Preciso criar coragem e aceitar que a vida é feita de solidão. Que quanto mais imaginamos pessoas à nossa volta, mais solitários estamos. Porque não basta estar com alguém. Não basta ter dinheiro no fim do mês, não é suficiente ter alguém com quem fazer sexo de vez em quando, ainda que também de vez em quando, isso seja realmente muito bom. Não basta que o telefone toque e alguém do outro lado queira apenas saber como você está. Não, nada disso basta. É muito pouco ler um bom livro. É pequeno assistir a um filme que nos solte a imaginação. Não basta gozar. Nada disso faz sentido algum se não estamos bem quando tiramos a roupa e encaramos as rugas, as marcas do tempo no corpo, nas mãos, no rosto, na cabeça, na alma. É preciso coragem, muita coragem pra ficar só. Tomar banho sozinho, trocar de roupa sozinho, esquentar a cama sem ninguém, enrolar-se com os vários travesseiros que ocupam e dividem a cama. Sonhar sozinho durante a noite toda. Acordar sozinho, depois escovar os dentes, depois tomar Yakult, tomar banho, tomar café, trocar de roupa, pegar o elevador, sair pelas ruas, chegar ao trabalho, executar tarefas mecânicas, fazer uma pausa para um pequeno capuccino, terminar as tarefas, comer a comida de sempre, devorar a sobremesa de sempre, beber o chá de hortelã de todos os dias, ver um pouco de novela, sair de novo e, por um momento, sentir a tristeza se aproximar, como numa canção melancólica. Num determinado momento, enfim, é preciso sentir um pouco, só um pouquinho de nada, de emoção. Sem emoção, não há solidão que se suporte.
