A sensação se repetia todas as vezes que Carolina abria o velho baú e revia o jogo de xícaras de plástico. Ela nunca lembrava exatamente quando ganhara o brinquedo. Mas tinha certeza: fora a mãe, levada pelo câncer havia anos, quem lhe presenteara. Os olhos daquela universitária ainda marejavam. E o aperto no peito se repetia quando ouvia as amigas falarem das brigas, das preocupações e das satisfações que eram obrigadas a dar, sempre que iam chegar mais tarde, sair com novos amigos. Coisas de toda mãe, daquelas que só mudam de endereço.
Carolina sentia esse vazio. Certa vez, numa das poucas crises de choro que teve, disse para uma amiga querida:
- Só quem não tem mãe sabe e entende a falta que ela faz.
Carolina estava prestes a se formar em fisioterapia, quando o pai, o seo Arnaldo, chamou-a para conversar. Aquele homem simples, mãos calejadas pelo trabalho, muito tímido e com dificuldades de externar sentimentos e fazer carinhos explícitos, nunca lhe deixou faltar nada. Absolutamente nada. De vez em quando falava algumas poucas palavras. Daquelas definitivas, que um filho leva pra toda a vida. Naquele momento, porém, estava visivelmente sem jeito. Carolina namorava Rodrigo, já fazia mais de um ano. O pai sabia o que se passava entre o casal. Tentava negar, fazer de conta que não, mas no fundo percebera que Carolina tinha se transformado numa mulher. E que mulher.
- Filha, você está feliz?
- Eu estou pai. Por quê?
- Sei lá, queria conversar um pouco com você, mas não sei exatamente o que dizer.
- O Rodrigo fez alguma coisa que o senhor não gostou?
- Pra mim não. E pra você?
- Como assim?
- Ele te trata bem?
- Trata, claro.
- Ele respeita você?
- Pai, aonde o senhor quer chegar?
- Em você. Não sei o que te dizer, nem como fazer isso. Mas queria que você soubesse que eu estou do seu lado.
- Eu sempre soube disso.
- Essa seria uma conversa bem boa pra você ter com sua mãe. Mas ela não está aqui. Homem é muito malandro.
- Não precisa se preocupar.
- Você ama o Rodrigo?
- Sim, acho que sim.
- E ele? Também te ama?
- Bem, eu acho que sim. Ele cuida de mim, é atencioso, sempre gentil.
- Você se cuida?
- Pai?!
- Desculpe, não quero deixar você constrangida. Mas não queria que nada de mal lhe acontecesse.
- Eu sei, pai.
- A homarada gosta muito de festa, de se aproveitar das meninas. E não gostaria que fosse assim com você.
Carolina abraça o pai ternamente por alguns longos minutos. Os dois ficam em silêncio. Rostos colados, ela percebeu a lágrima do pai escorrendo. Em silêncio. Abraçou aquele homem ainda com mais força. O pai não agüentou:
- Eu gostaria que você não deixasse ninguém te magoar.
- Eu sei, pai.
- Não aceite nunca que ele faça coisas que você não aprova. Dê respeito. Não deixe que ele seja abusado.
- Está bem, pai.
- Eu morreria se ele fizesse algo de ruim pra você.
- Eu sei, pai, eu sei.
- Não se esqueça nunca disso.
- Está bem.
- Eu amo você minha filha. Muito.
- Eu também te amo pai. E não sei o que seria da minha vida sem você. Pode deixar que nunca ninguém vai se aproveitar de mim.
- Então está bem. Se precisar de ajuda, você promete que pede?
- Sim, eu prometo.
Abraçaram-se de novo e ficaram assim por mais um bom tempo. Carolina sentiu então, que, realmente, não lhe faltava nada.
Você está cada vez melhor!!!
Adorei!!!
Beijos
Sid Paião