página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de TÊMPERA, o blog do João Bernardo: RSS - Assine os feeds deste blog

Skip to main content.

Archives

This is the archive for September 2003

Tuesday, September 30, 2003

Por onde passava, Amanda deixava todos de queixo caído. Tinha aquele ar de quem dorme de baby doll e usa água de cheiro bem suave para acariciar a pele. Na escola, era a mais simpática, enturmada, amiga dos meninos. Fazia charme sem ser vulgar, conquistava com gestos espontâneos e um sorriso pra lá de cativante.

Não havia quem não lembrasse dela, agora perto de completar 20, estudante de fisioterapia. Conservava o frescor e a leveza da menina bonita, cabelos compridos e encaracolados. Namorava Igor, colega de turma na faculdade. Formavam um belo casal, trocavam beijos ternos e passavam a sensação de eterna cumplicidade. Quem olhava pra eles sabia que os dois tinham intimidade. Muita, aliás.

A família de Amanda acolheu o rapaz como se fosse um filho. Dona Alice, a mãe, era toda gentileza sempre que o bonitão aparecia. Paulo, o pai, fazia comentários soltos sobre o futebol, a crise econômica, um pouco de política. Aprovavam o romance.

O dia do aniversário estava próximo e Alice resolveu fazer uma surpresa para a filha. Nem passou pela cabeça dela avisar Igor porque ele poderia cometer um ato falho e dar com a língua nos dentes. Combinou tudo com as amigas, com os avós, tios e primos mais próximos. Estavam numa euforia só. Amanda não desconfiou porque ainda faltavam dez dias para a data exata.

O grande dia chegou e dona Alice deu o recado:
- Filha eu e seu pai estamos indo ao cinema. Deixei um bolo no forno assando. Daqui uma hora você vai lá e desliga. Ok?
- Claro mãe. Pode ir tranqüila.

Os pais ainda não tinham deixado a garagem e Amanda estava ao telefone com Igor.
- Meus pais acabaram de ir ao cinema. Temos umas duas horas pra ficarmos juntos.

Meu bem você me dá, água na boca. Vestindo fantasias, tirando a roupa. Molhada de suor, de tanto a gente se beijar. De tanto imaginar loucuras.


Igor não pensou duas vezes, já que morava numa república com outros três amigos e ficar a sós com Amanda era muito raro já que a grana era curta para o motel.
Os beijos carinhosos começaram ainda na porta e o clima esquentou rapidíssimo. Transaram com muito desejo. As mãos percorriam o corpo um do outro com determinação, com vontade. Os lábios se encontravam com freqüência e eles não tinham pudor algum de se entregar àquela paixão. Gozaram como nunca.

A gente faz amor por telepatia, no chão, no mar, na lua. Na melodia. Mania de você, de tanto a gente se beijar. De tanto imaginar loucuras.


Estavam descansando quando Amanda deu um sobressalto:
- Caraca! Esqueci o bolo.
- Que bolo?
- O bolo que minha mãe deixou assando. Vou lá desligar o forno.
- Eu vou com você.

Com o calor daquele verão e certos de que poderiam curtir mais alguns momentos juntos, foram pelados à cozinha. No corredor, ainda trocaram mais alguns beijos.
- Pára, Igor... Olha o bolo....

Nada melhor do que não fazer nada. Só pra deitar e rolar com você.


Ele parecia incansável. Um beijo aqui, outro ali, agora já estavam na sala. Amanda gostava do clima. As luzes estavam apagadas e eles não se desgrudaram até chegar à cozinha. Amanda nem reparou se já havia dado uma hora. Tentou se desvencilhar de Igor para conseguir acender a luz. Feito isso, começou o coro:
- Parabéns pra você...Nesta...

A família, os amigos, os avós, tios e primos não conseguiram entoar a música. Os dois estavam pelados, Igor excitado, e todo mundo olhando.
- Mãe!
Foi tudo o que Amanda conseguiu dizer.

Sunday, September 28, 2003

Era madrugada de sexta-feira, eu acabara de chegar do último dia do Catuaí Collection. Cansado, mas ainda excitado com tanta correria, liguei o vídeo pra ver o capítulo de Mulheres Apaixonadas que eu deixara gravando. Terminei de ver as peripécias dos personagens de Maneco e o sono ainda não havia chegado. No fim da gravação, uma surpresa agradável e nostálgica: era uma fita muito antiga que tinha capítulos de Anos Dourados gravados. Comecei a assistir e fiquei completamente embriagado. Não só pela estória de Gilberto Braga, mas principalmente pelas ternas lembranças.

Numa breve viagem no tempo, voltei a 1986, quando o romance de Lurdinha e Marquinhos foi ao ar. O maior sucesso da Globo na história das minisséries. Recordo-me que no último capítulo, eu e meus colegas do segundo ano do curso técnico em contabilidade, pedimos à diretora do Colégio Souza Naves, em Rolândia, que nos dispensasse para que pudéssemos ver o desfecho.
Dona Mafalda, queridíssima, permitiu. Saímos em disparada no final da quarta aula. Assistimos à primeira parte na praça. Naquela época, em Rolândia, ainda havia uma televisão onde toda a comunidade parava para ver jogos, principalmente, filmes e, naquele dia, o último capítulo de Anos Dourados.

A minha geração sempre teve em Malu Mader uma musa. E foi nessa obra que ela se tornou a grande estrela que é até hoje. Aquela estória passada nos anos 50 mexia com a gente. Hoje entendo a razão claramente: vivíamos as mesmas angústias dos personagens. Estávamos às voltas com as primeiras paixões – a minha mesmo, ocorreu nessa época -, com a repressão dos pais, a vontade de abrir o coração, soltar a voz, fazer algo de útil. Tínhamos grandes sonhos, muita expectativa. No ano seguinte, 1987, realizamos o sonho de conhecer o Rio de Janeiro. Nunca uma turma de alunos tinha ido tão longe.

Não sei se eu ainda te esqueço de fato.No nosso retrato pareço tão linda. Te ligo ofegante e digo confusões no gravador.É desconcertante rever o grande amor.


Nossas mães ainda conseguiam impedir grandes peraltices. Eu, por exemplo, tinha que mentir para poder ir ao cinema, sair à noite, ir às brincadeiras dançantes nos clubes da cidade. Foi o período em que eu beijei a Telma, ao som de Heaven, do famosíssimo Brian Adams. Os amigos ficavam à espreita, observando, e depois tinha de contar tudinho, detalhe por detalhe. A primeira pergunta era: “pegou nos peitos?” A segunda: “ficou de pau duro?”

O que me encheu os olhos de lágrima ao rever Anos Dourados foi a amizade entre Claudionor, Urubu e Marcos, vividos por Antonio Calloni, Taumaturgo Ferreira e Felipe Camargo. No último capítulo, eles fazem pacto de amizade eterna e choram abraçados. Eu, o Keno e o Juliano éramos amigos inseparáveis. Como eles. Estudávamos juntos, trabalhávamos juntos, aprontávamos juntos. Vivemos algumas aventuras muito excitantes. Desde farras sexuais, até deixar a bicicleta para aproveitar a água da chuva e rolar na enxurrada.

O Juliano, por exemplo, me deu uma grande lição, anos antes, em 1983, na sétima série. A gente mal se falava na sala de aula. Naquela época eu ainda era franzino e fui rejeitado no time de basquete da cidade por conta do meu tamanho. Ele me viu cabisbaixo na saída da quadra e perguntou o que ocorrera. Estendeu-me a mão. Ao saber, não teve dúvidas: convidou-me a entrar no time de vôlei. Levou-me ao técnico, o professor Otoniel, carinhosamente chamado por todos de X.
- Professor, este aqui é o Edenilson. Ele é meu amigo e gostaria de treinar com a gente. O senhor deixa ele fazer parte do time?

Até então, éramos apenas conhecidos de turma. A partir daquele dia, ficamos amigos. Verdadeiros, pra sempre, até hoje. Dividíamos tudo. Os sonhos, as angústias, as dúvidas. Começamos a treinar musculação juntos. Um dava carona de bicicleta ao outro. Quando fui aprovado no curso de jornalismo na UEL, todos os dias ele me levava almoço no banco, já que não dava tempo de voltar pra casa. Construímos nossa amizade em bases muito sólidas: lealdade, companheirismo, confiança, cumplicidade.

Certo dia, o amor chegou e arrebatou o coração de Juliano. Um amor tão profundo, que ele conserva e mantém uma relação adorável até hoje. Mas houve o momento em que ele teve de decidir largar o curso de Física, também na UEL, e mudar-se pra Curitiba, em busca de uma nova vida e a possibilidade de amar em plenitude. Lembro até hoje o dia em que ele foi à minha casa para se despedir.

Ali a vida passou na nossa frente. Olhamos e relembramos cada bom momento. Nós nunca tivemos uma briga, uma desavença, um atrito. Amor fraterno, mesmo, integral. Choramos muito. Um misto de alegria e tristeza tomou conta da gente. Alegria porque ele iria lutar pelos seus sonhos. Tristeza porque a distância se tornaria real, concreta. Ali juramos, como o Urubu, Claudionor e Marcos, que seríamos amigos para sempre. E assim é até hoje.

Por isso chorei hoje à tarde. Não foi só por nostalgia. Foi pela certeza de rever o passado com o coração cheio de contentamento. Por ter tido o prazer e a alegria de dividir minha vida com gente tão especial. O Juliano, a Dona Mafalda, o Keno. Deles eu falo em outro momento. Hoje eu queria dividir essa história com vocês. Meu coração está feliz. Muito feliz.

Friday, September 19, 2003

José Carlos, o Zequinha, sempre andava com um sorriso enigmático no rosto. Parecia a Monalisa. Era um jovem que aparentava rara felicidade. Mesmo sendo um garçom. Na labuta noturna enfrentava os mais variados desaforos. Levava tudo na esportiva.

Morador de uma cidade pequena, muitos falavam de Zequinha. Na lanchonete todos sabiam das preferências sexuais dele. Bastante diferente para aqueles conservadores. Másculo e sem nenhum trejeito, praticava sexo anal. Gostava de sentir prazeres “fortes”. Determinados, de preferência. Volta e meia alguém fazia um gracejo ou outro e ele nunca se importava.

Eis que um dia ele se cansou de tudo e foi embora da cidade. Passou alguns anos fora. Para espanto dos freqüentadores da lanchonete, voltou sem avisar. Estava um pouco diferente. Nada chocante. Mais bem vestido, imponente com uma bolsa a tiracolo, o mesmo sorriso enigmático no rosto. Parecia estar em outra dimensão. Nem notou o tanto de gente que lotava o local.

No meio daquela multidão alguém o reconheceu. E não teve dúvidas:
- E aí veado, voltou?
Como numa cena de cinema, Zequinha virou-se lentamente para identificar de onde veio a voz. Burburinho geral, alguns risos amarelos no canto das bocas. O bolha falastrão ficou com cara de nada e foi percebido. Passos largos, o ex-garçom chegou até ele. Agarrou-lhe pelos colarinhos. Puxou-lhe com determinação e beijou-lhe a boca. Fez questão de roçar os lábios, forçou o outro abrir a boca.

Povo paralisado, silêncio geral. Um copo caiu e se estilhaçou no chão. Tudo parecia rodar. Terminado o beijo, Zequinha colocou-o de volta na cadeira. Sacou uma arma e apontou-a na cabeça do homem, agora branco, completamente pálido:
- Eu sou homem. Pra sentar no teu pau, beijar a tua boca e acabar com a tua vida.

É sempre melhor não duvidar da capacidade de reação das pessoas. (A obra é um óleo sobre tela, de 1946, pintada por Clóvis Graciano e faz parte do acervo do MAC São Paulo)

Sunday, September 14, 2003

Minha vida está no fim. Ou no começo, não sei. Depende como se olha...


As últimas gotas do café ralo terminavam de passar pelo coador e Roseli não conseguia mais conter o choro. Ela, uma mulher negra, feia e gorda, estava desanimada, sem esperança alguma. Perto de completar 40 anos – a aparência cansada lhe dava pelo menos mais dez – não sabia como conseguiria dinheiro para a compra do mês.

O marido, um pedreiro, fora embora quando ela teve o terceiro filho, hoje entrando na adolescência. Lutava com muita dificuldade limpando terrenos, fazendo faxinas, recolhendo material reciclado para vender.
Olhou no espelho comprado na banca da rodoviária e deu razão aos comentários maldosos de toda a vizinhança. O cabelo parecia mesmo um bombril usado, sem viço algum. Sentiu-se uma porca. Suja. E chorou ainda mais.

Estava dando um jeito na casa velha quando encontrou um papel, que parecia “um documento”. Ali estava a esperança. Ela tinha direito a receber o Pis naquele mês. Ainda era “sobra” do tempo que trabalhou de faxineira numa fábrica. Só não sabia a data para receber o benefício.
Calçou as havaianas encardidas e saiu amassando o barro. As solas dos pés estavam rachadas e doíam. Mas não desanimou.

Entrou na agência da Caixa Econômica Federal envergonhada de si mesma. Todos os atendentes estavam ocupados e havia muita fila. Identificou de longe o setor de informações. Foi até lá, mas “a moça saiu pra almoçar”, falou um funcionário, de longe, sem olhar na cara dela.
- O senhor pode só me dizer qual é a fila para eu pegar o Pis?
- Senhora, agora eu estou atendendo. Espere um pouco aí.

Sem opção, esperou. Esperou. Os minutos se passaram e Roseli começou a ficar irritada e impaciente. Tinha de fazer almoço para os filhos. Antes, porém, precisava passar no mercadinho. E ninguém lhe dava atenção.
- Escuta...
- Senhora, eu estou atendendo.
- Mas é só uma informação...
- Eu estou atendendo, a senhora não vê?
- Eu tenho que voltar pra casa, fazer o almoço...
- Eu também tenho muito trabalho aqui. Olhe o tanto de gente na fila. Tenha paciência.

Sentiu-se humilhada. Por um segundo, desistiu de tudo. Resolveu ir embora da agência onde existe um tal de cartão do cidadão. Próximo à porta giratória, olhou pra trás, como última esperança. O funcionário gargalhava.

Roseli voltou, pegou uma cadeira vazia e arrebentou uma divisória de vidro. Cacos para todos os lados. Clientes e funcionários estupefatos. Mas ela não parou. Ainda arremessou a cadeira noutra mesa com computador. Houve curto circuito e começou a gritaria. Antes que o vigilante se aproximasse, acertou a cabeça do funcionário com a cadeira. Um único golpe. Só então parou e deixou-se prender.

Hoje as preocupações dela são poucas. A comida chega no horário marcado. Não é das melhores, mas também não dá trabalho algum. Aos domingos, ela se arruma, se penteia, já não tem mais os pés rachados, fica pronta. Mas, invariavelmente, ninguém, nem mesmo os filhos, a visita na penitenciária feminina.

Tuesday, September 09, 2003

O dia 08 de setembro merecia uma trilha sonora. Algo bem alegre porque lá pelos idos de 1893, isso mesmo, nascia o meu avô paterno, Francisco Bernardo. Mais de um século depois, na mesma data no ano de 2001, uma música mais melancólica. Despedia-se desta vida, o meu pai. A notícia foi seca.
- Alô.
- Edi?
- Sim.
- O pai acabou de falecer.
- Onde você está?
- No Evangélico.
- Estou indo aí.

Ainda na minha casa, percebi o exato momento em que o relógio parou. As horas seguintes seriam intermináveis. Em frente ao hospital, tristeza pura. Ali estavam minhas duas irmãs, as tias Irene e Evangelina – irmãs do meu pai – o Elizeu, que me telefonou, minhas sobrinhas. Quem passava, olhava com consternação. A gente chorou abraçado por alguns minutos. O Almeida, sempre prático.

- Onde vai ser o velório?
- Em casa – disse a Lalda.
- Eu vou indo pra Rolândia. Você pode ficar aqui?
- Pra que?
- Pra liberar o corpo, acertar os detalhes do transporte.
- Está bem. Você fica comigo Laine?
- Sim, tio.

Era pouco mais de 10 da manhã. Telefonei pro Beto, pro Jonas, pra Raquel – que foi até o hospital na mesma hora, pra Rose. Depois de tudo resolvido, peguei uma blusa, lenço, óculos de sol e fui pra Rolândia. Quando me viu, minha mãe perguntou, chorando:

- Edi, cadê o seu pai.
- Mãe, preste atenção. Eu sei que a gente vai sofrer muito. Mas foi melhor assim. O médico disse que o derrame era extenso, comprometia todos os movimentos dos braços e das pernas. A senhora consegue imaginar o pai entrevado numa cama?
- Foi melhor assim, filho?
- Foi mãe. Pra ele foi.
Ela me abraçou forte, choramos ajoelhados. Vários telefonemas, parentes e amigos chegando. Veio tanta gente. A sensação era de anestesia. Um dia interminável, uma noite longa, eterna, a manhã do dia 09 ainda mais lenta. No cemitério, despedi do seo João com a promessa de que só voltaria naquele lugar em outro velório da família. Sempre defendi que as pessoas devem ser homenageadas, amadas, lembradas enquanto vivas.

E a última lembrança que tenho do meu pai foi no dia que comprei o Gol. Ele foi comigo, testou o carro e deu o veredicto:
- O carro está uma joinha. Pode comprar.
- O senhor vai comigo até o Banco?
- Vou.

Negócio fechado, fui com ele até um posto de gasolina, onde completei o tanque do meu carro e o do dele, que eu estava usando até concluir a transação. Dias depois, liguei pra ele.
- Pai, eu estou querendo fazer um churrasco pra comemorar a aprovação no mestrado. O senhor pode fazer isso pra mim.
- Posso, claro.
- Então o senhor compra tudo e me fala quanto é e eu deposito o dinheiro na conta.
- Que dia vai ser?
- Vou fazer no feriado do dia 07. Assim as meninas (minhas irmãs que moram em São Paulo e Palotina) podem vir, os meus amigos de São Paulo e Curitiba também.

Esta foi nossa última conversa. Ele não teve tempo de dizer quanto custou. Na manhã do dia 07 tudo estava preparado. Mas ele não pode participar. Passou mal logo pela manhã, entrou em coma muito rápido. Lembro dele chegando de maca ao Evangélico. Sendo atendido, querendo andar com as próprias pernas. Homem de fibra, o seo João. Não admitia a derrota. Mas o AVC foi fulminante. Pra mim, foram vários dias de muita dor. Lancinante. Pra falar bem a verdade, até hoje é assim. Três dias depois, o ataque terrorista em Nova Iorque. Eu ouvia as notícias e chorava. Muito.
Na noite do enterro, tive uma conversa longa com o Beto, ao telefone. Choramos juntos. Relembrei os grandes gestos de afeto do seo João.
Desde me deixar dormir em seu colo na igreja, até me levar pra comer coxinha na lanchonete da Dona Terezinha.
- Esse aqui só gosta de coisa boa, dizia sempre.

Eu gostava muito quando ele me pegava pela cabeça e me abraçava de lado, na lateral da perna. Eu era franzino. Não largava da minha mão. Quando eu passei no concurso do Banco do Brasil, ele contou pra todo mundo. Meu pai confiava em mim. Volta e meia falava da morte. Certa vez, disse aos meus cunhados.
- Quando eu morrer, eu quero que o Edi cuide de tudo. Nada poderá ser feito sem a autorização dele.
- E por quê?, questionou um deles.
- Porque ele é honesto. Nas mãos dele, ninguém vai ficar no prejuízo.

Certo dia, tivemos uma conversa franca. Aquelas que a gente revela segredos, buscando cumplicidade. Ele não se omitiu. Me olhou com um pouco de tristeza, acho que decepção também, mas havia um monte de carinho. Foi lacônico:
- Se cuida.

Hoje estou especialmente emocionado. Com uma saudade imensa dele. Se deixar, poderia escrever muitas e muitas páginas aqui. Nada, porém, seria suficiente para expor o imenso amor que eu sentia pelo meu pai. Fico feliz de ter dito a ele, em vida:
- Pai eu te amo.

É isso, e somente isso, que aconchega o coração de um filho. Que dá forças pra gente continuar lutando, defendendo os ensinamentos que aquele homem analfabeto, de mãos calejadas, fez questão de me presentear. Olho pra trás com uma saudade do tamanho do mundo. Mas com o coração, apesar da dor, tranqüilo e em paz.



Thursday, September 04, 2003

- Nossa, que surpresa boa. O que você está fazendo por aqui?
- Passeando um pouco.
- Voltou?
- Não. Apenas uma temporada.
- Que pena. Estou muito feliz por rever você. Passe lá em casa. Ou na escola, se preferir.

Quando está escuro e ninguém te ouve, quando chega a noite e você pode chorar. Há uma luz no túnel dos desesperados, há um cais de porto prá quem precisa chegar.


Pois é. Este foi um encontro casual que deixou Gilberto muito feliz. Naquele breve momento, sentiu uma alegria indescritível. Reconforto e a certeza: setembro realmente tinha chegado. Naquele fim de agosto, esperou mesmo a mudança do relógio. Depois da prece, dormiu tranqüilo.

Eu tô na Lanterna dos Afogados, eu tô te esperando, vê se não vai demorar!


Acordou no dia seguinte e olhou o céu. Estava muito azul, quase sem nuvens. Claro. O firmamento pareceu-lhe pequeno. Dúvidas persistiam, rondavam-lhe a cabeça. Correu até a primeira casa de apostas que encontrou. Fez vários jogos.Estabeleceu planos concretos para utilizar o dinheiro. Deixou o lugar e, na rua, sentiu-se um idiota.

Uma noite longa prá uma vida curta, mas já não me importa, basta poder te ajudar.


Foi preciso reencontrar um ex-professor para voltar à realidade.
- Menino... que bom te ver.
- Obrigado. Que surpresa boa. Como vai a família.
- Estamos todos bem. Muito bem. Fica aqui até quando?
- Ainda não sei.
- Passe lá em casa. Eu a Lúcia não fazemos mais nada. Estamos aposentados, você sabe... Vagabundeamos.
- Nada disso. Descanso merecido.
- Passe lá. As meninas vão gostar de ver você.
- Passo sim. Prazer em revê-lo.
- O prazer é todo meu. Todo meu.

E são tantas marcas que já fazem parte do que eu sou agora, mas ainda sei me virar.


Não sobrou dúvida. O jeito era aceitar os pequenos afetos. A vida não lhe era tão ingrata, afinal. Gilberto sorriu graciosamente. Caminhou mais leve. Sentia-se amado, bem quisto. Levava consigo bons pressentimentos. O principal deles era a crença de que tudo haveria de ser ainda melhor.

Eu tô te esperando, vê se não vai demorar.

Monday, September 01, 2003

Gilberto precisava ficar acordado até meia-noite. Ele queria ter certeza que agosto estava realmente no fim. O mês do cachorro louco terminava e ele punha todas as esperanças em setembro.

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti. Pode o outono voltar, que eu quero estar junto a ti.


Para ele, junto com a primavera, o dia da árvore, os signos de virgem e libra, trariam um novo alento para sua vida ordinária. Aliás, bem ordinária, é preciso registrar.

E é primavera, te amo. É primavera, te amo, meu amor.


Andando pelas ruas, o homem olhava para as pessoas sempre com um questionamento: será que essa criatura é feliz? Como ela pode acordar todos os dias, repetir as mesmas atividades, volta e meia quebrar a rotina com um sexo mais apimentado, trocar alguns afetos com os amigos, com o companheiro de tantas horas, sonhar um pouco com o impossível, iludir-se para depois, muito rapidamente, desiludir-se e, enfim, seguir com a própria vida?

Trago esta rosa, para te dar, meu amor...


E mais: qual a receita pra sentir a alma aquietar-se num lugar tão distante de tudo, das infinitas e indecifráveis possibilidades de conquistar a paz, sobre todas as coisas?
Antes que a meia-noite chegasse, ele resolveu fazer um minuto de silêncio.

Meu amor, hoje o céu está tão lindo... vai chuva...


Olhou para trás e reviu a própria vida. Percebeu sim que, apesar do muito a fazer, o passado comprovava conquistas inestimáveis. Era preciso reconhecer. Apesar da solidão momentânea que lhe afogava o peito, sabia que tinha amigos, não muitos, é certo, mas verdadeiros. E isso foi suficiente pra ele ter uma noite tranqüila, refazer a confiança de que o amanhã será muito melhor que hoje.