Entre os muitos presentes que a TV Cidade meu Deu, estava o
Beto. Nos conhecemos quando ele esteve por lá fazendo teste para repórter. Foi apenas uma semana e ele já foi chamado para cobrir férias na TV Coroados. No início da carreira, ele percorreu várias cidades do Estado até se fixar em Curitiba. A primeira sensação forte de que éramos amigos de verdade foi quando ele me ligou no meio de uma tarde, em dúvida se aceitava a proposta de trabalho definitivo na TV Paranaense e se mudava pra Curitiba.
Na verdade eu creio que já amava o Beto antes mesmo de conhecê-lo. Lembro que certa vez, na minha infância, eu brincava sozinho na cozinha e minha mãe, a dona Alice, comentou com o meu pai, o seo João, que deveriam arrumar um irmão pra mim. Esse irmão era o Beto, que eu conheci muitos anos depois. Hoje, eu tenho plena convicção. Sem querer hierarquizar as relações, eu sinto um amor profundo por este cidadão. Não somos gêmeos univitelíneos. Mas é sempre muito dolorido ficar longe dele por muito tempo.
O Beto é aquele tipo de amigo que faz a diferença na vida da gente. Pra quem o conhece na superfície, pode imaginar que ele é sempre engraçado. E é mesmo. Mas tem momentos de verdadeiro companheirismo. Ele sabe compartilhar afeto, atenção, cuidado. Os dias em Curitiba mostraram-se negros por um longo período. Estava eu lá cabisbaixo, ele entrava no quarto, me olhava e dizia: - Eu estou aqui, ok? Fã ardoroso de Adélia Prado, certa tarde rumei pra Curitiba pra ver a escritora. Ele que nem era fã dela, fez todo o périplo comigo. Sem reclamar. O Beto não fala palavrão. Ele vai à missa. Ele tem caráter. É íntegro. Sabe viver o presente. De vez em quando também fica triste. Mas quando isso ocorre, deita e dorme. Certo que o momento ruim vai passar. Ele é generoso. Trocamos todas as confidências que os amigos verdadeiros podem fazer. Quando meu pai morreu, ele não pôde vir. Não precisava. A presença dele era tão forte ao meu lado, que não deu pra se sentir desamparado.
São nove anos de amizade. Muitas horas de conversas da melhor qualidade. Assunto nunca faltou. Em Curitiba almoçávamos juntos, passeávamos juntos, acompanhávamos um ao outro até o elevador. Quando decidi retornar pra Londrina, o momento mais triste foi me despedir dele. A tarde estava um pouco cinzenta, a gente desceu até a garagem, ficamos lá na calçada esperando um amigo que vinha se despedir de mim. Ele veio e se foi. E eu lá torcendo pra que o tempo parasse e não fosse preciso dizer tchau pro Beto. Foi a despedida mais dolorida da minha vida. Separar-me de alguém tão especial provocou lágrimas pelo menos até Ponta Grossa.
Eu e o Beto temos um pacto. Nunca dito, nunca firmado com sangue. Mas escrito com o amor e afeto que só as pessoas de alma nobre conseguem acessar e compreender. No final do ano passado, o amigo passava por uma crise financeira. E veio meio chateado com um presente, que ele considerava simples. Até disse “desculpe, aí, eu estou meio sem grana”.
É Beto, você não precisava ter se justificado. Sabe por que? Não haverá nada material que seja tão grande quanto você. Nada se comparará ao presente de ser seu amigo. Ainda que eu vivesse por toda a eternidade, não teria tempo suficiente para agradecer a Deus de tê-lo colocado em meu caminho. Eu espero que você respeite o ciclo natural da vida e não cometa a falseta de me abandonar nesta jornada precipitadamente. Eu preciso ir antes. Porque certamente este mundo ficaria muito sem graça sem você.
Eu já lhe disse pessoalmente, já disse por telefone, agora registro aqui. Eu amo você, meu amigo. E espero que hoje, no seu aniversário, você se sinta abraçado por mim. Se tem algo que eu me orgulho nessa vida é poder dizer pra todo mundo: o Beto é meu amigo.