This is the archive for July 2003
Preciso criar coragem e aceitar que a vida é feita de solidão. Que quanto mais imaginamos pessoas à nossa volta, mais solitários estamos. Porque não basta estar com alguém. Não basta ter dinheiro no fim do mês, não é suficiente ter alguém com quem fazer sexo de vez em quando, ainda que também de vez em quando, isso seja realmente muito bom. Não basta que o telefone toque e alguém do outro lado queira apenas saber como você está. Não, nada disso basta. É muito pouco ler um bom livro. É pequeno assistir a um filme que nos solte a imaginação. Não basta gozar. Nada disso faz sentido algum se não estamos bem quando tiramos a roupa e encaramos as rugas, as marcas do tempo no corpo, nas mãos, no rosto, na cabeça, na alma. É preciso coragem, muita coragem pra ficar só. Tomar banho sozinho, trocar de roupa sozinho, esquentar a cama sem ninguém, enrolar-se com os vários travesseiros que ocupam e dividem a cama. Sonhar sozinho durante a noite toda. Acordar sozinho, depois escovar os dentes, depois tomar Yakult, tomar banho, tomar café, trocar de roupa, pegar o elevador, sair pelas ruas, chegar ao trabalho, executar tarefas mecânicas, fazer uma pausa para um pequeno capuccino, terminar as tarefas, comer a comida de sempre, devorar a sobremesa de sempre, beber o chá de hortelã de todos os dias, ver um pouco de novela, sair de novo e, por um momento, sentir a tristeza se aproximar, como numa canção melancólica. Num determinado momento, enfim, é preciso sentir um pouco, só um pouquinho de nada, de emoção. Sem emoção, não há solidão que se suporte.

Posted by joao at 05:23 PM. Filed under: Geral
13 comments • Permalink
A sensação se repetia todas as vezes que Carolina abria o velho baú e revia o jogo de xícaras de plástico. Ela nunca lembrava exatamente quando ganhara o brinquedo. Mas tinha certeza: fora a mãe, levada pelo câncer havia anos, quem lhe presenteara. Os olhos daquela universitária ainda marejavam. E o aperto no peito se repetia quando ouvia as amigas falarem das brigas, das preocupações e das satisfações que eram obrigadas a dar, sempre que iam chegar mais tarde, sair com novos amigos. Coisas de toda mãe, daquelas que só mudam de endereço.
Carolina sentia esse vazio. Certa vez, numa das poucas crises de choro que teve, disse para uma amiga querida:
- Só quem não tem mãe sabe e entende a falta que ela faz.
Carolina estava prestes a se formar em fisioterapia, quando o pai, o seo Arnaldo, chamou-a para conversar. Aquele homem simples, mãos calejadas pelo trabalho, muito tímido e com dificuldades de externar sentimentos e fazer carinhos explícitos, nunca lhe deixou faltar nada. Absolutamente nada. De vez em quando falava algumas poucas palavras. Daquelas definitivas, que um filho leva pra toda a vida. Naquele momento, porém, estava visivelmente sem jeito. Carolina namorava Rodrigo, já fazia mais de um ano. O pai sabia o que se passava entre o casal. Tentava negar, fazer de conta que não, mas no fundo percebera que Carolina tinha se transformado numa mulher. E que mulher.
- Filha, você está feliz?
- Eu estou pai. Por quê?
- Sei lá, queria conversar um pouco com você, mas não sei exatamente o que dizer.
- O Rodrigo fez alguma coisa que o senhor não gostou?
- Pra mim não. E pra você?
- Como assim?
- Ele te trata bem?
- Trata, claro.
- Ele respeita você?
- Pai, aonde o senhor quer chegar?
- Em você. Não sei o que te dizer, nem como fazer isso. Mas queria que você soubesse que eu estou do seu lado.
- Eu sempre soube disso.
- Essa seria uma conversa bem boa pra você ter com sua mãe. Mas ela não está aqui. Homem é muito malandro.
- Não precisa se preocupar.
- Você ama o Rodrigo?
- Sim, acho que sim.
- E ele? Também te ama?
- Bem, eu acho que sim. Ele cuida de mim, é atencioso, sempre gentil.
- Você se cuida?
- Pai?!
- Desculpe, não quero deixar você constrangida. Mas não queria que nada de mal lhe acontecesse.
- Eu sei, pai.
- A homarada gosta muito de festa, de se aproveitar das meninas. E não gostaria que fosse assim com você.
Carolina abraça o pai ternamente por alguns longos minutos. Os dois ficam em silêncio. Rostos colados, ela percebeu a lágrima do pai escorrendo. Em silêncio. Abraçou aquele homem ainda com mais força. O pai não agüentou:
- Eu gostaria que você não deixasse ninguém te magoar.
- Eu sei, pai.
- Não aceite nunca que ele faça coisas que você não aprova. Dê respeito. Não deixe que ele seja abusado.
- Está bem, pai.
- Eu morreria se ele fizesse algo de ruim pra você.
- Eu sei, pai, eu sei.
- Não se esqueça nunca disso.
- Está bem.
- Eu amo você minha filha. Muito.
- Eu também te amo pai. E não sei o que seria da minha vida sem você. Pode deixar que nunca ninguém vai se aproveitar de mim.
- Então está bem. Se precisar de ajuda, você promete que pede?
- Sim, eu prometo.
Abraçaram-se de novo e ficaram assim por mais um bom tempo. Carolina sentiu então, que, realmente, não lhe faltava nada.
Posted by joao at 08:15 PM. Filed under: Geral
4 comments • Permalink
- Isso não vai ficar assim.
- Não me faça ameaças.
- Como pôde renegar o meu amor?
- Eu não reneguei. Apenas não posso correspondê-lo do jeito que você queria.
- Um amor tão puro, tão sincero...
- Tão cheio de cobranças, tão cheio de exigências.
- Não. Isso não é verdade.
- Você quer me obrigar a uma situação que eu não quero, que eu não desejo nesse momento.
- Como alguém pode rejeitar o amor?
- Não é a hora certa.
- Não existe hora. Existe o fato. E o fato é que eu me apaixonei por você. Eu amo você.
- E por isso quer me aprisionar.
- Não. Eu quero me prender junto com você. Existe algum mal nisso?
- Não existe mal, mas não existe bem. Aí fica difícil.
- É um amor tão bonito, tão grande, tão intenso.
- Pare de arrumar adjetivos pr’um sentimento que existe só na sua cabeça. Você não pode me amar.
- Posso sim. E amo.
- Não ama. É capricho, carência ou delírio simplesmente. Ninguém ama aquilo que não conhece.
- Mas eu conheço você. Sei da sua infância, vejo as suas dificuldades, a sua solidão.
- Eu estou bem e, me desculpe, não preciso de você.
- Está vendo aquela porta. Pois bem. Vá embora. Suma pra sempre da minha vida.
- Pois não. É pra já.
Ele arruma as malas. Quando estava pra sair:
- Se você sair por essa porta, nunca mais entra aqui.
- Desculpe se não posso amar você.
- Não. Eu não desculpo.
- Poderia ter sido bem diferente.
- Mas não foi.
- Seja feliz.
- Se você sair por essa porta, nunca mais vai me ver.
- A gente se vê.
- Eu vou contar até três. Se você bater essa porta, não tem mais volta.
- Tchau!
- Um... dois... três...quatro... cinco... seis...dezenove... quarenta e cinco... duzentos e três...seiscentos e quarenta e sete...
Posted by joao at 12:37 AM. Filed under: Geral
4 comments • Permalink
Pra Marcelo, só uma canção de Piazolla poderia descrever o cinza daquela tarde. A melancolia estava por toda parte. Chovia leve, os sapatos já estavam molhados e ainda faltavam algumas quadras pr’ele chegar ao escritório. Na saída de um banco, um discreto sorriso.
- Quer carona no meu guarda-chuva?
- Até onde você vai?
- Vamos juntos, por aí. Não importa até onde. Você vai se molhar um pouco menos, eu garanto.
- Obrigado pela gentileza.
Caminharam uma quadra em silêncio. Os braços roçavam debaixo do guarda-chuva, olharam-se e, de novo, um sorriso bem discreto. Quase um contentamento.
- Engraçado este encontro.
- Você acha?
- Pois é, quando a gente menos espera, num dia como hoje.
- Você sempre faz isso?
- Isso o que?
- Oferecer carona a desconhecidos...
- Ah, pensei que fosse outra coisa.
- O que?
- Me encantar à primeira vista...
- Nossa...
- E de maneira tão casual. Não parece coisa de cinema.
- Pois é... estou encabulado.
- Não precisa.
Pronto. A melodia de Piazolla já tinha outro significado agora. Passos firmes, de repente Marcelo se viu sonhando. Ria sozinho, descrente de que aquele encontro não era uma ilusão, um sonho, um delírio. Era verdadeiro.
- Como é o seu nome?
- Marcelo. E o seu?
- André.
- Eu agradeço a carona. Fico aqui.
- A gente pode ser ver de novo?
- Claro. Me telefona. Vamos ao cinema, depois jantamos.
- Com certeza.
Trocaram cartões e se despediram. Marcelo passou o resto do dia rindo à toa. André também não conseguia parar de achar graça no inusitado daquela tarde.
Posted by joao at 05:10 PM. Filed under: Geral
6 comments • Permalink
Quando a tarde cai
Eu penso em você
E nos caminhos
Que hão de vir
Sol
Estrada aberta pro mar
Só começar
Tarde da noite
Nunca é tarde demais
Pra imaginar
Você aqui
Só
Um beijo pode acalmar
Suas dúvidas
E a vida
Pode ser feliz
Mesmo por instantes
Mesmo por um triz
Eu quero o sal, o doce, o sempre
Surpresas pelo ar
Eu quero azul
Amor que tarde
Mas nunca vá falhar
Ser um rio
Infinito
Nascer de novo em seu olhar
Provar o vento
Deitar ao sol
E me apaixonar
E me apaixonar
por Marina Lima e Alvin L.
*Hoje, andando por Curitiba, prestei atenção na letra e gostei muito. Ofereço-a a vocês.
Posted by joao at 12:20 AM. Filed under: Geral
2 comments • Permalink
Assim que passou a lâmina de barbear pela última vez no rosto, as luzes se apagaram. Pareceu combinação. Assustado, procurou a tomada, mas não adiantou. Estava no mais puro breu. A porta fez um rangido qualquer e Fernando sentiu medo.
Apalpava a parede quando ouviu um clique. Tentou se mexer, mas tinha uma mão presa. Era algo frio, forte. Nem teve tempo de se livrar daquele objeto quando o ruído se repetiu. Com as mãos imóveis, literalmente emboscado, sentiu pânico e desvencilhar-se foi algo impossível naquele momento.
- Shiiiiiiiiiiii. Foi o único som que ouviu.
Tão rápido que não identificou quem poderia estar ali. Perguntou várias vezes, mas não obteve resposta. Um ser estranho estava no seu banheiro, por uma dessas incríveis coincidências, conseguira prendê-lo com pouco esforço, e ele não sabia o que fazer.
Uma mão tocou os pêlos dos braços firmes para perceber a textura. Depois, no peito, dedos percorriam o tórax bem definido. Pausa nos mamilos e ele não pode mais negar: estava excitado. Os dedos foram hábeis e a toalha caiu. Fernando sentia apenas a respiração e o calor do outro corpo, que lhe tocava apenas com a língua.
Uma língua quente, doce, ágil na medida ideal, percorria-lhe a barriga, os pêlos pubianos, depois pulava para as coxas, passava pela divisão entre as pernas e chegava aos pés. Parecia um delírio, alguém ali, de quatro, beijando-lhe os pés com devoção. O caminho de volta foi mais rápido.
Antes de sugar-lhe, sentiu a pele do rosto se esfregando no pau. De novo para sentir a textura. A respiração já era alternada e ofegante quando foi engolido. Um prazer inusitado percorreu-lhe a espinha. Desejou pegar aquela cabeça para que não parasse tão cedo, mas foi impossível. Não tinha como agir. Ele, um homem forte e determinado, viu-se passivo. E a pessoa lá embaixo, num vai e vem guloso, alternando movimentos lentos com rápidos, sorvendo-lhe como podia. Não foi preciso muito tempo. O inusitado do momento trouxe-lhe o gozo. Na boca.
As pernas ficaram bambas, Fernando foi ao chão e ali mesmo dormiu. Estranho foi ser acordado, nu, pela empregada no dia seguinte. Constrangido, não encontrou palavras para se explicar. Curiosamente, no criado havia uma chave que abriu as algemas, só naquele momento definitivamente reconhecidas. Ao lado delas delas, um bilhete.
- Foi bom pra você?
Posted by joao at 04:22 PM. Filed under: Geral
4 comments • Permalink
Não eram apenas do tempo, as marcas no rosto de Rosângela. Entre uma pequena ruga e outra, podia-se ver um pouco de dor, uma quirela de tristeza, e, principalmente, muito desencanto e desapontamento.
Não foi fácil encontrar forças para recomeçar. Anos dedicados a um casamento que supunha feliz, noites inteiras chorando em silêncio na cama, dias completos vividos para ele. Que de repente, resolveu mudar de ares, mulher, vida, casa, perfume e muitos outros pequenos detalhes, que só a verdadeira intimidade conhece.
Segunda-feira foi um dia significativo pra Rosângela. Mesmo com o mau tempo, arriscou sair de casa. Pegou na gaveta um velho maiô azul. Não gostou do que viu no espelho, mas não desistiu de cara. Afinal, era preciso dar o primeiro passo. A calça preta colante ajudou a esconder um pouco das gorduras indisfarçáveis. Ela estava pronta.
Cinco minutos depois de começar a aula, pensou em desistir. Para alguém que estava saindo do buraco, era muito complicado mexer os braços junto com as pernas, com os pés fazendo pique num canto, depois no outro, sobe no step, pula pro outro lado, volta, pega a tornozeleira, os halteres, faz abdominal, agora os glúteos, alongamento, mais abdominal, ufa. Percebeu que suava e deu um discreto sorriso.
Conseguiu forças não se sabe de onde. O fato concreto é que já tinha aprendido a movimentar as pernas corretamente. Percebeu o ritmo do grupo e continuou. Mesmo com a frieza dos companheiros de aula, sentiu-se bem, animada pra voltar no dia seguinte.
Na terça, já abandonara a vestimenta esmaecida pelo tempo. Usava uma roupa nova. Arriscou intercalar o movimento dos pés com o dos braços e se deu bem. Viu que era capaz. Inspirou profundamente, levantou a cabeça, estufou o peito. Fez a aula inteira e sorria muito a cada gota de suor que caía.
Destemida, não errava mais nenhum passo daquele ritual que propunha perda de peso, bem estar etc. e tal. Quase no final da última coreografia, não se conteve e soltou um grito bem alto. Foi uma catarse. Teve certeza de que nunca mais seria a mesma. E sentiu-se profundamente feliz e orgulhosa por isso.
Posted by joao at 06:51 PM. Filed under: Geral
7 comments • Permalink
- Você deveria ter me avisado.
- Como avisar algo que nem eu sei.
- Sabe sim. Como não sabe?
- Eu não planejei nada. Aconteceu.
- Você pensa que eu sou idiota. Isso não é o tipo de coisa que simplesmente acontece. Tinha que ter espaço pra isso.
- Não, eu juro. Foi tudo muito casual.
- Imbecil, idiota, canalha.
- Por favor, não leve as coisas pra esse lado.
- Olhe bem na minha cara. Eu pareço idiota? Tenho jeito de idiota? Não estamos mais numa época em que as coisas simplesmente acontecem. Pelo amor de Deus.
- Tá, tudo bem. Vamos dizer que eu colaborei um pouco pra que isso acontecesse.
- A sua colaboração foi definitiva. Do princípio ao fim, você agiu com a determinação necessária pra que isso tudo fosse exatamente como aconteceu.
- Me perdoe.
- Não. Eu não te perdôo. E quero que você olhe bem pra minha cara.
- Eu te amo.
- Ama porra nenhuma. Ama o caralho. Você não ama ninguém.
- Não, não é verdade. Eu amo você.
- À merda com este amor. Olhe bem pra mim. Vamos, olhe!
- Eu te amo.
- Esta é a última vez que você está me vendo. Sente o meu cheiro?
- Eu te amo.
- Sinta o cheiro dessa pele. Você nunca mais vai me ver. Nunca mais vai me tocar.
- Me perdoe, eu amo você.
- A partir de agora, eu vou ser apenas uma lembrança. Não, melhor. Vou ser uma presença.
- Eu te amo.
- Uma presença equivocada na sua vida, que você nunca mais vai ter notícia. Esqueça que eu existo, esqueça meu nome, esqueça meu telefone. Esqueça também o meu endereço. Nem no seu pensamento eu quero estar presente.
- Eu te amo.
- Ama porra nenhuma. E pare com essa chantagem emocional barata e mesquinha.
- Não me deixe.
- Já deixei. Se você não está entendendo, eu explico. Estou saindo agora por essa porta. E a partir de hoje, eu não conheço mais você. Entendeu? Eu não conheço mais você.
- Não me abandone.
- Verme. Pústula. Canalha. Como pôde fazer isso comigo? Você deveria ter me avisado.
- Eu te amo.
- Você deveria ter me avisado.
Posted by joao at 05:32 PM. Filed under: Geral
16 comments • Permalink
Honestidade era coisa certa na vida de João. Tanto que ele fazia questão de dizer isso o tempo todo.
- Não sou de dar prejuízo pra ninguém. Mas também não aceito que me façam de bobo.
Quando reunia os filhos para passar aquele sermão, sempre fazia questão de lembrar:
- A única coisa que um homem tem de verdade é o caráter. Por isso, sejam sempre corretos. Nunca permitam que um cobrador bata à sua porta. Honrem seus compromissos e não deixem que ninguém passe vocês pra trás.
Os rapazes sempre ouviam aquilo com muita atenção e nunca arriscavam contrariar os mandamentos do querido pai.
Certa vez, já de cabelos brancos, mas sem nenhuma ruga no caráter, aguardava na fila do banco. A idade lhe garantia atendimento mais rápido. Perto de quitar os compromissos no caixa, um outro homem corta a sua vez. Ficou furioso e bateu-lhe nos ombros.
- Escute aqui. O senhor não está me vendo? - questionou levemente irritado.
- É que eu estou com pressa!
- Isso é um problema seu. O senhor não está me vendo aqui? Eu não aceito que faça isso comigo. Se está com pressa, me peça licença. Eu deixaria o senhor ser atendido na minha frente. Mas não admito que me faça de palhaço. Está vendo algum palhaço aqui?
- Bem, eu, eu...
- Não tem eu, nem mais eu, nem menos eu. O senhor aprenda a ter educação e respeitar os outros. Na minha frente não. Na minha frente não, que eu não sou homem pra ser feito de besta.
Toda a agência bancária estava imóvel e muda. João foi atendido imediatamente pela funcionária do caixa, que mal respirava. Poucos minutos depois, foi embora com a dignidade intacta.
Posted by joao at 09:18 PM. Filed under: Geral
3 comments • Permalink
As apostilas do Colégio Bom Jesus estavam ensopadas. É que já fazia muito tempo que Fernanda as tinha colocado entre os pés, no chão, debaixo da garoa fina que caía numa quarta-feira qualquer. Ela nem se dera conta, mas bons minutos tinham se passado.
Fernanda entrelaçara-se com Felipe. As mãos dela abraçavam a cintura dele, segurando-a com força, sem ser rude. Ele por sua vez, pegava-lhe, também na cintura, com a mesma determinação. Apesar do frio, estavam só com o uniforme do colégio. Beijavam-se docemente. Não tinham pressa, nem se incomodavam com os carros, nem as pessoas, muito menos com os guarda-chuvas que trombavam pelo ar.
Era um beijo bem bonito de ser visto. Calmo, tranqüilo, afetuoso, desencanado, tudo de bom. Suave, interminável, quase infinito, de causar inveja. Já era quase noite, mas isso não tinha nenhuma importância também.
Fernanda e Felipe eram almas leves. Acreditavam que aquele amor de adolescente duraria a vida inteira. Imaginavam até que poderiam morrer, caso um faltasse ao outro. Os sonhos ainda tinham colorido. As ilusões, meu amigo, não estavam perdidas.
Duas amigas, cúmplices do ato, conversavam sobre amenidades, poucos metros dali. Estavam preocupadas se Cláudio e Edwiges conseguiriam, enfim, superar os problemas e, no fim, tudo daria certo. Muito de vez em quando espiavam os amigos, que ainda não haviam parado de se beijar. Em nenhum momento pensaram em fugir daquela garoa, arrumar alguma proteção, evitar uma gripe etc. e tal. Isso também não era importante.
Quando se tem 14, 15, 16 anos, apenas se vive. Como se não houvesse mais ninguém no universo. Como se o mundo fosse acabar amanhã e, por isso, o agora é pra valer e só ele importa. Não há medo. Optam pelo beijo. São egoístas. Querem o mundo pra si.
O futuro? Bem, o futuro é uma grande bobagem de gente responsável. E eles não estão preocupados com isso. O beijo de Fernanda e Felipe teve a medida exata do afeto, da crença de que aquele era o momento mais importante e feliz da vida de cada um.
Posted by joao at 03:16 AM. Filed under: Geral
20 comments • Permalink
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade da mãe que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.
Mas, a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se
amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro
sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada;
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial;
Se ela aprendeu a estacionar entre dois carros;
Se ele continua preferindo Malzbier; se ela continua preferindo suco; Se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados;
Se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor;
Se ele continua cantando tão bem; se ela continua detestando o McDonald's;
Se ele continua amando;
Se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos;
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento;
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música;
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os
amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer;
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você,
provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...
"...quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudade, mas não estará só!" (Amyr Klink)
Recebi este texto da minha aluna de pós-graduação, Patrícia Schmidt. Achei-o tão bonito e quis compartilhá-lo.
Posted by joao at 04:16 PM. Filed under: Geral
12 comments • Permalink
- Você não sente a minha falta?
- Muito.
- E não vai fazer nada?
- Como assim?
- Não vai fazer nada pra mudar essa situação?
- Bem...
- Eu preciso que você tome uma atitude.
- Como assim?
- Alguma coisa como beijar a minha boca agora, como dizer que quer trepar comigo, que gosta de imaginar a gente na cama fazendo um monte de coisa, que gosta de acordar comigo, que acha legal procurar pela minha mão durante a madrugada, que gosta de ser beijado nas costas, que se excita quando nossas pernas se roçam debaixo da coberta. Essas coisas simples.
- E depois?
- Depois a gente vê. Agora é hora de viver. A vida é curta.
- Mas eu tenho medo.
- O medo te aprisiona. Viva, viva, prenda o medo num cofre e jogue-o no fundo do rio.
- Mas...
- Você não vai me beijar nunca?
Posted by joao at 12:26 AM. Filed under: Geral
13 comments • Permalink
No caixa do Carrefour:
- Nossa que anel lindo!
- Obrigado.
- E essa aliança? Por que é tão grossa?
- Porque é do tamanho do meu amor.
- Meu Deus, olhe o tamanho da minha...
- O que tem?
- Pelo tamanho da sua, acho que o meu marido não me ama.
- Pode ser mesmo. Talvez ele não te ame. Mas de repente, é só um jeito de ver as coisas.
No banheiro da boate:
- O seu anel é de ouro?
- Hã?
- O seu anel. Ele é de ouro?
- Ah, o anel. Sim, de ouro.
- Logo vi.
- Hã?
- Que era de ouro. Um homem que usa camisa M.Officer, calça VR, não poderia nunca usar bijuteria.
- Ah! Então tá.
Posted by joao at 03:19 AM. Filed under: Geral
3 comments • Permalink
O coração de Pedro parecia uma bigorna. Estava pesado, meio cinza, quase chumbo. Ele não tinha idéia certa de quando exatamente sentimentos tão ruins, pesados, tinham começado. Cada carro que passava na avenida parecia um problema. No rádio, nada que prestasse. Ficou tão furioso que retirou a frente do aparelho de som e guardou debaixo do banco. Precisava parar numa igreja. Não importava qual. Era fundamental um lugar onde se sentisse menos desamparado.
Bateu a porta e nem se lembrou de ligar o alarme. Cruzou a entrada da igreja e já se ajoelhou. A mãe sempre lhe ensinara que para falar com Deus, se quisesse mesmo ser atendido, era preciso humildade. Colocar-se diante do Pai com reverência, em sinal de respeito mesmo.
Antes de começar a prece, lembrou o que lera num livro sobre pedir coisas a Deus. Era preciso tomar cuidado porque ele, Deus, poderia sim atender todos os pedidos.
“Senhor, meu Deus, meu eterno e bom Pai Celeste. Mais uma vez estou aqui diante de ti. Primeiro para lhe pedir perdão pelos meus pecados. Depois para lhe agradecer por mais este dia de vida. Ultimamente não tem sido muito fácil. Sei que isso tudo servirá para o meu crescimento. Mas está uma barra. Agora mesmo, estava perdido por aí, sem saber aonde ir. Certamente o Senhor já percebeu como anda o meu coração. Está angustiado demais. Fico na dúvida se precisa ser assim. Confesso que tenho me esforçado, mas me sinto fraco. Hoje eu queria te pedir um pouco mais de discernimento. De paciência para poder enfrentar esta fase. Se eu conseguisse um pouco mais de sabedoria, talvez pudesse sofrer um pouco menos. Eu tenho família, tenho trabalho, tenho amigos queridos. Mas falta algo. O que é isso? O Senhor pode me ajudar a descobrir? Eu coloco a minha vida em suas mãos. Faça dela o que for melhor pra mim. Ajude-me apenas a entender o seu propósito. Aquiete a minha alma, abençoe a minha vida. Tudo que eu lhe peço e suplico, não é em meu nome, nem em meu merecimento. Mas porque sei que o Senhor é bendito e eterno. Amém.”
Pedro secava os olhos quando voltava para o carro. Antes de abrir a porta, um rapaz mal vestido puxou conversa.
- O senhor estava na Igreja?
- Sim.
- Lê a bíblia?
- Sim.
- Conhece os Salmos?
- Sim.
- Veja...
O rapaz levantou a camisa. Nas costelas e parte da barriga, a tatuagem: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com as suas penas; e debaixo das suas asas estarás seguro: a sua verdade é escudo e broquel.”
- Gostou?
- Muito.
- Acabei de fazer. O senhor é a primeira pessoa que vê.
- Muito obrigado. Você mudou o meu dia.
Pedro abraçou o rapaz. Ligou o carro e foi pra casa sentindo-se muito melhor. E em paz.
Posted by joao at 03:23 PM. Filed under: Geral
5 comments • Permalink