TÊMPERA, o blog do João Bernardo

A insustentável leveza do ser

Em primeiro lugar gostaria de dizer que eu continuo bem. Feliz, sobretudo e sobre todas as coisas. E não pense você que isso é uma máscara. Esse bem estar era algo que eu procurava havia muito tempo. Mas é que me aconteceu algo muito chato.


Sábado liguei para minha cunhada Raquel. Queria ir tomar sol na casa dela. Tava um calor de rachar mamona por aqui. Ela disse que tudo bem. Coloquei roupa apropriada, terminei de postar o penúltimo texto. Fui fechar as janelas. O vitrô da cozinha me pregou uma peça.


Como sempre acontecia desde que foi instalado, o tal resolveu emperrar. E como sempre fazíamos, por ensinamento do meu pai, dei uma pancadinha na grade pra forçar a abertura. Não resolveu. Coloquei um pouco mais de força e zaz! Gritei C-A-R-Á-L-E-O! E me dei conta que havia me cortado.


O sangue jorrava solto. Nos azulejos, nos armários, no chão, na mesa. Corri pro banheiro. Joguei água e percebi que o corte era mais profundo que eu imaginara. E saía sangue, muito sangue. Insisti mais um pouco, fui tentando fazer parar o sangramento. Não adiantou. Me deu um certo pânico.


Corri pra área de serviço pegar alguns panos para ajudar a controlar o sangue. Não adiantou. Em poucos segundos, a camiseta velha estava toda ensopada. Aí olhei pros lados e vi o tamanho do estrago. Tudo manchado de vermelho. E dá-lhe sangue. E mais, e mais. A esta altura, o pânico aumentava. Me dei conta que deveria ir para algum posto de saúde ou hospital. Mas, pare! Tenho que limpar antes essa sujeira toda. Imagine a dona Alice chegar, ver o vidro quebrado, sangue por todo o lado, eu fora de casa. Sabe o que mãe pensa neste momento, né?


Pois é. Enrolei mais e mais panos na mão. Limpei todo o sangue que havia dentro da cozinha, banheiro, copa, área de serviço. Peguei o carro e fui pro hospital. Dentro do carro, os panos já estavam ensopados também. O sangue começava a pingar no tapete do carro. Achei que fosse desmaiar. Já tinham passado mais de 15 minutos desde o momento do corte.


No hospital ainda chequei se atendiam pelo meu plano de saúde. O médico, felizmente, estava desocupado. E me atendeu de pronto. Bastou sentar na maca para a pressão cair. Tudo ficou rodando. O chão do Pronto Socorro já estava todo ensangüentado. E a maca onde eu estava deitado também.


Leandro, o médico residente, foi categórico:

- O corte pegou uma artéria. Por isso sangra tanto. Mas fique tranqüilo que vai ficar tudo bem.

Pedi água e um pouco de ar. Me deu vontade de vomitar. De fazer xixi e cocô. Não conseguia firmar a cabeça. E comecei a suar muito.

- É uma reação neurológica. Você vai molhar toda essa roupa de suor, disse o doutor.

Na seqüência me aplicou anestesia – Vai queimar um pouco, agüente aí – e fez um garrote no meu braço. Estancou o sangue e fez a sutura. Três pontos internos e cinco externos.


Já um pouco melhor, perguntei ao médico.

- Você sabe fazer sutura bem feitinho né? Não vou precisar fazer uma plástica na mão, vou?

- Se já está brincando é porque está melhor. Vai ficar quase imperceptível.


Claro que não fui mais tomar banho de piscina na casa do meu irmão. Caiu a ficha e me senti frágil. Pensei, putz grila, como isso foi ocorrer. Uma sensação de impotência. O efeito da anestesia começou a passar e a dor foi forte. Tomei alguns analgésicos, mas tinha uma dor maior que aqueles pontos. Uma sensação ruim de desamparo. Por alguns poucos segundos – olha o canceriano aí, gente – achei que fosse morrer. Felizmente sobrevivi a mais esta. Agora posso garantir uma coisa: é muito ruim, feio e triste perder sangue. Deus que me livre!

Publicado em 22 de dezembro de 2003 às 23:30 por joao

Comentários

    • Amoreco
      Na bioética a gente falava sobre uma coisa super bonita que é assumir a nossa vulnerabilidade. Acho que tem muito a ver com isso que vc postou hoje. Não há nada de errado e nem de fraco assumir as franquezas, vulnerabilidades. Somos todos assim, suscetíveis aos mais diversos percalços da vida.
      Uia! O que não faz The Grinch na cabeça??!
      Beijos e te ligo para o Feliz Natal, ok?
    • por Janaína, a Ávila
    • 22.Dez.2003 às 23:50 - Permalink - Reportar
    Janaína, a Ávila
    • ai, Edi, que horror! ainda bem que está td bem. dá uma sensação ruim imaginar esses momentos. desejo que sua mão cicatrize logo (sem marcas - hehehe). beijinhos
    • por Patty
    • 23.Dez.2003 às 00:08 - Permalink - Reportar
    Patty
    • as toalhas de rosto são excelentes companheiras numa hora dessas. e a mãe da gente nem vai reclamar das manchas de sangue nelas. ;)
    • por zero
    • 23.Dez.2003 às 00:43 - Permalink - Reportar
    zero
    • E ai ede, vc tem que me passar o endereco desse medico, pois eu ja estou parecendo o Frankstain, com tantas cicatrizes no rosto... E pra ser sincero ja estou ate me acostumando com a situacao, ( nao sei se vc fez exame medico pela faculdade esse mes, mas o medico ja olhou para minha cara e falou. - Vc pensa que todo jornalista é louco? nao tem nada haver é epiletico.)
    • por stillo
    • 23.Dez.2003 às 08:42 - Permalink - Reportar
    stillo
    • Ed,
      Graças a Deus já está tudo bem, né?
      Um Feliz Natal pra vc, aproveita bastante a sua família, os amigos que estão na terra vermelha e desejo um 2004 cheio de coisas boas, como amor, amizade, dinheiro no bolso e tudo mais.
      Beijão
    • por Deni,
    • 23.Dez.2003 às 13:44 - Permalink - Reportar
    Deni,
    • eu, como mulher, sei bem o quanto a sua frase final tem efeito. saudações.
    • por keri
    • 23.Dez.2003 às 15:43 - Permalink - Reportar
    keri
    • Que susto, hein? Que bom que terminou bem... Abraços!
    • por kenji
    • 23.Dez.2003 às 18:50 - Permalink - Reportar
    kenji
    • Eu pisei num copo, em 95. 10 pontos no pé. uma droga, mesmo. era bem essa a sensação de desespero, com aquele sangue saindo...
    • por Ferreto
    • 24.Dez.2003 às 01:46 - Permalink - Reportar
    Ferreto
    • Ferreto,
      Também tive a insensatez de pisar num resto de garrafa térmica quebrada. E dá-lhe sangue. Sabe que estive lembrando: tenho tantos cortes quanto as vezes que ganhei prêmios em sorteios e rifas. Vade retro!!!!
    • por Edenilson
    • 24.Dez.2003 às 08:22 - Permalink - Reportar
    Edenilson
    • Fique feliz!
      Pelo menos você pode contar as experiências que teve com seus cortes. Pense bem. Imagine se fosse como eu que sempre quis ter algum machucado grave, tipo quebrar a perna ou o braço, sabe para ficar com aquele negócio duro para todos os coleguinhas assinarem com canetinhas de cores diferentes... Lembra? Então eu sempre quis , mas, nunca me ocorreu um acidente para que eu possa hoje contar para alguém. Isso te deixa orgulhoso de você mesmo?Hehehehehehehe...
      O BOM MESMO É QUE VC ESTÁ BEM!
    • por Thaís Souza
    • 25.Dez.2003 às 01:44 - Permalink - Reportar
    Thaís Souza
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