Quando a gente ouvia a sandália se arrastando pelo corredor da Escola Estadual Professor Francisco Villanueva, sempre tinha alguém pra lembrar:
- Ih, hoje ela tá misturada.
Mau humor e dona Verônica eram sinônimos. E ninguém entendia a razão.
Veja bem: nós éramos alunos de uma escola pública, num bairro pobre e mal falado de Rolândia. Ela vinha do centro, de carro, tinha dois filhos e uma filha - todos muito bem apessoados - usava roupas bonitas, fazia questão de humilhar a gente, contando vantagens sobre a vida gloriosa que levava.
Eu, um verdadeiro cu-de-ferro, certa vez não fiz o dever de casa. Rapaz... a professora de matemática ficou tão braba, mas tão braba... Pegou o meu caderno e gritou:
- Vou escrever um bilhete pra sua mãe!
A classe inteira murmurou, já ciente que a minha mãe era chegada em dar umas boas pisas em mim.
- Viiiiiiiiixxxxxxxxxxxxxxxxiiiiiiiiiiiiii!
- Amanhã eu quero a assinatura dela aqui no seu caderno. Quero ver se você aprende alguma coisa.
- Escreve bem grande, viu professora. Minha mãe não enxerga muito bem.
- Além de tudo, você é um abusado. Você me dá nos nervos, nos nervos, frisou.
Como eu imaginara, minha mãe nem deu bola pro recado. Até hoje não sei o porquê. Dona Alice sempre foi muito enérgica.
Sucedeu que no dia seguinte alguma coisa tinha acontecido. Depois da farra no recreio, tocou o sinal, todo mundo correu pra sala. Silêncio pra identificar as pisadas de Verônica. E não é que elas estavam mais leves?
A professora entrou na sala diferente. Inicialmente houve um silêncio. Ela foi olhar o dever de casa, caderno por caderno. Na imaginação daqueles impúberes, o que poderia ter ocorrido?
Quando ela estava na segunda fila, alguém começou a fazer sinal. Havia uma mancha vermelha no pescoço dela. Dona Verônica andou mais um pouco. Eram chupões. E havia mais no outro lado do pescoço.
Foi o suficiente para um garotão cheio de espinhas (não fui eu) decifrar:
- A professora meteu com o marido dela.
Publicado em 06 de junho de 2003 às 01:11 por joao