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This is the archive for June 2003

Wednesday, June 25, 2003

- Alô.
- Parabéns pra você, nessa data querida... Queria ser o primeiro.
- Muito bem, conseguiu. E me deixou muito feliz.

- Desculpe, não queria te cumprimentar na frente daquele cara.
- Não tem problema.
- Parabéns, felicidades, muita paz pra você.
- Obrigado. Estou precisando.

- Hoje é teu aniversário? Parabéns.
- Obrigado.

Eu e minha mãe, a Dona Alice, no meu aniversário do ano passado. É que a foto ficou mais bonita do que a deste ano.

- Preenche esse cheque pra mim.
- De quanto?
- Preenche aí vai. E não reclama. É pra você.
- Não precisa se incomodar, mãe.
- Meus parabéns, meu filho.
- Obrigado, obrigado.
- Deus te abençoe.

Vânia, Dulce e Laine. De costas, a encabulada Luisa, minha sobrinha-neta. São as mulheres da vida do meu irmão, David

- Oi tio. Parabéns.
- Obrigado, querida, obrigado.

Os queridos alunos da Metropolitana. Lá atrás, a Izabela, Arlete e Kellen. Sentados, a Paulinha, Michele, eu e o Davizinho, Sílvia, Angélica, Emerson, Guilherme (atrás) e Patrícia. Mais à frente, a Elaine e a Thais. Lindos, amo vocês. uau!

- Que legal vocês terem vindo.
- Parabéns. Eu estava com saudade.
- Eu também.

Esta é a Raquel, a mais generosa das amigas, por quem tenho um amor profundo. E o melhor: é espiritual, inteiro, sem exigências. Desses pra durar a vida toda.

- Meu amor, que saudade!
- Eu é que digo, que saudade.
- Eu te amo, viu. Não se esqueça nunca. (abraço longo)

- Alô!
- Edi?
- Sim.
- Parabéns, felicidades, tudo de bom. Você está melhor?
- Hoje sim, bem melhor.
- Estou orando a Deus todos os dias. Fique bem.

Esses são meus amigos da redi grobo: a Patrícia Piveta, o Marcelo Rocha (que me ajudou a descobrir que o celular não estava funcionando), a Simone Pavin, eu e a Raquel. Nós somos lindos!

- Alô?
- Vivo, Ana Paula, boa tarde.
- Boa tarde. Você sabia que hoje é meu aniversário e ninguém consegue falar comigo?
- É o seu celular que deve estar com a programação errada.
- Mas ontem eu recebi uma ligação.
- O senhor vai estar tendo que estar ligando de um telefone fixo pra gente reprogramar.
- Não tem outro jeito?
- Infelizmente não.
- Então tá.
- Obrigada por ligar pra Vivo e feliz aniversário pro senhor.
- Obrigado.

No momento exato que a Ana Paula me desarmou e botou a minha fúria canceriana pra correr.

(em coro, na rodoviária) – Tchau, Edenilson.
(aceno) – Tchau. E obrigado por tudo.

- Alô.
- Oi.
- Quem está falando?
- É o Léo.
- Oi, estou no ônibus.
- Liguei pra te cumprimentar. Feliz aniversário!
- Obrigado. Fiquei feliz por você ter ligado.


- Oi tio.
- Oi, meu amor.
- Foi bem de viagem?
- Sim. O ônibus atrasou porque tinha muita cerração.

- E aê?
- Tudo bem?
- Tudo. E você.
- Tudo, também.

Em casa:
- Nossa, que é isso?
- Pra você.
- Espero que esteja bem quentinho.
- Eu resolvi comprar pra comemorar. Uma torta salgada, um bolo, Fanta Uva e Tampico.
- Ótimo. Estou morrendo de fome.
- Qual pedaço você quer?
- Pode ser esse aí.

Depois de levar minha sobrinha embora:
- Dá uma olhadinha no blog.

Algum tempo depois...
- Nossa, que lindo. Obrigado. Obrigado.

Esse sou eu quando eu era pequeno. E consegui me pegar no colo hehehe...(brincadeirinha, esse é o Davizinho, meu sobrinhozinho, queridinho e lindinho. Uia!)


Foi assim o dia 22 de junho de 2003. Completei 33 anos com o coração cheio de alegria, rodeado por gente muito bacana, que eu sei que me ama e que eu amo também. Quem não pôde estar de corpo presente, deixou mensagens na caixa postal. Ligaram o Clecio, o Jonas, o Júlio, a Jossânia, o Ricardo, a Rose, o Juliano, o César, o Appoloni, minhas duas irmãs - Madalena e Laldeci, o Sandro, e, vejam só, até o Keno, que está lá nos Estados Unidos. Também recebi cumprimentos antecipados do James, na sexta, e do Tiaguinho, no Valentino. Assim, mais um ano passou. E é por conta de um dia como esse, que eu continuo acreditando que a felicidade existe sim, naquilo que há de mais simples.

Monday, June 23, 2003

FLOR-DE-MARACUJÁ

(de 1/6 a 23/6 )



Para os atlantes, essa flor é o símbolo da dualidade da natureza. As pessoas que nascem sob o signo de Flor-de-Maracujá podem ser bastante duais. Às vezes, aparentam uma determinada coisa, embora tenham uma essência absolutamente oposta. São falantes e decididas, mas às vezes se retraem e deixam de agir porque receiam errar. Podem encontrar a felicidade quando conseguem estabelecer um ponto de equilíbrio entre as energias opostas que agem em sua personalidade.

Sunday, June 22, 2003

E naquela manhã, Deus compareceu ante suas doze crianças e em cada uma dela plantou a semente da vida humana. Uma por uma, cada criança deu um passo à frente para receber o Dom que lhe cabia.

“A ti, Câncer, atribuo a tarefa de ensinar aos homens a emoção. Minha idéia é que promove neles risos e lágrimas, de modo que tudo o que eles vejam e sintam desenvolva uma plenitude. Para isto, eu te dou o Dom da família, para que tua plenitude possa multiplicar-se”.

Saturday, June 21, 2003

Aquelas horas pareciam cinzentas, intermináveis, reconfortantes. Parado, agora em pé, viu a vida passar tão rápida quanto aquele carro, multado em seguida pelo guarda de trânsito. Guarde a minha vida, vele o meu desejo, controle minha ânsia, faz-me único, absoluto, feliz sobre todas as outras coisas. Venha sem licença, faça até o que não quiser. Confesso-me louco, santificadamente maluco para desejar não só mais um beijo, e sim, o prazer completo de ser inteiro, sem ressalva alguma. Beije a minha boca novamente e não diga nada.

Tire minha roupa agora. Ai meu Deus. Perceba minha respiração, ria de mim com prazer. Misericórdia. Beije sim o meu umbigo. Cheire minha pele, segure firme a minha cabeça. Minha boca é tua, meu ar é teu, meus olhos só enxergam você, meus ouvidos ouvem só o teu ofegar, o nariz sente apenas o teu cheiro. Mande e eu obedeço. Eu quero amar assim, sem pudor algum, sem poder nenhum, apenas com toda força da minha alma tua. Abuse de mim, eu sou completamente teu.

Face vermelha, olhos cheios. Ria discretamente enquanto uma lágrima caía aqui, outra ali, e mais uma e outra. Viu as mãos paradas no ar. De longe, parecia um leve movimento de bailarino. Toda ebulição quando termina provoca sensação de dever cumprido. Baixou a cabeça em câmera lenta. Atravessara a rua quando ouviu a buzina. Olhou. Sorriu docemente quando viu, pela janela, a menina de cabelos encaracolados sorrindo, fazendo um pequeno aceno repleto de ternura.

Thursday, June 19, 2003

No canto da boca de Daiane ainda sobravam restos do pedaço de pêssego em calda que ela comia com volúpia. Passou a língua pelos lábios e sorveu o doce que restava. A menina de pouco mais de 13 anos tinha raros momentos como esse. Andando pelo acostamento, ainda mantinha traços evidentes da infância. Na bolsinha de pano, envelhecida, trazia uma boneca Moranguinho. Volta e meia, dava um bom cheiro naquela borracha. Pra ter certeza que estava viva. Isso sempre acontecia nas voltas. Antes, ela parava pra conversas cruelmente dúbias.
- Tenho um doce pra você.
- Jura? Onde?
- Ali ó, na cabine.
- O senhor não vai me fazer mal?
- Eu???? Nunca. Só vou te fazer uns agrados. Quer subir?
- Não vai demorar?
- Não. É rápido.

Daiane subia na boléia. O homem mal cheiroso dava um jeito pra que ela passasse por cima de suas pernas pra entrar no caminhão. Já sem calcinha, era sempre rápido. Entre uma mordida de paçoquinha, um pedaço de doce de coco, algumas balas Sete Belo e um pirulito de morango, o barrigudo deixou o cheiro de água sanitária nas pernas da menina. Antes de ir embora ganhou cinco reais e agradeceu:
- Obrigado viu, tio!
- Nada, criança, nada. Semana que vem estou aqui de novo. Se vier, tem chocolate.

Ela arrumou a camiseta branca, deu um jeito na saia de pregas e foi embora. Ficou tentando imaginar o que era chocolate. Tempo depois ganhou um Chokito. Gostou e voltou outras vezes. Pra repetir.

Monday, June 16, 2003

O caldo do feijão começava a engrossar quando alguém bateu palmas lá fora. Regina ficou impaciente e reclamou do incômodo naquele momento. Atendeu rápido.
- Ora, é você. Está atrasado heim?!, disse ao carteiro.
- Pois é. São as dores. Machuquei o pé e estou mancando. Por isso a demora. Tem carta pra senhora.
- Cobrança?
- Não, carta mesmo.
- Sério? Faz anos que eu não recebo uma carta.
- Hoje é o dia. Passe bem!
- Obrigado e desculpe o meu jeito. Estou com o feijão no fogo.

Depois de certificar que o feijão não queimaria, enxugou as mãos no avental, sentou e abriu a carta.

“Querida Regina,
Imagino que você deve estar surpresa. Confesso que até mesmo eu não estava muito certa em lhe escrever. Nessa época de tanta tecnologia, internet, celular, e-mail, quem tem tempo pra escrever uma carta? Quase ninguém.
Para que seu coração não saia pela boca, vou avisando logo: não aconteceu nada de grave. Só uma saudade imensa. De você, da sua família, do nosso tempo na escola. Pensei nas peças que a vida acaba nos pregando. Mesmo com essa distância tão grande, sinto você muito perto. Minha grande e melhor amiga. As coisas por aqui não deram muito certo. Depois de um casamento supostamente feliz, me separei. Ainda tento juntar alguns cacos, recomeçar e tem horas que parece que não vai ser possível. Eu engordei um pouco. Já não tenho mais o viço da juventude, o entusiasmo, a ilusão. Mas estou levando.
Dia desses sonhei com você, por isso decidi escrever. A gente caminhava numa praia, molhava os pés na água, ria de tudo e de todos. Estávamos felizes. Queria sentir isso tudo de novo. Cá estou escrevendo, com uma vontade imensa de deitar no seu colo e abrir meu coração. Dizer que eu me esforcei bastante, que lutei até onde pude. Mas infelizmente não deu. O Paulo foi embora mesmo. Nunca mais tive notícia. A casa ficou grande demais, a cama grande demais, o quarto vazio demais. Preciso de companhia. E tinha que ser você.
Desculpe a melancolia, aceite o meu abraço, o meu afeto, o meu amor.
Da sua amiga de sempre,
Ana Cláudia”


Regina não segurou as lágrimas. Dias antes também tinha sonhado com a amiga. Deixou na geladeira um bilhete aos filhos e ao marido. Colocou duas mudas de roupa na mala, foi pra rodoviária e embarcou. Precisava dar colo à amiga querida.

Thursday, June 12, 2003

Clara teve certeza absoluta quando abriu a gaveta da cômoda. A calcinha cor-de-rosa de algodão quase pediu pra ser usada. Ela, a Clara, queria que tudo desse certo naquele dia. Colocou a lingerie, passou a mão pelo elástico, aprovou o que via no espelho e se vestiu.
Encontrou Fernando um pouco impaciente.
- Que demora!
- Estava me arrumando pra você.
- Bom, tudo bem, valeu a pena esperar. Você está linda.
- Só pra você.

Beijaram-se docemente. Quem passava pela rua, ficou encantado. Tinha clima de romance no ar, algo que palpitava, que fazia diferença naquela tarde de muito sol e frio.
- Eu te amo!
- Eu também.
- Não, assim não vale. Tem que dizer com todas as letras.
- Tá bom. Eu te amo.
- Tem algo que eu possa falar sem parecer piegas?
- Nada que você me fala é piegas. Eu pelo menos não acho.
- Bem, eu quero te dizer que esses últimos tempos com você têm sido de uma alegria incomparável.
- Sei...
- Você mudou o jeito que eu vejo o dia. Eu acordo diferente, eu tomo café de outra maneira, eu trabalho melhor. Até um girassol eu consegui enxergar pela janela.
- O que mais?
- Você me fez sonhar de novo, fez eu acreditar no amor, no que ele tem de melhor e mais sincero. Você me faz muito feliz, ilumina a minha vida. Como a gente pôde ficar tanto tempo longe um do outro?
- Era pra ser agora.
- Eu amo você.
- Eu também. Eu também amo você.

De noite, na cama, Clara relembrou a conversa e dormiu muito feliz. Ela que passou tanto tempo desiludida, agora refazia planos. E sentia-se convicta de que amar é a melhor coisa do mundo.

Monday, June 09, 2003

O vento gelado que entrava pelo vão debaixo da porta arrepiou-lhe a espinha. Não se dava conta exatamente de quanto tempo havia perdido. Confuso, com idéias e lembranças desconexas, era impossível precisar o tempo. Por um momento questionou a palavra hospital. Tudo o que via e percebia ao redor era inóspito.
Mal conseguia mexer os olhos. As vistas estavam por demais cansadas. De qualquer forma, não veriam muita coisa.
Um turbilhão lhe assombrava. Sentiu, enfim, a falência. Total e irrestrita. Remexeu no passado e encontrou pouca coisa. Foi amargo na maioria das vezes. Cruel de maneira desnecessária. Arrogante e impiedoso, creu no dinheiro e sua força. Matou.
Nessa pequena revisão entendeu, enfim, o significado da palavra vazio. Não pode se comparar nem mesmo ao “copo vazio cheio de ar” de um poeta cujo nome desconhecia. Percebeu e aceitou tudo o que lhe restava: a mais profunda indiferença.

Saturday, June 07, 2003

Filho: Posso falar com você?
Pai: Claro. Entre.
Filho: Sonhei com você essa noite.
Pai: Sonho bom?
Filho: Sonho. Só sonho.
Pai: E o que aconteceu nesse sonho?
Filho: Coisas boas.
Pai: Posso saber que tipo de coisas boas?
Filho: A gente era amigo.
Pai: Bem... (constrangido)
Filho: A gente era bem amigo e se dava bem.
Pai: Eu sou seu pai, é diferente.
Filho: Pai não pode ser amigo?
Pai: Acho que sim, se bem que com você eu fui sempre pai. E acho que pai é pai, amigo é amigo.
Filho: Não dá pra juntar as duas pessoas numa só?
Pai: Não sei, a gente pode tentar. Mas por que você está falando sobre isso?
Filho: Porque eu sonhei que você era meu amigo. A gente passeou de bicicleta, depois parou um pouco numa praia. Eu falei sobre uma garota que estou a fim. Você me contou uns segredos, falou até que sente medo do escuro.
Pai: É, eu sinto medo do escuro.
Filho: Estou numa dúvida muito grande.
Pai: O que é?
Filho: Eu posso amar você como pai de um jeito e como amigo de outro?
Pai: Pergunta difícil. Aliás, essa conversa também está muito difícil.
Filho: O que você sente por mim?
Pai: Como assim?
Filho: Que sentimentos você tem por mim? Você me ama?
Pai: Claro que sim.
Filho: Então me diz.
Pai: O que?
Filho: Isso, que me ama!
Pai: Por que isso agora?
Filho: Porque eu preciso ouvir isso de você.
Pai: Ora, que situação.
Filho: Pai, eu sou seu filho. Eu amo você. Mesmo que você não seja ou não possa ser meu amigo, eu amo você, entendeu?
Pai: Filho...
Filho: Eu amo você. E precisava que você soubesse disso.
Pai: Me perdoe. Eu não consigo falar.
Filho: Consegue sentir que eu te amo.
Pai. Sim.
Filho. Então isso basta.


Friday, June 06, 2003

Quando a gente ouvia a sandália se arrastando pelo corredor da Escola Estadual Professor Francisco Villanueva, sempre tinha alguém pra lembrar:
- Ih, hoje ela tá misturada.
Mau humor e dona Verônica eram sinônimos. E ninguém entendia a razão.

Veja bem: nós éramos alunos de uma escola pública, num bairro pobre e mal falado de Rolândia. Ela vinha do centro, de carro, tinha dois filhos e uma filha - todos muito bem apessoados - usava roupas bonitas, fazia questão de humilhar a gente, contando vantagens sobre a vida gloriosa que levava.

Eu, um verdadeiro cu-de-ferro, certa vez não fiz o dever de casa. Rapaz... a professora de matemática ficou tão braba, mas tão braba... Pegou o meu caderno e gritou:
- Vou escrever um bilhete pra sua mãe!
A classe inteira murmurou, já ciente que a minha mãe era chegada em dar umas boas pisas em mim.
- Viiiiiiiiixxxxxxxxxxxxxxxxiiiiiiiiiiiiii!
- Amanhã eu quero a assinatura dela aqui no seu caderno. Quero ver se você aprende alguma coisa.
- Escreve bem grande, viu professora. Minha mãe não enxerga muito bem.
- Além de tudo, você é um abusado. Você me dá nos nervos, nos nervos, frisou.

Como eu imaginara, minha mãe nem deu bola pro recado. Até hoje não sei o porquê. Dona Alice sempre foi muito enérgica.
Sucedeu que no dia seguinte alguma coisa tinha acontecido. Depois da farra no recreio, tocou o sinal, todo mundo correu pra sala. Silêncio pra identificar as pisadas de Verônica. E não é que elas estavam mais leves?

A professora entrou na sala diferente. Inicialmente houve um silêncio. Ela foi olhar o dever de casa, caderno por caderno. Na imaginação daqueles impúberes, o que poderia ter ocorrido?
Quando ela estava na segunda fila, alguém começou a fazer sinal. Havia uma mancha vermelha no pescoço dela. Dona Verônica andou mais um pouco. Eram chupões. E havia mais no outro lado do pescoço.

Foi o suficiente para um garotão cheio de espinhas (não fui eu) decifrar:
- A professora meteu com o marido dela.

Wednesday, June 04, 2003

Nem o cinzento dos últimos dias conseguiu apagar o tamanho da felicidade de Emerson. Ele descia a avenida Silva Jardim. Mal ajambrado, parecia flutuar. Não dava passos, levitava.

O frio e a chuva não o impediram de viver uma experiência única. Aos 20 e poucos anos, fez amor. Não, ele não transou. Fez amor.

Era algo que ele queria e esperava muito. Rolou inesperadamente, sem nenhum planejamento. Não tinha música romântica. Não tinha luz apropriada. Não tinha perfume. Só os dois corpos e o vento que entrava pela janela.

Depois de uma conversa banal, o primeiro beijo. De leve, querendo reconhecer os lábios. A cada mordiscada, as línguas se roçavam. Foi assim por bons minutos.

Contornou a face com os dedos. Sentiu os pêlos da sobrancelha nos lábios. Voltou à boca entreaberta. Mais beijos.

A mão estava na cintura, forte. Dava pra sentir a pele. Tirou a camisa e sentiu o nariz reconhecendo seu corpo. Os beijos agora já fazem um caminho confuso, interessante.

O tempo parecia parado. Sem esforço algum, os corpos foram se entrelaçando, se encontrando, se encaixando. Viraram um. O encontro era completo. Poucos movimentos, espontâneos. Uma plenitude.

As bocas se reencontraram de novo,urgentes, inquisidoras.
Aninharam-se, amoldaram-se. Os dedos dos pés ficaram rijos. Os corpos se contraíram.

Não fumaram cigarro algum. Dormiram um pouco.

A Silva Jardim foi pequena pra tanto prazer. O universo todo estava ali, sem licença. Depois de tanta espera, Emerson, enfim, encontrou o amor.

Tuesday, June 03, 2003

O coração até tinha compasso, mas o ritmo era bem lento. Quando Marta perdeu o ônibus, sentiu que também perdera algo mais.

Saiu pelas ruas e, no caminho, reviu a própria vida. Estava fraca naquele dia. Impotente para boas lembranças. Revolveu mágoas, vomitou silêncios, ficou inquieta.

Apertou o passo porque precisava chegar em casa mais cedo.
Comprara um vestido novo, uma nova fragrância cobria a pele do pulso e da nuca. Em casa, não precisou tomar banho.
Colocou uma calcinha branca. O sutiã era de algodão, bem bonito.

Repetiu as 50 escovadas no longo cabelo. Acertou os últimos detalhes do vestido. Olhou-se no espelho. Sorriu com ternura, como há muito tempo não conseguia.Abriu a bolsa. Pegou o batom. A cor lembrava vinho tinto de uma boa safra. Contornou o lábio superior. Depois, calmamente, o inferior.

Não podia esperar mais. Sacou uma arma e deu-se um tiro bem no meio dos olhos.

Monday, June 02, 2003

Madalena chegou de São Paulo e comunicou à família:
- Obedeci a Deus!
A notícia encheu a todos de alegria. Num lar de evangélicos, isso significava que ela, por livre e espontânea vontade, batizou-se na Congregação Cristã no Brasil. Havia mais surpresas.
- Vou terminar com o Vilson.

Silêncio geral. O namoro com ele já virara noivado há algum tempo. Até dois cômodos meu pai, o seo João, construíra para o futuro casal no mesmo quintal que o nosso. Estupefatos e pensando na festa que não se realizaria, dona Alice, minha mãe, perguntou:
- E por que, minha filha?
- Eu conheci o Ismael, servo de Deus.
Alívio geral, já que Vilson não era da graça.

Eu deveria ter uns cinco anos de idade e achei tudo muito estranho. Eu e Vilson éramos cúmplices. Como eles só podiam namorar na minha presença, eu era comprado com muita bala, doces, bexigas etc.
Muito tempo depois, Madalena me confessou que os beijos eram bem mais do que calientes em muitas vezes. Então compreendi a razão de tanto suborno e porque eu tinha que demorar bastante no parquinho.

Madalena nunca esteve tão decidida.
Desfez o noivado. Houve muita lamúria de Vilson, do pai e da mãe dele, que apreciavam a moça trabalhadeira, que morava há duas quadras da família, que era muito limpinha e caprichosa.
Madalena chorou muito. Embalada pela melodia de Cláudia Telles - Fim de Tarde e Eu preciso te esquecer - ela mudou o rumo de sua vida naquela viagem.

As lembranças que me ocorrem daquela época são muito ternas. Não tinha Vilson, João (o noivo anterior, filho do seo Geraldo - zelador da Escola Professor Francisco Villanueva - e da dona Luíza - a mulher que tinha os peitos bem caídos e não usava sutiã (este fato só fui entender muitos, muitos anos depois), nem ninguém.

Falava comigo como se adulto eu fosse. Como se eu pudesse compreender a razão de tantas mudanças.
Ela me arrumava, me deixava bonito pra irmos passear. Orgulhava-me de poder sair com ela. Quando tinha sonhos ruins, não se importava que eu dormisse com ela.

Chorei muito no dia em que se casou. Só de raiva, não tirei nenhuma fotografia com ela, nem com ninguém. Emburrei, me escondi.O verdadeiro amor de Madalena era eu.

Sunday, June 01, 2003

Last Night I Dreamt
That Somebody Loved Me
Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope no harm
Just another false alarm

Last night I felt
Real arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm

So, tell me how long
Before the last one?
And tell me how long
Before the right one?

The story is old - I know
But it goes on
The story is old - I know
But it goes on