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This is the archive for August 2003

Friday, August 29, 2003

Voltar a Rolândia depois de 12 anos é uma aventura. É muito comum ser cumprimentado nas ruas, por todos, quase que indistintamente. Surpreendo-me quando encontro alguém da minha época por aqui. Na maioria das vezes, penso: “o tempo fez muito mal a você”. Muita gente mal cuidada, mal tratada. Não somente no aspecto físico. Os olhos não têm brilho. Geralmente nos olhamos, nos reconhecemos. Imediatamente me vem à pergunta: “será que essa criatura é feliz aqui?”.
Hoje tive um encontro muito bacana. A cidade tem uma academia que oferece aulas de body combat – a coqueluche do momento – e body pump. No final da aula, entra o Fernando. Nós temos a mesma idade e estudamos juntos no segundo grau. Éramos amigos. Muito amigos.
Ele ralava pra caramba num escritório de contabilidade, mal tinha tempo de estudar. Nos fins de semana, sempre arrumávamos um tempo para estudar.
Certa vez, ele estava desesperado. Teríamos prova de análise de balanço, a matéria mais difícil do curso técnico, com o professor mais exigente, o Reno. Falei pra ele não se preocupar. Eu ia dar um jeito de fazer a prova pra ele. Não sei como conseguimos, mas numa vacilada do professor eu passei minha prova pra ele. Ele copiou tudinho. Depois me devolveu pra que conferisse. Na semana seguinte, entrega das notas. Eu e ele tiramos dez. Ele foi fazer faculdade em outra cidade, eu me mudei pra Londrina. Ele se casou, eu continuei perambulando, cada um seguiu seu caminho. Mas sempre que a gente se encontra, parece que nunca nos separamos.
Fiquei muito feliz em revê-lo hoje. Continua o mesmo. Nem parecia que se passaram alguns bons anos. Falamos como no tempo em que saíamos do colégio e ficávamos na rua jogando muita conversa fora.
Fernando continua simples, virou um homem de caráter, generoso. É um professor amado pelos alunos. Aquele que a gente nunca esquece, sabe como? Nessa temporada na cidade pequena, vai ser muito bom colocar o assunto em dia com ele. E deu pra pensar que nem tudo está perdido.

Não, esse não é o Fernando, pelo amor de Deus... Esta é a réplica da estátua do Roland, famoso guerreiro alemão que a cidade resolveu homenagear. Veio de Bremem e fica entre a rodoviária e a grande praça da cidade.

Wednesday, August 27, 2003

Não, eu não vou falar nada sobre o filme. Quero dizer sobre esses momentos que ocorrem na vida de gente que, invariavelmente, parecem intermináveis. Sempre são situações limite.
Têm ligação direta com a morte, seja ela concreta ou apenas uma metáfora, uma etapa que se encerra. É aquele tempo de angústia, de nó no peito, quando o dia fica cinza, não passa, fica parado e olhar no relógio a cada cinco minutos vira uma rotina.

De todo o meu passado, boas e más recordações... Quero viver meu presente, e lembrar tudo depois...


Você já notou que nessas horas, sempre aparece alguém para lhe estender a mão? É normal que seja um amigo, um parente, um irmão. Muitas vezes, porém, é alguém que a gente nunca imaginou. Uma pessoa que age por generosidade. E que deixa marcas profundas na nossa vida. Alguém que sempre vamos recordar, haja o que houver.

Nessa vida passageira, eu sou eu, você é você...


Lembro nitidamente o dia 15 de abril em Curitiba. Era pouco mais da 15 horas e eu acabara de sair da TV Educativa, demitido. Depois de dividir a raiva com o Beto (o Zé), liguei para a Maria Flores. Mais que solidária, ela estendeu-me a mão. Pouco tempo depois, ainda naquele dia, ela fez contatos, me deu números de telefone, mostrou, enfim, que o momento era de recomeço, de uma nova etapa, nunca de derrota. Me pôs pra cima, sabe?

Isso é o que mais me agrada, isso é o que me faz dizer:


Mas ela não estava só. Tinha também a Mira, a Taísa , a Suzana, a Katya. Pessoas com as quais eu já tinha convivido de maneira superficial. E que fizeram uma diferença absoluta na minha estada em Curitiba. Como eu disse à Suzana, no telefonema de até breve, elas torceram por mim. Mandaram energia positiva. Mostraram-se amigas, solidárias, generosas. Estavam lá, quando nada parecia ter cor, sentido.

Que vejo flores em você! Que vejo flores em vocês!


Por essa razão é que viver vale a pena. Sempre existem Marias, Miras, Taísas, Suzanas, Katyas, Simones – minha amiga há mais tempo – Isabellas, Cidas, Rosis. Ainda bem que é assim. Fica muito mais bacana e interessante passar por qualquer problema.

Friday, August 22, 2003

Adelaide não escondia a origem humilde. Mais do que isso. De vez em quando fazia questão de frisar que tinha nascido no meio da roça e que se fez “por si só”.
Conservava características ímpares. Após terminar uma refeição, nunca se intimidou em palitar os dentes. Andar pela rua com os cabelos enrolados em bobes, não era constrangimento algum. Volta e meia se pegava com as moças modernas e chiques que encontrava na cidade.
“Vocês são umas bestas. Umas bestinhas”, dizia.
Adelaide passava dos 30 anos e sonhava com o príncipe encantado. Na verdade, já choramingava em frente ao espelho, sentindo-se velha.
“Uma titia. Fiquei pra titia. Ai meu Deus, me livre desse pesadelo”, repetia sempre.

Não vejo mais você faz tanto tempo, que vontade que eu sinto, de olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. É verdade, eu não minto...


Era uma tarde de domingo, ela chupava uma massa na praça da igreja matriz. Um carro novinho em folha, de repente, bate no famoso abacateiro. Levou um susto e pulou do banco. Correu pra ajudar. Dentro do veículo, o que se pode chamar de um homem garboso. Mesmo com o rosto coberto pelo sangue, percebeu que era um galã. Tinha traços bonitos.
“É ele. Eu tenho certeza. É ele”, suspirou.
No amontoado de curiosos, alguém tratou de pedir socorro, que chegou rápido.
“É parente?”, perguntou o policial.
“Namorada. Namorada”, respondeu sem titubear.
O moço, desacordado, foi levado numa maca. Adelaide segurou-lhe as mãos o quanto pôde. Viu a ambulância partir. Por algum tempo ficou desnorteada. Estralava os dedos, roía as unhas, andava de um lado pro outro. Lembrou da amiga Catarina. Do telefone público, pediu ajuda.
“Me pegue aqui na praça. Preciso ir ao hospital. Venha, rápido. Por favor me ajude”, quase suplicou.
Catarina não demorou. Enquanto iam, a amiga tratou de sintonizar uma estação de rádio local. A música foi interrompida pela notícia de última hora.
“O socorro foi rápido. Mas Paulo Henrique de Souza não resistiu aos ferimentos. Da praça ao hospital, foram menos de 10 minutos. Lá, ele já chegou morto”.
Adelaide não acreditou no que acabara de ouvir. Lágrimas caíram e ela chorou compulsivamente. A música, no rádio, continuou.
“Nada mais importa agora
Você foi embora e eu fiquei tão só
Sigo, sem saber meu rumo
Eu não me acostumo sem você aqui
De que vale ter tudo na vida
De que vale a beleza da flor
Se eu não tenho mais teu carinho
Se eu não sinto mais teu calor”.

Agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer. Você só me ensinou a te querer. E te querendo eu vou tentando te encontrar. Vou me perdendo... Foto:Andres Sans

Thursday, August 21, 2003

- Vamos tomar um sorvete?
- Oras, onde já se viu. Eu tenho cara de quem toma sorvete?
- Sim. Essas curvinhas tão interessantes mostram que sim, você toma sorvete. E muito.
- Mas que abuso. Isso é um acinte.
- Não fique irritada. É um elogio.
- Eu não tomo sorvete com qualquer um.

É ou não é uma delícia?


- Bem, mas eu não sou qualquer um. Não se lembra de mim?
- Claro que não, abusado.
- Se não lembra, porque está prolongando essa conversa?
- Ora, ora, ora...
- Está confusa, admita.
- Você, você, você...
- É gaga?
- Atrevido... Como ousa, seu, seu, seu...
- Ih, essa conversa está truncada.
- Aliás, não deveria nem ter começado.
- Eu estudei com você na quinta série.
- Em que escola, engraçadinho?
- Lá em Astorga.
- E quem é você afinal?
- O Aguinaldo, lembra agora?
- Aquele que ficou com o rosto que parecia um queijo parmesão de tanta cratera de espinha.
- Não venha com ofensas bobas...
- Não gostou?
- E você está lembrada que quando brincamos de leva e traz, eu dei um beijo em você? E na boca...
- Ora, ora, ora...
- O cara de cratera beijou a gordinha da turma.
- Mas você é um ridículo, ridículo.

Eu insisto: é ou não é uma delícia?


- Posso ser. Mas depois de tanto tempo, não dá pra ser mais amável?
- E por que eu seria simpática com você?
- Porque eu continuo achando você um pitequinho. Toma um sorvete comigo, vai?
- Depende.
- Do que.
- Só se você me der outro beijo na boca...

Tuesday, August 19, 2003

- Meu filho, onde você estava?
- Por aí, mãe. Por aí.
- Não tinha um jeito de me avisar, de dar um telefonema que fosse?
- Não deu. Dessa vez foi difícil, não deu.
- Fizeram algum mal pra você?
- Na minha situação, receber algum mal até que não seria má idéia.
- Não brinque com essas coisas, menino.
- Mãe, mãe...
- Mãe, mãe o que? Já vai me recriminar?
- Não é isso. Você se ilude, cria umas histórias, embarca nelas, viaja.
- Que jeito é esse de falar comigo?
- Mãe, você pira muito.
- Não estou gostando dessa conversa.Encontrou?
- Sim.
- O dinheiro foi suficiente?
- Sim.
- É da boa?
- Sim, da melhor qualidade.
- Sem mistura?
- Pura, puríssima.
- Você faz ou eu faço?
- Faça você mãe.
- Você tem cartão telefônico?
- Não, só de crédito.
- Não, esse não presta. Bom mesmo é cartão telefônico.
- Tenho lâmina de barbear.
- Pega lá, pega lá.
- Mãe, fala sério. Se eu contar pros meus amigos, ninguém acredita.
- São todos uns caretas. Uns caretas.

Tuesday, August 12, 2003



Os dias se passaram, o frio chegou, a madrugada de ontem teve uma lua cheia das mais bonitas. E eu continuo aqui pensando na verdade e na mentira. Hoje, proponho um pacto. Você olha pra mim e diz simplesmente: eu te amo. Hoje nada em mim vai te incomodar. Minha ansiedade até vai se transformar em um pouco de charme. Meu cheiro suado será agradável, meu beijo, o melhor do mundo. Estar comigo será um grande prazer. Será como sentir a vida toda num segundo e torcer para que esse tempo não passe nunca. Nunca.

...vem, se eu tiver você no meu prazer... se eu pudesse ficar com você... todo momento... em qualquer lugar...



No meio da tarde você aparecerá com um bombom. O meu preferido. Não vai se incomodar em ficar ao meu lado vendo televisão, ainda que seja a mais tola das atrações. Juntos, leremos todas as notícias do jornal, para só nos lembrarmos do que for bom. Também no meio da tarde, vamos transar. Aliás faremos isso durante horas e horas seguidas. Depois, um repouso gostoso, daqueles em que ficamos abraçados até algumas partes do corpo pinicarem. Nem isso será desagradável.




Eu quero ser acordado com um beijo. Terno e sem pressa. Depois vamos jantar, falar trivialidades do dia, lembrar histórias de nossa infância. Para encerrar a noite, um chá de frutas silvestres, outros beijos e abraços, mais um pouco de amor carnal. Dormir e sonhar. Sonhar que tudo isso não foi uma ilusão, uma mentira.

Tuesday, August 05, 2003

A verdade é uma grande mentira. Algo que inventaram para nos fazer reféns de tudo o que não desejamos.

Este é um exemplo do que aparece no google quando a gente pede alguma imagem sobre a verdade. É ou não é uma palhaçada?


Desde pequeno aprendi que não poderia esconder os fatos nunca. Não deveria mentir. Que um homem de caráter encara qualquer situação, estufa o peito, enfrenta as dificuldades. “Um homem de honra não precisa da mentira”, bradava meu pai.

No filme


Mas hoje, descubro que nada disso importa. As pessoas gostam mesmo é da mentira, do auto-engano, da farsa, da mediocridade. Hoje tenho que concordar que a verdade é um cobertor que não aquece os pés. Quanto mais a gente puxa, mais ele escorrega e nos descobre, colocando-nos em maus lençóis. Esse frio invade a alma, não passa nunca. Não adianta, não sossega nosso coração.



A verdade dói e não serve pra nada. Existe pra nos fazer ainda mais solitários, mais distantes de todos os que acabam entrando e participando dos jogos e farsas sociais. Não, não. Não quero saber de mais nada que seja verdadeiro. Agora eu quero a mentira. Mentira política, mentira afetiva, mentira sexual, mentira profissional. Todas as mentiras do mundo venham a mim.

O belo da foto, por muito tempo, acreditou que falar a verdade era fundamental. Aguentou o quanto pode...


A verdade, na verdade, tem me trazido lágrimas demais. Consternações desnecessárias. Não, eu odeio a verdade. A partir de hoje vou mentir todos os dias. Logo que eu acordar vou inventar uma mentira. E vou contá-la pra mim com tanta convicção, que ela passará a ser verdade. Não. Ops, pera aí. Não é isso que eu quero. Eu preciso da mentira.

...no fim, depois de realizar o sonho de ser ator de teatro, não suportou a pressão familiar, em nome da verdade. E, em nome dessa mesma verdade, meteu-se um tiro na cabeça.


Portanto, vou soletrá-la repetidas vezes para que vire uma imensa mentira. Uma farsa grotesca. Ela, pelo menos, conforta por alguns efêmeros segundos. O resto é balela da moral católica. Nos ilude e nos ludibria. Mintam. Mintam todos, todos os dias, todas as horas.