ao ver tanta miséria. Delas, a minha, quem sabe a sua. Como pode o projeto de felicidade de alguém se resumir a uma geladeira ou uma máquina de costura? Os sonhos não devem incluir limusines, transatlânticos, palácios, mansões, príncipes encantados, viagens, boas comidas, champanhe da melhor safra?


Numa conversa com o Beto neste fim de ano, ele me relatava uma série de reportagens produzida pela TV Educativa. Numa delas, um homem dizia que esperava das pessoas que elas apenas lhe dessem bom dia. Era a maneira de ser reconhecido como pessoa. Não precisava dinheiro, roupa, emprego, ajuda alguma. Apenas bom dia.


Toca o telefone, uma amiga diz que está com o coração apertado. No bar, uma sempre sorridente amiga está com um sorriso disfarçado. No fundo, uma angústia tremenda invade-lhe o peito. Ele entra na redação. Não fala nada, apenas acena. Os olhos estão entristecidos. Talvez a alma também.


É caros amigos. Ser feliz é uma “dificulidade”. E esse sentimento que todos nós buscamos, certamente deve estar em algo tão simples quanto uma geladeira, uma máquina de costura ou um bom dia caloroso. Dia após dia criamos a ilusão de que é preciso mais para ser feliz. Não é. Isso é balela. Num treinamento de gerência do Banco do Brasil, a instrutora relatou um episódio curioso. O sonho da família de uma amiga era ter uma casa na praia. Lutaram, trabalharam, economizaram e, finalmente, compraram um apartamento a três quadras da beira mar. No exato dia em que mudaram, sem mesmo tomar uma fresca na sacada, saíram atrás de um outro imóvel, agora sim, de frente para o mar. Depois de realizado mais este desejo, o próximo talvez fosse um iate, quem sabe?


Não, não tenho ilusões. Poliana certamente não é um mal de que padeço. Mas o respeito por si mesmo, a percepção que o mundo ideal efetivamente não existe e de que há situações que se solucionam por si, sem que haja um milímetro da nossa interferência, ah, sim. Isso sim pode trazer um pouco mais de serenidade. Talvez a felicidade seja uma utopia de nós pequenos e disfarçados burgueses. Talvez haja muito mais coisas interessantes ainda perto, bem perto do nosso próprio umbigo.


A gente vive o tempo da cegueira, do auto-engano. Capitulamos sempre imaginando que o colega ao lado é quem conhece o verdadeiro sentido da felicidade. Morreremos, mas não desistiremos. Não, não estou falando da felicidade. A nossa vocação, perdoem-me, parece ser o sofrimento. E nisso, gente, mais uma vez o Beto está certo. Certo não, certíssimo. Ninguém foi feito pra sofrer. Sabe o que eu espero que a vida lhe ofereça, caro amigo? uma geladeira, uma máquina de costura e muitos, muitos bons dias!

Publicado em 06 de janeiro de 2004 às 23:35 por joao

Comentários

    • O que eu mais queria neste momento era unir a minha família que foi separada não por problemas de relacionamento, mas por problemas econômicos. Um exílio econômico que expulsou do país uma massa de 200 mil trabalhadores brasileiros para o Japão. Outros 800 mil para os EUA. E outros tantos para a Europa. Acho que não sou muito diferente da zeladora que tinha como sonho uma máquina de costura. O que nos difere é apenas o montante de dinheiro para poder concretizar os nossos desejos.
    • por kenji
    • 07.Jan.2004 às 00:31 - Permalink - Reportar
    kenji
    • ah vamos mudar para Sabaúdia então?
      Lá o moraes é amigo do Rei.
    • por vivi
    • 07.Jan.2004 às 10:21 - Permalink - Reportar
    vivi
    • E ele terá a mulher que quiser, na cama que escolher?
    • por manuel bandeira
    • 07.Jan.2004 às 10:32 - Permalink - Reportar
    manuel bandeira
    • mas em Sabaúdia não existe tamanha diversidade de mulheres e camas assim. agora, quando se fala em suricatas...
    • por bala
    • 07.Jan.2004 às 10:39 - Permalink - Reportar
    bala
    • Raios que me atinjam! Ele terá, então, as suricatas que quiser, no lugar que escolher? Santa indagação, Bala!
    • por Manuel BAndeira
    • 07.Jan.2004 às 10:42 - Permalink - Reportar
    Manuel BAndeira
    • Pronto! Sabáudia era o único lugar em que as suricatas e os humanos viviam em perfeita harmonia, edificando, lado a lado, a civilização de paz, amor e harmonia que nós tanto buscamos.

      Em Sabáudia jamais se viu liquidações às cinco da manhã, presídios, carnês do baú, jardins zoológicos, propaganda das Casas Bahia, caminhões de gás, ligas do mal... etc. etc. etc.

      Agora com essa história que vocês estão inventando das suricatas, já já vai ter uma ONG para proteger as Suricatas Abusadas Anonimas, outra para proteger os Humanos Ameaçados por Suricatas, o PH e o PS... podem parar já.

      Mantenha Sabáudia livre da maldade!
    • por vivi
    • 07.Jan.2004 às 10:59 - Permalink - Reportar
    vivi
    • Contato Osti estabelecido. Sucesso na operação. Articulações sendo feitas para por material no ar. QSL? (não é quinta sem lei, ok?
    • por Contra Canalhas
    • 07.Jan.2004 às 18:14 - Permalink - Reportar
    Contra Canalhas
    • maravilha!
      vou, inclusive, oferecer a todos um poema de manuel bandeira, chamado “brisa”, transformado em canção e maravilhosamente interpretado por aquela irmã do caetano, aquele mala:

      Vamos viver em Sabáudia, Anarina
      Vamos viver em Sabáudia
      Deixarei aqui, meus amigos, meus livros,
      Minhas riquezas, minha vergonha,
      Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido,
      Teu amante
      Aqui, faz muito calor
      Em Sabáudia faz calor também
      Mas lá tem brisa
      Vamos viver de brisa, Anarina
      Vamos viver de brisa...

      não é linda?
    • por zero
    • 07.Jan.2004 às 23:00 - Permalink - Reportar
    zero
  1. joao
    • ESTA FOI A PRIMEIRA VEZ QUE ENTREI AQUI E ADOREI./ eSTA COISA CHAMADA DE FELICIDADE QUE A GENTE TANTO PROCURA./ é BEM AQUILO MESMO./ mUITO PROFUNDO O QUE VOCÊ ESCREVEU./ pERGUNTEI A UM AMIGO MEU SOBRE ESTE TAL DE JOÃO BERNARDO E ELE ME DISSE QUE É UM GRANDE AMIGO DELE./ ENTÃO RESOLVI COMENTAR./ MUITO LEGAL MESMO. CLÁUDIA DE CURITIBA./
    • por CLAUDIA PEREIRA RIBEIRO
    • 08.Jan.2004 às 13:40 - Permalink - Reportar
    CLAUDIA PEREIRA RIBEIRO
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