Em primeiro lugar gostaria de dizer que eu continuo bem. Feliz, sobretudo e sobre todas as coisas. E não pense você que isso é uma máscara. Esse bem estar era algo que eu procurava havia muito tempo. Mas é que me aconteceu algo muito chato.
Sábado liguei para minha cunhada Raquel. Queria ir tomar sol na casa dela. Tava um calor de rachar mamona por aqui. Ela disse que tudo bem. Coloquei roupa apropriada, terminei de postar o penúltimo texto. Fui fechar as janelas. O vitrô da cozinha me pregou uma peça.
Como sempre acontecia desde que foi instalado, o tal resolveu emperrar. E como sempre fazíamos, por ensinamento do meu pai, dei uma pancadinha na grade pra forçar a abertura. Não resolveu. Coloquei um pouco mais de força e zaz! Gritei C-A-R-Á-L-E-O! E me dei conta que havia me cortado.
O sangue jorrava solto. Nos azulejos, nos armários, no chão, na mesa. Corri pro banheiro. Joguei água e percebi que o corte era mais profundo que eu imaginara. E saía sangue, muito sangue. Insisti mais um pouco, fui tentando fazer parar o sangramento. Não adiantou. Me deu um certo pânico.
Corri pra área de serviço pegar alguns panos para ajudar a controlar o sangue. Não adiantou. Em poucos segundos, a camiseta velha estava toda ensopada. Aí olhei pros lados e vi o tamanho do estrago. Tudo manchado de vermelho. E dá-lhe sangue. E mais, e mais. A esta altura, o pânico aumentava. Me dei conta que deveria ir para algum posto de saúde ou hospital. Mas, pare! Tenho que limpar antes essa sujeira toda. Imagine a dona Alice chegar, ver o vidro quebrado, sangue por todo o lado, eu fora de casa. Sabe o que mãe pensa neste momento, né?
Pois é. Enrolei mais e mais panos na mão. Limpei todo o sangue que havia dentro da cozinha, banheiro, copa, área de serviço. Peguei o carro e fui pro hospital. Dentro do carro, os panos já estavam ensopados também. O sangue começava a pingar no tapete do carro. Achei que fosse desmaiar. Já tinham passado mais de 15 minutos desde o momento do corte.
No hospital ainda chequei se atendiam pelo meu plano de saúde. O médico, felizmente, estava desocupado. E me atendeu de pronto. Bastou sentar na maca para a pressão cair. Tudo ficou rodando. O chão do Pronto Socorro já estava todo ensangüentado. E a maca onde eu estava deitado também.
Leandro, o médico residente, foi categórico:
- O corte pegou uma artéria. Por isso sangra tanto. Mas fique tranqüilo que vai ficar tudo bem.
Pedi água e um pouco de ar. Me deu vontade de vomitar. De fazer xixi e cocô. Não conseguia firmar a cabeça. E comecei a suar muito.
- É uma reação neurológica. Você vai molhar toda essa roupa de suor, disse o doutor.
Na seqüência me aplicou anestesia – Vai queimar um pouco, agüente aí – e fez um garrote no meu braço. Estancou o sangue e fez a sutura. Três pontos internos e cinco externos.
Já um pouco melhor, perguntei ao médico.
- Você sabe fazer sutura bem feitinho né? Não vou precisar fazer uma plástica na mão, vou?
- Se já está brincando é porque está melhor. Vai ficar quase imperceptível.
Claro que não fui mais tomar banho de piscina na casa do meu irmão. Caiu a ficha e me senti frágil. Pensei, putz grila, como isso foi ocorrer. Uma sensação de impotência. O efeito da anestesia começou a passar e a dor foi forte. Tomei alguns analgésicos, mas tinha uma dor maior que aqueles pontos. Uma sensação ruim de desamparo. Por alguns poucos segundos – olha o canceriano aí, gente – achei que fosse morrer. Felizmente sobrevivi a mais esta. Agora posso garantir uma coisa: é muito ruim, feio e triste perder sangue. Deus que me livre!
Publicado em 22 de dezembro de 2003 às 23:30 por joao
Na bioética a gente falava sobre uma coisa super bonita que é assumir a nossa vulnerabilidade. Acho que tem muito a ver com isso que vc postou hoje. Não há nada de errado e nem de fraco assumir as franquezas, vulnerabilidades. Somos todos assim, suscetíveis aos mais diversos percalços da vida.
Uia! O que não faz The Grinch na cabeça??!
Beijos e te ligo para o Feliz Natal, ok?