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This is the archive for October 2003

Wednesday, October 22, 2003

As escadas do terminal de ônibus pareciam intermináveis e Luzia estava esbaforida. Não só pela corrida contra o tempo, mas também por aquele nó no peito. Aquela dona de casa de mãos calejadas tentou evitar o quanto pode, momento tão difícil. Quase perto de sentir os calores insuportáveis que toda mulher enfrenta, descobriu sim, àquela altura, que o coração ainda lhe reservava algumas surpresas muito agradáveis. E por isso corria. Muito.

Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga.


Precisava chegar logo à plataforma. Mesmo desconfiando que as horas seriam as últimas. Viu-se numa cena de cinema, perdida entre tanta gente. Estranhos observavam o olhar ansioso, às vezes perdido. Com um discreto vestido florido, não sabia onde colocar as mãos. Freqüentadora assídua daquela estação, perdeu-se entre tantas placas e números. Não ouvia nada e quase foi atropelada por um carrinho de malas.

Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no elipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.


Na escada rolante, avistou Alfredo. Sorriu, apertou as mãos, torceu pra que ele a percebesse. Emocionada, conseguiu enviar energias. Que ele recebeu e reconheceu, olhando pra ela com alegria. Mesmo longe, Luzia percebeu os olhos dele marejados, o peito estufado de uma mistura de alegria, dor e desalento.

Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama.


Colocou a mão no rosto, quase em desespero. Reviu cenas daquela paixão. Do encontro casual na feira, a ajuda com as sacolas, um café no meio de uma quinta-feira de sol, sexo com entrega, paixão e ternura numa segunda, com sol a pino. Meu Deus, pensou, como ele me faz feliz. Por que demorei tanto tempo pra encontrá-lo?

- Pensei que não viesse mais.
- Foi meu marido. Não saía nunca. Me deu até desespero.
- Que bom, que bom você aqui.
- Quanta coisa maluca eu estou fazendo.
- Eu te amo.
- Nunca imaginei que eu fosse capaz.
- Eu te amo.
- Uma aventura assim, uma mulher da minha idade, quase esperando a morte chegar.
- Não. Não diga isso nunca. Você é muito nova.
- Você me deixa atordoada, sem rumo.

Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo.


Alfredo beija-lhe docemente. Segura o rosto dela com carinho e receio. As lágrimas escorrem pela face dos dois.

- Como vai ser agora?
- Você está seguindo a sua vida. Eu vou seguir a minha. Com o meu marido, meus filhos, minha netinha.
- Você vai me esquecer?
- Nunca, isso nunca.
- Por que tem que ser assim?
- Porque não tinha outro jeito. Você assim, tão gentil, tão carinhoso, tão atento. Eu não merecia tanto.
- Merecia sim. Merecia muito mais. Muito mais que o mundo, que a vida.
- Palavras doces na hora da partida...
- Palavras que você deveria ouvir todos os dias. Eu te amo.
- Eu também meu amor, minha loucura. Você é meu desatino.
- Me abrace...

Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.  AS SEM RAZÕES DO AMOR, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


A plataforma ficou pequena. A multidão envolta nada entendia, mas estava encantada com a cena. O casal ali, abraçado, trocando beijos e carícias ternas, nada tinha mais importância. O motorista faz a última chamada. Eles demoram a se afastar. Não dizem nada, apenas choram. Luzia soluça, Alfredo esconde levemente o rosto. Choram até ele entrar no ônibus. Da janela, faz acenos, manda beijos. Os olhos pedem pra ficar juntos. Pra sempre. Mas o ronco do motor foi implacável e, aos poucos, foram se afastando. Luzia espera até não poder mais avistá-lo. E vai pra casa agradecendo a Deus pois, apesar da perda, ele tinha lhe proporcionado as melhores emoções daquela vida vulgar e vazia. Sorriu, então, de contentamento.

Wednesday, October 15, 2003

Cena I
- O que você vai fazer hoje às três da tarde?
- Bem, estava pensando em passar na sua casa e trepar com você.
- Ótimo. Estou precisando.

Cena II
- O que você quer comigo?
- Bem, a essa hora? Sexo ou drogas.
- Fala sério.
- Claro que falo. Eu não curto drogas.

Cena III
- Isso é um assalto?
- Claro que não.
- Então por que me parou aqui?
- Porque eu quero chupar o seu pau. Pode ser?

Cena IV
- Você sabe como eu faço pra chegar à avenida Duque de Caxias?
- Sim. Vá direto até a Guaporé. Depois sobe até cruzar a Leste-Oeste. Vira à esquerda. Passa o Terminal, o Museu, a Supercreche, o Pai e pronto. Estará na Duque.
- Ok. Obrigado. E mais uma coisa. Pra trepar com você é mais fácil que chegar lá?

Cena V
- Tem fogo aí?
- Infelizmente não. Mas tenho algo tão prazeroso quanto.
- O que?
- Cerveja.
- Aí, no carro?
- Não, lá em casa.
- Puxa... e eu estou com uma sede.
- Siga-me então.

Cena VI
- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Eu gostaria de saber como a gente faz pra trepar com você?
- Na sua casa ou na minha?

Cena VII
- Há quanto tempo!
- Pois é. Uns quatro, cinco anos.
- É verdade. A gente tem uma pendência.
- Temos? Qual?
- Uma trepada.
- Ah é? Eu não sabia.
- Sim. Eu preciso comer você. E vai ser hoje. Estou indo embora. Vou deixar o porteiro avisado e a porta aberta. Chegue, tire a roupa e puxe a coberta.

Cena VIII
- Pode me dar uma carona?
- Claro.
- Obrigado. Estou morta. Está vendo aquele grupinho de rapazes ali?
- Sim.
- Eu dei pra todos eles. Fizeram rodinha, eu fiquei no meio, agachada. Dei pra todos. Estou acabada.
- Parabéns.

Cena IX
- Tenho uma fantasia com você.
- Qual?
- Queria gozar na sua boca. Você deixa?
- Claro.

Cena X
- O que você quer fazer comigo.
- Primeiro te beijar.
- E depois?
- Morder o seu peito.
- E?
- Beijar sua barriga.
- E depois?
- Cheirar sua axila.

Sunday, October 12, 2003

Quando vi minha mãe preparando o almoço hoje, minha idéia de ir a um restaurante foi por água abaixo. Ela lembrou que um dos meus irmãos viria pra casa, o que só aumentou minha decepção. Almoçamos o famoso frango caipira que só a Dona Alice sabe fazer. Ato contínuo, minha sobrinha, a Jéssica, quis passear na chácara e conhecer Bingo, o cachorro mais feio do planeta, que a gente conseguiu há poucos dias.

Fui com ela e uma surpresa adorável: cana caiana. Não acreditava no que estava vendo. Apesar de estar em Rolândia há dois meses, ainda não tinha dado uma volta inteira na propriedade. Corri buscar uma faca. E fiz com a Jéssica exatamente como meu pai fazia comigo.

Era muito prazeroso ver o ritual dele com a cana.
- Corte primeiro essa parte de cima para não espetar sua mão.
Depois, ele ia descascando a tal, com a faca firme na mão.
Embora me ensinasse, durante muitos anos, era ele quem fazia todo o serviço. Eu ficava ali olhando, sentado, esperando ele terminar. De vez em quando, uma bronca:
- Não fique na frente. Posso acertar a faca em você!
Antes de me dar o primeiro pedaço, cortado em quatro gomos, ele experimentava:
- Pode chupar. Tá molinha e bem doce.

E ficava ali comigo até a cana acabar. Dava dois pedaços pra mim, vários pra ele. Quando acaba, íamos os dois lavar as mãos. Assim foram bons dias da minha infância querida.
Repeti tudo isso com minhas sobrinhas – a Jaqueline, irmã da Jéssica também veio -, meu irmão, minha cunhada. Minha mãe não participou do convescote por causa da dentadura.

Quando foram embora, voltei pra chácara. Ali revivi momentos muito felizes. Eu e meus sobrinhos, alguns amigos como o Ezequias, o Liu (de Elias), o José Luiz (morto num acidente de carro), o Rubinho (que eu deixei pingar plástico queimado no pé dele, de propósito – fato que a mãe dele nunca perdoou e nunca mais deixou a gente brincar juntos) criamos milhares de fazendinhas. Fazíamos as cercas, poço d’água, gado (com abacates e palitos de fósforo), estradinha para os carrinhos. No meio da tarde, subíamos numa árvore. Podia ser de ameixa, abacate, goiaba, jabuticaba. Era dali mesmo, com as mãos sempre muito sujas, que surgia o lanche.

Também foi na chácara o meu primeiro contato com o sexo.

Ali, eu, o Keno, o Juliano, o Marquinhos e o Jaldeir, improvisamos uma quadra de vôlei, na terra vermelha mesmo. A rede era feita com sacos de batatas, amarrada no pé de jaca e num outro pau. Encerradas as partidas, pausa pra devorarmos algumas mixiricas, caquis e outras frutas.

Na chácara, certa vez, me vi num embate com um pintinho. Ele havia escapado do galinheiro. E corri atrás dele até perder o fôlego. Foi vã a tentativa de pegá-lo. Minha esperteza infantil aflorou quando vi um pedaço de cano. Pensei em dar uma leve batidinha nele, apenas pra retardá-lo. Claro que não sobrou nem pena do coitadinho. E assim, aos seis anos, cometi o único assassinato da minha vida.

Meu pai, o seo João, era um homem muito caprichoso. Tudo que você imaginar, tinha na nossa chácara. Duvida? Além de café, laranja, limão, poncã, mixirica (todos os tipos que você imaginar), caqui (mole e chocolate – hehehehe), jabuticaba, fruta do conde, ariticum (nem sei se é assim que escreve), jaca – isso mesmo – ameixa, mamão, nectarina, manga (todos os tipos), goiaba, cana caiana, galinhas, cachorro. Até plantação de melancia. Nas temporadas, milho, abóbora, moranga, mandioca, feijão - no carreador do café -, tomate, abacaxi. Volta e meia ele pegava a enxada e me ensinava como tirar algumas pragas. Ocupava todos nós (sou o caçula de oito irmãos, hoje dois deles já falecidos) com pequenas tarefas. Era um prazer diário.

Hoje pude entender a razão de sempre voltar correndo da escola. Chegava em casa, pedia mamadeira – sim, eu mamei até quase os nove anos de idade – e depois saia disparado, pés descalços, para brincar na terra. Aproveitei o domingo pra rever um programa especial que a Raquel Rodrigues fez sobre o café. Produzido por mim, achei no meu pai e na minha mãe, os personagens perfeitos para aquela trajetória da cafeicultura. Em 71 anos de vida, meu pai nunca comprou um quilo de café industrializado. O que bebíamos em casa era plantado, colhido, torrado e moído por algum de nós. E quando saíamos em viagem, esse era um dos presentes que o seo João levava aos amigos. Tudo isso num dia como hoje, dia das crianças. Que só me dei conta quando fui salvar o texto.



Friday, October 10, 2003

Passear pelas ruas de Rolândia é quase sempre uma aventura.
Primeiro porque lei de trânsito não existe aqui. Segundo porque deve ser a maior concentração de bicicleta por metro quadrado do planeta. E isso, mesmo depois das 23 horas, quando estou voltando da faculdade em Londrina. São as trocas de turno das fábricas. E eles tomam conta de tudo, assim como fazem os caminhoneiros e taxistas.
O Beto aqui precisaria de um rifle.

Mas as bicicletas me fizeram lembrar uma ocorrência com o Keno, em 1985. Ele é um dos meus amigos de infância, que citei em outro post. Eu, ele, o Juliano, o Marcos e o Jaldeir aprontávamos todas com as duas rodas. Naquele ano, eu precisei engessar a perna pela primeira vez por conta de uma entorse no joelho e comprometimento do menisco. Durante alguns dias, meu pai me levou de carro até o Colégio Souza Naves. E sempre dava carona pro Juliano e Keno, vizinhos meus e companheiros de todos os dias. Por uma implicância idiota e sem explicação, naquela quinta-feira meu pai não quis levar os dois.
- Só vou levar você. Aqueles dois malandros que se virem.

Colégio Souza Naves, onde o Keno levou um baita de um zero por estar colando na prova de geografia. Uma grande prova de amizade dele por mim....


Do alto dos meus 15 anos, disse ao meu pai que se os meus amigos não podiam ir comigo, eu não queria que ele me levasse. E iria com eles. De bicicleta. E fui mesmo, para espanto do meu pai. Imagine a função que foi pedalar apenas com uma perna, a outra dura, inteira engessada. Nesse dia, o Juliano foi do trabalho direto para o Colégio porque tínhamos prova de geografia na primeira aula. E a professora Makiko, não tinha nada da paciência oriental. Era uma as mais nervosas. Borrávamos a calça de medo dela.

Eis que no meio do caminho, furou um dos pneus da minha bicicleta. Desespero meu e do Keno. Deixamos a fulana num posto e... o Keno me colocou na garupa dele. O problema é que por conta do gesso, não dava pra eu ficar lá. O pé relava no chão. Ele não teve dúvida. Fez eu sentar no selim e foi empurrando a bike comigo em cima. Até o colégio. Chegamos lá, ele molhado de suor, soltando os bofes e eu eu mancando feito uma besta. A professora deu um esporro daquele, nem aí para os problemas que tínhamos enfrentado.

Começamos a prova e... alguns minutos depois, a Makiko berrou com o Keno. Ele estava colando. Ela pegou o papel com as anotações – ele não pudera estudar o dia todo – e desenhou um zero na prova. Foi o pior dia da minha vida naquele ano. Senti toda a culpa do mundo. Mas nunca esqueci o gesto do meu amigo.

Eu conheci o Keno – na verdade, Valdeir da Silva Ramos. O apelido é uma corruptela de Pequeno por ele ser, naquela época, bem franzino – ainda no jardim da infância. Depois voltamos a estudar juntos na sétima série. De nós três, ele tinha mais dificuldades financeiras. Os pais eram separados – naquela época, ainda um horror – e ele se virava como podia. Era o único da turma que trabalhava na Guarda Mirim à tarde. A gente só estudava.

Safo, era bom pra dançar, pros esportes em geral, coisa que eu e o Juliano não tínhamos tanta facilidade. Quando comecei a trabalhar no Banco do Brasil, logo depois surgiu outra contratação para office boy. Ajudei-o a estudar, pois sabia o conteúdo das provas. Graças a Deus ele passou no concurso.
Logo que começou fez um juramento:
- Vou construir uma casa nova pra minha mãe.

Na agência do Banco do Brasil, eu e o Keno trabalhamos juntos de 1985 a 1988. Depois ele saiu e eu ainda continui nessa agência por mais três anos, quando fui transferido pra Londrina. Eu estava no último ano do curso de jornalismo na UEL.


Era impossível não admirar a determinação dele. Não precisa nem frisar que ele conseguiu. Dona Andrelina, a mãe, fala disso até hoje com a boca e o coração cheios de orgulho. Nos finais de semana, ele trabalhava de garçom na lanchonete Holandesa. Acabou dando um jeito de arrumar uma vaga pro Juliano e pra mim. Sexta, sábado e domingo à noite estávamos lá... O dinheiro extra servia pra irmos passear em Londrina, principalmente boates e danceterias, pagar curso de inglês, comprar aparelho de som, viajar pra praia.

No fim do segundo grau, cada um foi fazer um curso diferente. Eu, jornalismo, o Juliano, Física e o Keno, Educação Física. Depois eu me mudei pra Londrina, o Juliano pra Curitiba e o Keno, Paranatinga (MT) e depois Maringá. Hoje ele está em uma cidade vizinha a Boston, nos EUA. Casou com uma portuguesa, tem um filho, o Leonardo, que eu ainda não conheço.

No meio desse ano, toca o celular lá na RPC em Curitiba. Era ele. Faz uns cinco anos que ele foi embora e nunca mais nos vimos. Mas volta e meia faz uma surpresa como essa. E a sensação é que a gente continua vizinho, trocando confidências, sonhando com uma vida e um mundo melhores. Daria pra escrever um livro contando as nossas peripécias. Mas o lance da carona de bicicleta pra mim é uma prova de que amigos são pra toda vida. Como disse ao Clecio, ontem, eu sou privilegiado e muito rico. Tenho amigos, como o Keno, que valem um tesouro.

Tuesday, October 07, 2003

- Me beije!
- Claro, sempre que você quiser.
- Não, assim não.
- Oras, de que jeito você quer?
- Quero um beijo com a alma.
- Nossa!
- Daquele que tira a gente do chão, mexe com todo o corpo, faz a cabeça girar, deixa uma sensação de zonzeira, de embriaguez.
- Não sei se sou capaz.
- É sim, tenha fé. Abra a boca bem de devagar e vá me beijando lentamente. Sinta meus lábios. Ofereça sua alma. É mais que um simples toque, entende?
- Falando assim fica tudo muito complicado. Não é mais simples só beijar e pronto?
- Não, assim não. Eu quero mais.
- Você é muito exigente.
- Não seu bobo. Eu quero ser sua por inteiro. Eu não quero parar nunca de te beijar.
- Eu também não. Mas não gosto desse peso. Pra mim, beijo é beijo e só. Nada além disso.
- Mas é muito mais. Mais que tudo. Mais que qualquer intimidade. Quando você me beija, eu te aceito. E quando eu te beijo, você me aceita. É só por ele que a gente vira um. O resto é bobagem.

Cale a boca e me beije. Talvez bebamos juntos, talvez façamos amor. Talvez. O meu mais esperançoso talvez.

Monday, October 06, 2003

- Pústula!
- Peraí. Olhe o jeito que você fala comigo.
- Um grande filho da puta. É isso que você é.
- Posso saber a razão desse palavreado chulo?
- Sim. Você é um verme escroto, lazarento, desgraçado e filho da puta.
- E por que a razão desta fúria?
- Simplesmente porque eu estou cansado de olhar nessa tua cara feia, não suporto mais perceber o quanto você é vazio, fútil, babaca, idiota. E mais: burro, três vezes burro.
- Obviamente que falar tudo isso está fazendo um bem enorme para esse teu ego de elefante, né?
- Ego de elefante o caralho! Eu não suporto mais ver você arrotando falsa inteligência, querendo ser ignóbil apenas pra clamar piedade.
- Ignóbil? Clamando piedade? Ora, não me faça gargalhar. Andou decorando o dicionário hoje? Você é idiota. Idiota que se incomoda com a sua própria impotência.
- Impotência com o que? Já não lhe disseram que eu posso tudo. Sim, tudo.
- Você não pode nada. Vive se escondendo atrás dessa força de mentira. Tudo pra disfarçar o inevitável: a sua mais completa e vazia solidão. É isso. Desça do pedestal e perceba o fato real, concreto. O gelo cruel da solidão.

Friday, October 03, 2003

A Raquel foi um dos presentes que a TV Cidade me deu. Quando comecei a trabalhar na pauta, isso no dia primeiro de janeiro de 1993 – posse do Luis Eduardo Cheida – ela estava em férias. Nosso primeiro encontro foi em fevereiro. Empatia total e à primeira vista.
Aos poucos fomos construindo nossa amizade. Depois daquele contrato temporário – eu cobri a licença-maternidade da Phoenix Finardi – só retornei definitivamente no ano seguinte. E lá passei sete anos da minha vida. Com a Raquel, fiz os meus melhores trabalhos.

Além da afinidade pessoal, também temos as mesmas crenças profissionais. Ganhamos algum dinheiro juntos fazendo frilas pra algumas empresas. Mas isso talvez seja a coisa menos importante.
Eu e a Raquel nos amamos. E isso sim é que conta.

Ela faz parte da família que eu escolhi ter. Não aquela em que nasci. A vida me trouxe essa grande amiga, parceira da caminhada, às vezes feliz, às vezes turbulenta, mas sempre vivida com intensidade. Dividimos tudo: algumas tristezas, muitas alegrias. Hoje é aniversário dela. E como eu acho lindo fazer post homenageando pessoas queridas – adorei o que o Beto fez pra mim, o que ele fez pra Isabela, o que o James fez pra amiga dele – faço questão de registrar aqui meu apreço, meu afeto, meu carinho.

A Maria Raquel Rodrigues é uma das melhores pessoas que eu conheço. Dedicada em tudo. Sobretudo com os amigos. Tem o coração do tamanho do universo. Acolhe todo mundo, às vezes até quem não merece. A isso chamo generosidade. E alguém conhece característica mais humana do que essa? Eu não. Hoje, numa época em todo mundo quer se dar bem, gente como a Raquel é raro.

Plagiando o Beto, digo que tenho o maior orgulho de ser seu amigo. De fazer parte da sua vida e receber esse amor e carinho tão grandes, que você me dedica. Às vezes nem sei se mereço. Mas sou grato por tê-lo. Toda a felicidade do mundo pra você, libriana. Você merece!

Este feioso aqui disse que precisa ter uma longa conversa de pé de ouvido com você. Ligue já que ele está esperando.

Thursday, October 02, 2003

O braço de André estava doendo. Uma dor bem dolorida, que começava atrás do ombro e descia até a ponta do dedo anular. Ele já se via maduro, homem feito, com muitas experiências acumuladas. Recordava-se com carinho de muitos bons momentos. Conseguia chorar ouvindo Rod Stewart. Depois de um tempo de muito trabalho e dedicação, agora se sentia só. Muito só, vazio, sem nada. Ouviu outra música, agora da Wanderléa. Sem saber explicar, até a musa da jovem guarda provocou alguma coisa dentro dele.

Quero ver você não chorar, não olhar pra trás nem se arrepender do que faz. Quero ver o amor vencer, mas se a dor nascer, você resistir e sorrir.


André estava sozinho. Quando entrou em casa, foi logo fechando as cortinas. Não queria, não podia, não sabia se devia olhar o sol. Tinha uma irritação latente. Algo que comichava, queria explodir. O peito pesava feito uma bigorna. Ele estava sem paz.
Passeou por outros mundos, desejou fumar maconha, cheirar cocaína, trepar. Qualquer coisa que lhe clareasse o coração. Naquele momento, porém, nada disso seria possível.



O jeito mesmo era olhar em volta e perceber-se, de novo, completamente só. E que não adiantaria de nada gritar, espernear. A vida é solidão. Cada experiência é única, individual. Ninguém sonha por ninguém, ninguém experimenta por ninguém, ninguém cai por ninguém. Não se ama pelo outro, não se odeia em nome de alguém. Faz-se tudo sozinho. Portanto, André teria que se suportar mesmo. No máximo, com muita boa vontade, encontraria alguns gestos de solidariedade aqui e acolá.



Na essência, André, continuava muito só. Por razões inexplicáveis, não se via triste. Sabia que lá fundo encontraria um jeito de bastar-se a si mesmo. Então sorriu, abriu a cortina e continuou vivendo. E acreditando que no momento seguinte, haveria sim de encontrar um pouco de paz. Quem sabe até a felicidade.

Wednesday, October 01, 2003

- Eu preciso conversar com você.
- Algum problema?
- Não, apenas vontade de falar com o meu amor.
- Nossa! Assim eu me emociono.
- Mas é mesmo para se emocionar.
- Fale então.
- Hoje eu fiquei pensando em nós dois.
- E?
- Você sabe há quanto tempo estamos juntos?
- Sei lá, uns 26, 27 anos?
- Não. Vinte e oito anos e três meses.
- Eu deveria lembrar de algo especial hoje?
- Não, nada. Eu lembrei e fiquei contando.
- Chegou a alguma conclusão?
- Sim.
- Qual?
- Que nesse tempo todo, eu fui muito feliz. Aliás, eu sou muito feliz ao seu lado.
- Nossa!
- A gente passou por tanta coisa junto. Faltou grana várias vezes, a própria relação sofreu alguns abalos, tivemos crises. Mas o saldo disso tudo é que eu sou muito feliz com você.
- Por que essa declaração de amor assim, de repente?
- Porque eu amo você. É isso. Eu te amo.
- Estou boba!
- Achei que era importante dizer, falar, assim, olhando pra você. Não sei o que seria de mim se a gente não tivesse se conhecido. Se naquele dia você não tivesse me olhado e aceito meu galanteio. Não dá pra imaginar nada sem você.
- Você nunca falou isso antes.
- Agora estou dizendo. De tudo que me faltou, ainda bem que você esteve sempre comigo, sempre presente. Certamente seria mais difícil e muito mais complicado. Acho até que eu poderia ficar sem qualquer outra coisa. Menos sem você. Às vezes eu penso que até sem ar eu poderia viver. Sem você não.
- Eu amo você.
- Eu também te amo. Muito. Não se esqueça disso nunca.

Jurei te pertencer por toda a vida. Guardar a sete chaves nosso amor. A chave era só uma e foi perdida .